Image

Citroën C4 Lounge está fazendo hora extra ou ainda é um bom negócio?

15

out
2018

Eu adoro aqueles carros renegados pelo mercado. Os chamados micos para alguns, para outros podem ser oportunidades de pagar barato por algo que entrega mais do que o esperado.

Não é de hoje que os franceses, em especial Peugeot e Citroën, sofrem muito com isso. As vendas não deslancham, o grau de insatisfação com o pós-venda é alto e os indiscutíveis problemas de qualidade mancham a imagem dessas marcas. Por outro lado, elas ainda carregam amantes que idolatram seus franceses, seja pelo design sempre inovador ou pela dirigibilidade, geralmente um ponto forte desses carros.

O C4 Lounge, sedã médio da Citroën, chama atenção por ser um belo carro, mesmo depois da reforma que recebeu e o deixou mais conservador. Mas ele vai além disso e consegue em alguns pontos superar seus principais concorrentes.

Durante uma semana, fiquei com um C4 Lounge em sua versão mais completa, a Shine. De cara, eu gostei do desenho das rodas e da cor, um tom de vinho que por aqui é chamado de “Vermelho Salta” e na Europa “Show Rouge”.

Ao entrar no carro, algumas decepções permaneceram nos primeiros dias, até eu me  acostumar e esquecer delas. O carro é pouco refinado para a categoria. Prenomina o tom de preto nas portas, painel e bancos. Para quem está saindo de um sedã compacto, certamente vai gostar do salto de qualidade, mas dificilmente a Citroën vai conquistar clientes que já conhecem outros bons sedãs médios.

A decepção continuou quando vi que nem mesmo a versão mais completa tem rebatimento elétrico dos retrovisores externos, algo que estou cansado de ver em modelos mais antigos de Peugeot e Citroën. Vale dizer que o C4 Lounge anterior tinha esse item, ou seja, depenaram nessa última reforma. 

As coisas começaram a melhorar quando ajustei o banco e o volante. A posição de dirigir é ótima, daquelas que estou sempre defendendo como superior aos dos tão desejados SUVs. O mostrador do painel, que me parecia simples, é na verdade bem completo. Só peca na escolha do discreto conta-giros de difícil leitura. Na minha opinião, os mostradores antigos eram mais bonitos.

Andando com o carro, logo nos primeiros metros ficou claro que a suspensão é um pouco mais dura do que deveria. Nossas ruas cheias de buracos são as culpadas, mas num sedã médio eu espero um acerto mais confortável, comum nos concorrentes.

O que vai me deixar saudades é o conjunto de motor e câmbio. Impressionante como esses motores THP são elásticos. Graças ao turbo, todo o torque de 24,5 kgfm está disponível desde os 1400 rpm. A partir daí, o carro empurra gostoso, com muito vigor. O câmbio automático de 6 marchas tem opções de trocas manuais na alavanca, mas ele trabalha tão bem que eu pouco usei esse recurso. São 3 modos de condução: Eco, Normal e Sport. O padrão é o modo Normal, mas seria conveniente se ele pudesse manter a escolha do motorista. Por exemplo, se eu quero ter o máximo de economia, tenho que lembrar de apertar o botão Eco logo depois de ligar o carro. Já no modo esportivo, o consumo de combustível vai lá para cima, pois as marchas só entram em giros mais altos do motor. Claro que é mais divertido, mas seu bolso não vai gostar muito. A verdade é que, mesmo no modo Eco, o carro se sai muito bem.

O C4 Lounge estava abastecido com gasolina e fez comigo uma média de 8,6 km/l. Foi coerente com a pesada semana que eu tive, com muito trânsito na capital paulista. Se tivesse abastecido com álcool, certamente o consumo seria ainda pior, mas pelo menos eu poderia desfrutar dos cavalos a mais que são despertados com o combustível vegetal. Nessa condição, são 173 cv – nada mal para um sedã na faixa dos 100 mil reais. Nem mesmo os líderes da categoria chegam perto disso, o que faz desse Citroën um carro que deve ser visto com outros olhos.

Outras críticas ficam por conta dos comandos do ar condicionado, que quase não tem botões físicos. A maioria deles ficam na tela da central multimídia e requer mais atenção do motorista do que deveria. É bonito para você mostrar para seu amigo e seu vizinho, mas na prática incomoda bastante. Pelo menos essa central já tem espelhamento com smartphones, algo que aprecio bastante.

Itens de conforto e conveniência como teto solar, controlador e limitador de velocidade, controles de som no volante, computador de bordo e bancos em couro estão presentes. Gostei de saber que é possível fechar os vidros e o teto solar pela chave, algo raro de se ver hoje em dia. Vale dizer que a chave é do tipo presencial. Lamentavelmente os sensores de estacionamento dianteiros e traseiros foram eliminados nessa última reforma. 

Sobre segurança, além da impressão de ter uma carroceria bem robusta, estão lá os 6 air bags, controles de estabilidade e tração, regulagem de altura dos fachos dos faróis, ancoragem isofix, cintos de segurança de 3 pontos e apoio de cabeça para todos os ocupantes. 

Quem vai no banco traseiro não reclama de espaço e nem de calor, já que o C4 Lounge tem difusores de ar exclusivo para eles. Entretanto, minha filha de 10 anos observou que falta porta-copos e puxou a orelha da Citroën nesse vídeo despretensioso que fiz com ela (abaixo).

Por fim, o porta malas está longe de ser o melhor da categoria. São bons 450 litros, mas hoje em dia até sedãs menores conseguem mais espaço do que isso. Na prática, uma família consegue acomodar as bagagens numa boa.

A conclusão é que o C4 Lounge ganha qualquer um que goste de um bom motor. Todos os detalhes negativos que citei são toleráveis diante do prazer de guiar esse sedã. Mas será que vale a pena levar um para casa?

Na minha opinião, é uma boa ir atrás de um usado. Como a desvalorização desse carro é muito alta nos primeiros anos, o comprador de um seminovo com pouco tempo de uso consegue fazer um ótimo negócio. Comprar um 0km vale só para quem é muito fã da marca e não se preocupa com desvalorização. Ainda assim, é bom ir atrás de descontos, pois é comum encontrar opções bem mais baratas que o valor sugerido no site.

Felipe Carvalho é o primeiro caçador profissional de carros do Brasil. Acesse o site www.cacadordecarros.com.br e saiba mais. Inscreva-se no canal do Caçador de Carros no YouTube e curta a página de Felipe no Facebook.