O Gol está de volta. Foi com esta frase que a Volkswagen anunciou a chegada da linha 2017 do compacto que foi o carro mais vendido do Brasil por 27 anos. Apesar de não confirmar, a fabricante deixou implícito que o modelo pretende brigar novamente pela liderança do mercado nacional.

Fato é que as mudanças — novo motor 1.0 de três cilindros e interior renovado — fizeram (muito) bem ao Gol, mas será que isso é suficiente para ele alcançar os novos líderes? Para descobrir a resposta, confrontamos o Gol 2017 com o Chevrolet Onix – o atual líder do mercado brasileiro – em versões equipadas com motores de 1.0 litro.

A EVOLUÇÃO 

Para entender melhor o atual cenário atual do mercado nacional, é preciso voltar a 2012, ano em que o Hyundai HB20 estreou no País. Naquele momento, a marca coreana quebrou paradigmas ao provar que um carro popular também poderia ser bonito. No mesmo ano, foi a vez da Chevrolet movimentar o segmento com o lançamento do Onix, que apostou na conectividade oferecendo o sistema multimídia MyLink como diferencial.

De olho no avanço da concorrência, a Volkswagen lançou no ano seguinte a primeira reestilização da quinta geração do Gol. Os discretos retoques visuais, porém, não foram suficientes para conter o crescimento dos rivais. Somente depois de perder a liderança em 2014 e amargar a quinta posição do mercado em 2015, o Gol tenta reagir à ofensiva formada por Chevrolet Onix, Fiat Palio, Hyundai HB20 e Ford Ka estreando um sistema de conectividade à altura dos oferecidos pelos rivais. Vale ressaltar que os equipamentos da fabricante alemã são mais modernos, possuem maiores possibilidades de conexão e ainda ostentam um visual mais agradável – basicamente o mínimo que se espera de um carro que tenta se equiparar aos concorrentes tardiamente.

FIGHT! GOL x ONIX 

O Carsale escolheu para este embate o Gol Comfortline 1.0 (parte de R$ 42.690). O carro avaliado está equipado com a central multimídia Composition Touch (R$ 1.100) e o pacote de opcionais Urban Completo (R$ 3.350), que acrescenta vidros traseiros elétricos, rodas de liga leve de 15 polegadas, computador de bordo com sistema Eco Comfort e sensor de estacionamento traseiro. Com esses itens, o preço final do compacto chega a R$ 47.140.

Diante do que a Volkswagen disponibiliza para o Gol, o pacote de equipamentos descrito acima não faz muito sentido ao consumidor, uma vez que é possível optar pelo pacote Connect (R$ 2.500), que tem como diferencial a central multimídia mais moderna da linha, a Discovery Media com tela de 6.3 polegadas, além de adicionar os itens de conforto mencionados, pintura da carroceria na exclusiva cor Azul Lagoon e interior com acabamentos personalizados (friso no painel e laterais dos bancos dianteiros em azul), levando o preço do carro a R$ 45.190 — economia de R$ 1.950.

O Chevrolet Onix escolhido é o LT 1.0 (a partir de R$ 43.250). Com o acréscimo da central multimídia MyLink com tela de 7 polegadas (R$ 2.000), o valor do hatch sobe para R$ 45.250. De série, o Onix traz ar-condicionado, direção hidráulica e retrovisores e vidros dianteiros elétricos. Entretanto, para que o modelo chegue ao mesmo nível de equipamentos do rival é preciso adicionar sensores de estacionamento traseiro e rodas de liga-leve, o que eleva o seu valor a R$ 48.645.

Vale lembrar que, ainda este ano, o Onix terá o visual retocado e ganhará a nova geração do sistema MyLink (presente no Cobalt reestilizado), com comando de voz, que permite a integração com smartphones por meio dos sistemas Android Auto (Google) e CarPlay (Apple), igualando-se à versão Discovery Media da Volkswagen.

Além de contar com uma central multimídia mais moderna, o Gol recebeu uma renovação quase completa na cabine, com destaque para o painel com saídas do ar-condicionado horizontais, linhas mais retilíneas, instrumentos com novo grafismo e volante igual ao do Golf. O ambiente interno está mais caprichado, demonstrando maior cuidado da Volkswagen nesse quesito e atingindo um nível de acabamento igual do Onix. No geral os dois carros apresentam um bom nível de montagem da cabine, mas abusando do uso de plástico rígido – como na maioria dos modelos da categoria.

DEBAIXO DO CAPÔ

Quando o assunto é a motorização, o Gol não só correu atrás do prejuízo como se modernizou – algo necessário ao Onix. O antigo bloco 1.0 de quatro cilindros deu lugar ao moderno 1.0 de três cilindros do up! e do Fox. Com isso, houve aumento da potência, saltando de 77 cv para até 82 cv com etanol. Já o Onix é dotado de um 1.0 de quatro cilindros (uma evolução do veterano VHCE dos extintos Celta e Corsa) que rende até 80 cv com o combustível vegetal. O Gol também leva vantagem no torque, são 10,4 kgfm contra 9,8 kgfm do Onix.

Mas além dessa diferença de números, a desvantagem do Onix está no comportamento. Enquanto o Gol entrega 80% do torque em baixas rotações, garantindo agilidade no trânsito diário, o rival demora um pouco mais para embalar, exigindo mais paciência do motorista.

Mas a diferença mais considerável está na eficiência. Quando abastecidos com gasolina, o Volkswagen demonstra o seu potencial econômico. Durante a nossa avaliação, o Gol obteve com médias próximas dos 20 km/l na estrada, enquanto as do Onix ficaram na casa dos 16 km/l. Por falar no desempenho em rodovias, ambos exigem constantes reduções para retomadas e ultrapassagens (algo normal em carros 1.0), mas o Gol aparenta ser mais ágil.

Se o Gol, um dia foi referência em boa dirigibilidade entre os compactos, atualmente ele compartilha essa qualidade com o Onix. Ambos têm câmbios manuais de cinco marchas com engates curtos e precisos e boa posição de dirigir – a do Onix é um pouco mais elevada. Em termos de conforto de rodagem, o Chevrolet leva pequena vantagem devido o acerto de suspensão, mais macia em vias esburacadas e estável em velocidades de cruzeiro.

CONCLUSÃO

Na linha 2017, o Gol recebeu novas tecnologias, uma repaginada no visual (com direito a requintes de modelo mais caros no interior), mas tudo isso serviu apenas para a Volks correr atrás do prejuízo. Nas versões comparadas, o Gol vence pelo custo-benefício, uma vez que ficou mais barato (cerca de 2,5%) e equipado ao mesmo tempo em relação à linha 2016. Mas se levarmos em consideração que o Chevrolet tem menor desvalorização — inclusive ganhou o prêmio de maior valor de revenda — e em breve passará por atualizações, o mercado tende a se manter da maneira que está: com o Onix na liderança.

Por outro lado, o Gol decepciona ao relembrarmos a sua história, repleta de momentos inovadores – como a introdução da injeção eletrônica, da tecnologia flex e do motor 1.0 turbo no mercado brasileiro -, o hatch apenas correu atrás do prejuízo nesta atualização, embora a Volkswagen tenha potencial e tecnologia para incrementar o seu modelo mais popular no Brasil. Para evitar um conflito com o up! e o Fox, a Volkswagen preferiu transformar o gol em apenas mais uma opção no mercado, deixando-o, por ora, sem as opções dos modernos motores 1.0 TSI e 1.6 de 16 válvulas MSI.

Já o Onix está com “a faca e o queijo na mão” para, novamente, se aproveitar do que há de melhor no mercado. No entanto, para causar o mesmo efeito provocado em 2012, precisará trazer alguma novidade inédita e motorizações mais modernas.

*O Chevrolet Onix que ilustra as fotos deste teste é uma unidades da versão LTZ 1.4 manual.

Fotos: Renan Rodrigues