Lançada no mercado norte-americano há pouco mais de um ano, a décima geração do Honda Accord começa a ser vendida no Brasil após ser apresentada no Salão do Automóvel de São Paulo no início deste mês. O sedã chega dos Estados Unidos em versão única por R$ 198.500, estreando por aqui o pacote de assistências de condução Honda Sensing e a inédita motorização de quatro cilindros turbo que aposentou o antigo V6 aspirado.

A nova geração do Accord segue o estilo mais ousado do Civic, com faróis afilados, lanternas em formato de bumerangue e silhueta de cupê, adotando um perfil mais esportivo e deixando no passado a aparência sisuda.

Mas é onde a gente não consegue ver que o sedã mudou significativamente. Além de aderir ao downsizing de motores, o Accord passa a ser construído a partir de uma estrutura mais leve para atender os níveis de eficiência energética atuais. A nova plataforma feita de aços de ultra alta resistência elevou em 32% a rigidez torcional do sedã. Combinada à carroceria com soldas a laser e suspensões independentes nas quatro rodas com braços e subchassi em alumínio, essa arquitetura deixou o sedã 72 quilos mais leve que o antecessor.

O Accord está cerca de 1,5 centímetro mais curto (4,88 m) e baixo (1,46 m) que o modelo anterior, porém, ganhou 5,5 cm de entre-eixos (2,83 m) para ampliar em quase 5 cm o espaço para as pernas dos passageiros do banco traseiro e adicionar 68 litros à capacidade do porta-malas (574 litros).

No entanto, a mudança mais drástica (ao menos para os entusiastas) é a aposentadoria do motor 3.5 V6 aspirado, que entregava bons de 280 cv de potência a 6.200 rpm e 34,6 kgfm de torque a 4.900 rpm. No lugar do seis-canecos entra o moderno 2.0 turbo com o mesmo bloco de quatro cilindros do nervoso Civic Type R, injeção direta de combustível e turbocompressor calibrado para 1,4 bar de pressão. O novo propulsor rende 256 cv a 6.500 rpm e 37,7 kgfm entre 1.500 e 4.000 rpm.

A transmissão automática com conversor de torque também é nova. O antigo câmbio de seis velocidades foi substituído pela caixa de 10 marchas mais compacta e operada por botões no console central que estreou na minivan Odyssey nos Estados Unidos.

Em termos de segurança, o Accord é o primeiro carro da Honda a oferecer as tecnologias de assistência e condução semiautônoma no Brasil. O pacote presente em praticamente todos os modelos da marca no mercado norte-americano adiciona controle de cruzeiro adaptativo com frenagem automática, alerta de colisão frontal, assistente de permanência em faixa e sensor de fadiga do condutor. Além disso, o sedã conta com oito airbags (sendo um para os joelhos do motorista e outro para os do passageiro dianteiro), controles de estabilidade e tração, vetorização de torque, Isofix e câmera no retrovisor direito para a visualização de veículos na região do ponto cego.

A configuração Touring destinada ao Brasil ainda inclui faróis full LED, head-up display no para-brisa, ar-condicionado automático digital de duas zonas, chaves presenciais personalizáveis, teto solar elétrico, central multimídia com tela de 8 polegadas e espelhamento de smartphones Android e Apple, sistema de som com 10 auto-falantes e subwoofer, câmera traseira com três ângulos de visão, carregador de celular sem fio, rodas de liga leve de 18 polegadas, freio de estacionamento elétrico, entre outros.

A cabine do sedã pode ser revestida de couro cinza ou preto se a pintura da carroceria for preta ou prata. Já o interior bege é exclusivo para o carro branco. Independentemente da tonalidade escolhida pelo cliente, vale citar o bom acabamento interno mesmo sem o primor encontrado nos concorrentes alemães. Há materiais macios ao toque nas portas e sobre o painel e apliques imitando madeira muito bem montados, sem peças mal encaixadas.

O Accord foi um ótimo companheiro durante o teste-drive de aproximadamente 150 quilômetros por rodovias do interior do estado de São Paulo e trechos congestionados da capital paulista. Como é de se esperar de um carro feito para agradar o público norte-americano, o sedã prioriza o conforto. Apesar do rodar suave e do silêncio proporcionado pelo bom isolamento acústico, o Honda está longe de ser monótono graças à evolução em desempenho e dinâmica desta nova geração.

O motorista encontra a posição ideal de dirigir facilmente no banco com ajustes elétricos memorizáveis. Quem gosta de uma tocada mais esportiva vai se sentir à vontade para regular o assento bem próximo do assoalho e ajustar a altura e profundidade do volante de ótima empunhadura. A direção elétrica é bem leve nas manobras e no uso cotidiano, mas ganha peso e precisão nas velocidades mais altas ou quando o modo esportivo é acionado.

Nos primeiros quilômetros do teste, ainda em percurso urbano, o motor turbo faz valer a oferta de torque a baixos giros nas arrancadas em semáforos e subidas. Basta relar no acelerador para o sedã embalar. Outro ponto que agrada é o funcionamento linear da transmissão automática de 10 marchas, que chega a lembrar um câmbio de variação contínua (CVT) durante uma condução mais tranquila.

Mas a estrada é o ambiente onde o Accord fica mais à vontade para deslanchar os seus quase cinco metros de comprimento e, principalmente, comprovar se o novo motor substitui à altura o V6. Para a tristeza dos puristas, o 2.0 turbo não só substitui como supera o propulsor antigo. Ele não tem aquela sinfonia metálica e empolgante característica dos motores de seis cilindros, mas compensa nas acelerações e retomadas mais ágeis sem precisar cravar o pé no acelerador. Mesmo com 24 cv de potência a menos que o V6, o 2.0 turbo dispõe de um torque maior desde os 1.500 rpm até 4.000 rpm, faixa de giros suficiente para fazer o sedã de mais de uma tonelada e meia arrancar e andar na frente do antecessor em uma disputa. A Honda não divulga números de desempenho, mas em testes feitos por publicações norte-americanas, o Accord cumpriu as provas de aceleração de 0 a 60 milhas por hora (0 a 96 km/h) em menos de 6 segundos (cerca de um segundo e meio mais rápido que o modelo anterior).

O consumo de combustível registrado nos testes do Programa de Etiquetagem Veicular do Inmetro é de 9 km/l na cidade e 12,3 km/l na estrada. O Accord V6 fazia 7,3 km/l e 12 km/l, respectivamente, de acordo com o órgão federal.

Sem se preocupar tanto com o desempenho, ainda foi possível curtir o passeio com o auxílio do controle de cruzeiro adaptativo e do assistente de permanência em faixa. Uma câmera no para-brisa e um radar no para-choque dianteiro monitoram o tráfego e a sinalização horizontal da pista para manter a velocidade de cruzeiro do Accord e a distância pré-determinada em relação ao veículo que segue à frente. A tecnologia ainda atua na direção, mantendo o carro na faixa e contornando curvas de raio mais aberto sem a intervenção do condutor. Por não se tratar de um veículo autônomo, o Accord emite sinais sonoros e no painel para alertar o motorista desatento à condução.

Já quem viaja no banco traseiro encontra bom espaço para três adultos, embora pessoas com mais de 1,80 m de altura fiquem acomodadas com os joelhos acima da linha do quadril por conta do assento muito próximo do assoalho.

No geral, o novo Accord é um carro muito bem construído, confortável, com desempenho e estabilidade exemplares – e ainda conta com a boa reputação da Honda no mercado. Custando praticamente R$ 200 mil, ele está bem longe de ser barato, mas chega com uma relação custo-benefício considerável quando confrontado com o arquirrival Toyota Camry (R$ 206.200) e outros sedãs executivos que não oferecem ou cobram muito caro pelas assistências de condução. O Accord ainda é considerado um carro de nicho por aqui, por isso a Honda diz que espera vender apenas 10 unidades por mês do sedã em 2019 – volume muito, mas muito distante dos 240 mil emplacamentos registrados nos Estados Unidos entre janeiro e outubro deste ano.

Teste-drive a convite da Honda
Fotos: Divulgação

Ficha técnica
 
CarroceriaMonobloco em aço, quatro portas, cinco lugares
MotorDianteiro, transversal, injeção direta, turbocompressor, intercooler, duplo comando de válvulas variável na admissão e escape acionado por corrente, a gasolina
Número de cilindros4 em linha
Número de válvulas16
Taxa de compressão9,8:1
Cilindrada1.998 cm³
Potência 256 cv a 6.500 rpm
Torque 37,7 kgfm entre 1.500 e 4.000 rpm
TransmissãoAutomática de 10 marchas
TraçãoDianteira
DireçãoElétrica
Suspensão dianteiraIndependente McPherson
Suspensão traseiraIndependente multibraços
Freios dianteirosDiscos ventilados 312 mm com ABS e EBD
Freios traseirosDiscos sólidos 282 mm com ABS e EBD
Pneus e rodas235/40 R18, liga leve 18"
Altura1,46 m
Comprimento4,88 m
Largura1,86 m (sem espelhos)
Entre-eixos2,83 m
Vão livre do solo12,5 cm
Volume do porta-malas574 litros
Volume do tanque de combustível56 litros
Peso em ordem de marcha1.547 kg
Carga útil483 kg
Garantia de fábrica3 anos sem limite de quilometragem