Eu adoro aqueles carros renegados pelo mercado. Os chamados micos para alguns, para outros podem ser oportunidades de pagar barato por algo que entrega mais do que o esperado.

Não é de hoje que os franceses, em especial Peugeot e Citroën, sofrem muito com isso. As vendas não deslancham, o grau de insatisfação com o pós-venda é alto e os indiscutíveis problemas de qualidade mancham a imagem dessas marcas. Por outro lado, elas ainda carregam amantes que idolatram seus franceses, seja pelo design sempre inovador ou pela dirigibilidade, geralmente um ponto forte desses carros.

O C4 Lounge, sedã médio da Citroën, chama atenção por ser um belo carro, mesmo depois da reforma que recebeu e o deixou mais conservador. Mas ele vai além disso e consegue em alguns pontos superar seus principais concorrentes.

Durante uma semana, fiquei com um C4 Lounge em sua versão mais completa, a Shine. De cara, eu gostei do desenho das rodas e da cor, um tom de vinho que por aqui é chamado de “Vermelho Salta” e na Europa “Show Rouge”.

Ao entrar no carro, algumas decepções permaneceram nos primeiros dias, até eu me  acostumar e esquecer delas. O carro é pouco refinado para a categoria. Prenomina o tom de preto nas portas, painel e bancos. Para quem está saindo de um sedã compacto, certamente vai gostar do salto de qualidade, mas dificilmente a Citroën vai conquistar clientes que já conhecem outros bons sedãs médios.

A decepção continuou quando vi que nem mesmo a versão mais completa tem rebatimento elétrico dos retrovisores externos, algo que estou cansado de ver em modelos mais antigos de Peugeot e Citroën. Vale dizer que o C4 Lounge anterior tinha esse item, ou seja, depenaram nessa última reforma. 

As coisas começaram a melhorar quando ajustei o banco e o volante. A posição de dirigir é ótima, daquelas que estou sempre defendendo como superior aos dos tão desejados SUVs. O mostrador do painel, que me parecia simples, é na verdade bem completo. Só peca na escolha do discreto conta-giros de difícil leitura. Na minha opinião, os mostradores antigos eram mais bonitos.

Andando com o carro, logo nos primeiros metros ficou claro que a suspensão é um pouco mais dura do que deveria. Nossas ruas cheias de buracos são as culpadas, mas num sedã médio eu espero um acerto mais confortável, comum nos concorrentes.

O que vai me deixar saudades é o conjunto de motor e câmbio. Impressionante como esses motores THP são elásticos. Graças ao turbo, todo o torque de 24,5 kgfm está disponível desde os 1400 rpm. A partir daí, o carro empurra gostoso, com muito vigor. O câmbio automático de 6 marchas tem opções de trocas manuais na alavanca, mas ele trabalha tão bem que eu pouco usei esse recurso. São 3 modos de condução: Eco, Normal e Sport. O padrão é o modo Normal, mas seria conveniente se ele pudesse manter a escolha do motorista. Por exemplo, se eu quero ter o máximo de economia, tenho que lembrar de apertar o botão Eco logo depois de ligar o carro. Já no modo esportivo, o consumo de combustível vai lá para cima, pois as marchas só entram em giros mais altos do motor. Claro que é mais divertido, mas seu bolso não vai gostar muito. A verdade é que, mesmo no modo Eco, o carro se sai muito bem.

O C4 Lounge estava abastecido com gasolina e fez comigo uma média de 8,6 km/l. Foi coerente com a pesada semana que eu tive, com muito trânsito na capital paulista. Se tivesse abastecido com álcool, certamente o consumo seria ainda pior, mas pelo menos eu poderia desfrutar dos cavalos a mais que são despertados com o combustível vegetal. Nessa condição, são 173 cv – nada mal para um sedã na faixa dos 100 mil reais. Nem mesmo os líderes da categoria chegam perto disso, o que faz desse Citroën um carro que deve ser visto com outros olhos.

Outras críticas ficam por conta dos comandos do ar condicionado, que quase não tem botões físicos. A maioria deles ficam na tela da central multimídia e requer mais atenção do motorista do que deveria. É bonito para você mostrar para seu amigo e seu vizinho, mas na prática incomoda bastante. Pelo menos essa central já tem espelhamento com smartphones, algo que aprecio bastante.

Itens de conforto e conveniência como teto solar, controlador e limitador de velocidade, controles de som no volante, computador de bordo e bancos em couro estão presentes. Gostei de saber que é possível fechar os vidros e o teto solar pela chave, algo raro de se ver hoje em dia. Vale dizer que a chave é do tipo presencial. Lamentavelmente os sensores de estacionamento dianteiros e traseiros foram eliminados nessa última reforma. 

Sobre segurança, além da impressão de ter uma carroceria bem robusta, estão lá os 6 air bags, controles de estabilidade e tração, regulagem de altura dos fachos dos faróis, ancoragem isofix, cintos de segurança de 3 pontos e apoio de cabeça para todos os ocupantes. 

Quem vai no banco traseiro não reclama de espaço e nem de calor, já que o C4 Lounge tem difusores de ar exclusivo para eles. Entretanto, minha filha de 10 anos observou que falta porta-copos e puxou a orelha da Citroën nesse vídeo despretensioso que fiz com ela (abaixo).

Por fim, o porta malas está longe de ser o melhor da categoria. São bons 450 litros, mas hoje em dia até sedãs menores conseguem mais espaço do que isso. Na prática, uma família consegue acomodar as bagagens numa boa.

A conclusão é que o C4 Lounge ganha qualquer um que goste de um bom motor. Todos os detalhes negativos que citei são toleráveis diante do prazer de guiar esse sedã. Mas será que vale a pena levar um para casa?

Na minha opinião, é uma boa ir atrás de um usado. Como a desvalorização desse carro é muito alta nos primeiros anos, o comprador de um seminovo com pouco tempo de uso consegue fazer um ótimo negócio. Comprar um 0km vale só para quem é muito fã da marca e não se preocupa com desvalorização. Ainda assim, é bom ir atrás de descontos, pois é comum encontrar opções bem mais baratas que o valor sugerido no site.

Felipe Carvalho é o primeiro caçador profissional de carros do Brasil. Acesse o site www.cacadordecarros.com.br e saiba mais. Inscreva-se no canal do Caçador de Carros no YouTube e curta a página de Felipe no Facebook.