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Volks desenterra o escândalo do diesel para promover futura gama elétrica

06

jun
2019

A Volkswagen dos Estados Unidos resolveu tocar no assunto do escândalo das emissões de veículos a diesel, em que dados sobre o nível de poluição de motores a diesel de carros do grupo alemão foram fraudados para garantir a aprovação junto a agências reguladoras.

A trapaça foi descoberta em 2015 e causou um terremoto na cúpula da Volks — entre outros, o então todo-poderoso chefão global Martin Winterkorn foi derrubado — e uma conta salgada, bilionária, de multas aplicadas por agências reguladoras.

Nos EUA, como parte de um acordo com a Justiça, a montadora se comprometeu a investir US$ 2 bilhões no desenvolvimento de veículos elétricos (no total, a ampliação da gama elétrica  global vai custar cerca de US$ 50 bilhões até 2028).

Um comercial de TV que começou a ser veiculado nesta semana aqui nos EUA é um claro subproduto dessa guinada da Volks em direção aos carros elétricos, e o quanto ela tem a ver com o vexame de quatro anos atrás. Veja:

Na peça, após alguns áudios de notícias sobre o escândalo das emissões, um sujeito com pinta de designer faz uma brainstorm solitária, praticamente no escuro e ao som de “The Sounds of Silence” (clássico pacifista da dupla Simon & Garfunkel), até se inspirar no projeto de uma Kombi original e iniciar a produção do I.D. Buzz, a futura Kombi 100% elétrica — que aparece no vídeo exatamente como as unidades conceituais já exibidas pela Volks em salões automotivos.

O lançamento do I.D. Buzz da vida real está previsto para 2022.

A campanha, intitulada “Rebirth”, que significa “renascimento” em inglês, termina com um novo slogan: “In the darkness, we found the light”. Tradução literal: “Na escuridão, encontramos a luz”. Aparentemente, o truque semiótico é associar os significados de “luz” e “eletricidade”.

Curiosamente, o escândalo das emissões havia deixado de ser assunto nos EUA há um bom tempo, entre outras coisas, porque motores a diesel em carros de passeio não são representativos aqui (ao contrário da Europa).

"Na escuridão, encontramos a luz": imagem do anúncio da VW

“Na escuridão, encontramos a luz”: imagem do anúncio da VW

A aceitação de modelos como Jetta, Passat e Tiguan no mercado local sempre foi alta (guardadas as proporções, já que a Volks não é grande localmente) e não sofreu um abalo real desde 2015. Em geral, os americanos admiram os carros alemães, elogiando a tecnologia e a dirigibilidade diferenciada — e a Volks é parte disso.

O anúncio autocrítico da Volks lembra um episódio esquecido da crise financeira de 2007/08 que acabou levou a General Motors à falência e à recuperação com recursos públicos dos EUA.

Na ocasião, a GM fez um ato público de contrição ao publicar um anúncio (somente na mídia especializada) reconhecendo que, ao longo do tempo, criou, produziu e vendeu carros de qualidade inferior, e que parte da crise que então estrangulava o grupo era culpa da própria GM. O grupo americano foi em frente e, entre outras ações radicais, fechou marcas inúteis, como a Saturn, e redundantes, como a Pontiac.

A Volks fará sua parte se juntar ação às palavras e entregar rapidamente uma gama de EVs com preço razoável e autonomia decente, e prosseguir nas ações de eletrificação da logística de abastecimento (ou seja, de recarga) para tais carros no território dos EUA. Até o final do ano, por exemplo, a Electrify America, que é controlada pela Volks, vai instalar mais 180 pontos de recarga em estacionamentos da rede Walmart.

Muito melhor do que fazer demagogia emocional na TV.

Claudio de Souza é jornalista desde 1994 e atua no setor automotivo desde 2007. Ex-editor de UOL Carros e Carro Online, ele recebeu o prêmio SAE de jornalismo online em 2011. Em sua visão, carro tem de ser bom, e não apaixonante. Baseado nos Estados Unidos, discute nesta coluna os assuntos globais da indústria e do mercado. Escreva para ele: claudio.souza@carsale.com.br