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Após encerrar atividades em São Bernardo, Ford cogita fechar Campo de Provas de Tatuí

06

nov
2019

Após encerrar a produção de caminhões na fábrica de São Bernardo do Campo (SP), na semana passada, a Ford também cogita fechar o Campo de Provas de Tatuí, no interior de São Paulo. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Tatuí, a empresa pretende reduzir gastos terceirizando o local, permitindo que outras montadoras usem a estrutura para testes e ocupem as áreas ociosas. A informação foi apurada pela jornalista Soraia Abreu Pedrozo do jornal Diário do Grande ABC.

Inaugurado há 41 anos, o Campo de Provas de Tatuí abriga a maior pista de testes da Ford na América Latina, onde são desenvolvidos os novos modelos da marca.

De acordo com Ronaldo Mota, presidente do sindicato, a maioria dos funcionários é composta por engenheiros, mecânicos de teste, supervisores e técnicos, com média salarial de R$ 8 mil a R$ 12 mil. Na empresa desenvolvedora de protótipos cogitada para assumir a operação do campo, os vencimentos são bem mais baixos, variando entre R$ 3 mil e R$ 4 mil.

Um funcionário, que pediu para não ser identificado, disse à reportagem do Diário do Grande ABC que “a Ford quer fechar a unidade de Tatuí e transferi-la a um grupo de ex-diretores, para atuar como [empresa] terceirizada a várias outras montadoras. Esse plano contempla a demissão de 60% dos especialistas de sua unidade de desenvolvimento. Os cortes, porém, não incluem os benefícios que foram conquistados pelos trabalhadores da unidade de São Bernardo no programa demissionário. Mas a empresa tem sido irredutível para negociar isso”.

Segundo Mota, atualmente há 215 funcionários trabalhando no Campo de Provas, mas a Ford alegou um excedente de 110 profissionais, cerca de 51,1% do total. Desses, 75 são horistas (incluindo motoristas e mecânicos de teste) da época da Autolatina, a joint venture formada com a Volkswagen entre 1987 e 1996. O restante é formado por 35 mensalistas, como engenheiros e supervisores.

“O maior problema, além de anunciar que quer reestruturar a operação e reduzir gastos, foi a proposta feita aos trabalhadores para que eles sejam desligados da empresa. Quem está lá há até dez anos, receberia apenas dois salários adicionais, além das verbas rescisórias e bônus de R$ 8.350. De 11 a 20 anos, três salários. Acima de 20, quatro salários. E para quem tem estabilidade, cinco salários. Só que a maioria está de 30 a 40 anos na companhia. E o pacote é bem diferente do ofertado em São Bernardo, em que foram pagos até dois salários por ano trabalhado. Queremos equidade, ainda mais porque entendemos que se trata de um pacote que antecede o fim das operações”, explicou o sindicalista.

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Mota disse ainda que, antes de conversar com o sindicato, a Ford quis demitir por partes, primeiro de 25 a 30 profissionais, sem nenhum benefício, apenas com a rescisão tradicional. Com esse cenário, as atividades do Campo de Provas foram paralisadas durante uma semana no final de setembro e o caso foi denunciado ao Tribunal Regional do Trabalho de Campinas.

O sindicalista acrescentou que a Ford não pretende abonar os dias de paralisação. “Ela [Ford] propôs pagamento de 50% do valor e o restante vai para o banco de horas, além de mais 12 meses de estabilidade. Mas nós não aceitamos os descontos”.

 “Vale lembrar que a Ford recebeu mais de R$ 7,5 bilhões em benefícios na Bahia (para a construção da fábrica de Camaçari) e R$ 5,5 bilhões em empréstimos com juros subsidiados pelo BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), além dos subsídios de vários governos ao longo de sua história, como o programa Inovar-Auto”, disse uma fonte que pediu sigilo. A Ford não respondeu aos questionamentos do Diário do Grande ABC até a publicação da notícia.

Caoa ainda negocia compra da fábrica de São Bernardo do Campo

O Grupo Caoa manifestou interesse na compra da unidade do Grande ABC, mas ainda não concluiu as tratativas com a empresa norte-americana. Em setembro, uma comitiva de executivos da montadora chinesa Changan veio ao Brasil para acertar os detalhes sobre uma parceria com a Caoa para fabricar SUVs em São Bernardo do Campo.

Fotos: Divulgação

Sobre o autor

Editor. Começou a trabalhar no Carsale em 2012, mas gosta e acompanha o universo automotivo desde que se conhece por gente. Prefere carros compactos e práticos, mas se diverte da mesma forma quando avalia um utilitário no fora-de-estrada ou acelera um superesportivo num autódromo.