O sol de Curitiba, escondido pelos dias frios da semana passada, estava só esperando a chegada de Nelson Angelo Piquet para esquentar os treinos da primeira etapa da Copa Renault Clio deste ano, que aconteceu durante o último final de semana, no Autódromo Internacional de Curitiba. O piloto veio ao Brasil na sexta-feira, dia 18, para testar o novo carro de competição da categoria, que agora tem motor 2.0l a gasolina 16 válvulas, 20 cavalos mais potente que o anterior, de 1.6l 16V e capaz de produzir 130 cv.
Mas Nelsinho não estava só. Antes mesmo de o piloto chegar, o Carsale entrava no autódromo para testar o novo 2.0 de competição no traçado curitibano. Enquanto isso, as 23 equipes que disputavam a Copa Clio faziam os últimos ajustes dos veículos ao som do ronco dos motores dos carrões da GT3 e F-3, já que as provas das três categorias acontecem simultaneamente.
As expectativas eram boas. Afinal, em uma prova que exige mais aceleração do que velocidade, o maior torque em baixa rotação do novo motor ajudaria a matar a fome dos pilotos (e a minha!) nas saídas de curvas e nos momentos de ultrapassagem. O novo propulsor do hatch tem torque máximo de 19,5 kgfm a 3750 rpm, valor que ainda pode aumentar com o trabalho dos preparadores, segundo técnicos da Renault.
Era só uma volta, mas...
Com balaclava, capacete, cinto de segurança ajustado e orientada por Roberto Manzini, diretor do Centro de Pilotagem Manzini by Renault, iniciei o teste com o carro "reserva" do bicampeão da categoria, José Cordova - que, no domingo, também venceria a primeira etapa do campeonato. Ao meu lado, nada menos que Edu Garcia, instrutor do Centro de Pilotagem em Brasília e também piloto da Copa Renault Clio.
Pista livre para mim? Que ronque o motor! Porém, ao deixar os boxes, a primeira impressão não foi lá a das melhores. Na troca de marchas, o carro parecia perder força, como se estivesse preso à pista. Com o "pé atrás", ficou difícil de acelerar. Então, logo nas primeiras curvas, o instrutor avisou que precisaríamos parar nos boxes, pois já desconfiava que o carro tivesse algum problema em um dos freios dianteiros. A percepção certeira do piloto evitou o susto, afinal, quando parei o carro, já saía até fumaça do capô. Segundo engenheiros, o problema foi causado pela pinça de freio, que "grudou" na pastilha com o aquecimento do carro. Tudo bem, um modelo de testes merece uma colher de chá, mas, no fundo, as explicações não me convenceram.
Por ser a única mulher entre os jornalistas, eu tinha sido "escalada" gentilmente para ser a primeira a testar o carro - ironia do destino, pois imaginem as piadinhas que surgiram quando cheguei aos boxes! A minha sorte foi ter como testemunha o piloto Edu Garcia, que já havia percebido algo estranho no carro em sua volta preliminar.
A parada também trouxe um gostinho de competição: os reparos tiveram de ser feitos rapidamente pela equipe, já que o tempo para o teste estava cronometrado para não atrapalhar os treinos. O burburinho nos boxes também tinha foco na chegada de Nelsinho Piquet que, em meio ao assédio de curiosos e jornalistas, se preparava para entrar na pista com o carro de Luciano Kubrusly, presidente da associação de pilotos da categoria, exatamente no mesmo momento em que eu saía dos boxes pela segunda vez. Isso que é exclusividade!
Será que ele me alcança?
Com o filho de Piquet à minha frente – quem sou eu para ser "pole"? – saí dos boxes mais aliviada. Agora sim, um carro com boa troca de marchas e com respostas rápidas aos pedidos do acelerador. Rápida, eu também tive de ser ao responder aos gritos do Edu nos primeiros pontos de frenagem. Afinal, "descer o pé" no freio em alta velocidade não é tão comum para motoristas acostumados à lentidão do trânsito.
Em sua versão de fábrica, o motor F4R do novo Clio é capaz de gerar 138 cv em 5.500 rpm, graças aos exatos 1.998 cm3 distribuídos nos quatro cilindros em linha e, quando preparado, pode abocanhar mais 15 cv de potência. Nada mal para um veículo que pesa, em média, 950 quilos de massa total – incluindo piloto e sua indumentária completa –, de acordo com o regulamento da competição.
E o motor está mesmo forte. Nas 15 curvas do circuito de 3.695 m, o carro arrancou bem em terceira e quarta marcha e o torque maior também facilitou a manobrabilidade. Nas três retas – uma de mil metros e as outras duas de 540 metros - deu para afundar o pé, mesmo com a minha cautela de piloto amador. "Longe de mim" acreditar que Nelsinho não me ultrapassaria!
Após testar o carro de Kubrusly, o piloto contou quais foram suas primeiras impressões. "O carro está forte para categoria. Responde muito bem às arrancadas das curvas e é fácil de guiar", disse. Na categoria Turismo, Piquet só havia dirigido um Aston Martin DBRS9 duas vezes. Em 2006, no campeonato FIA GT e também na 24 Horas de Le Mans. "Apesar de estar desacostumado com o carro, foi divertido", concluiu o piloto.
De carona, é bem diferente
Vire a página, pois avaliar o comportamento de um carro de Turismo nas mãos de um piloto profissional de Fórmula 1 é como começar uma nova história. Se o ponto de frenagem está a 200 m da curva, não se preocupe, pois ele vai frear a quase 50 m com a mesma precisão. Se uma curva exige a arrancada de terceira marcha e ele entra de segunda, você só vai sentir se estiver de olho no câmbio, tamanha rapidez e habilidade na troca das relações.
Nelsinho entrou no carro quieto, como de costume. Desconversou quando perguntei se a sensação de pilotar um Turismo após um Fórmula 1 é semelhante à que sentimos ao dirigir um 2.0 de competição e depois voltar para o 1.0. Ele deu um sorriso tímido. "Dá para brincar", disse. Não quis o capacete, mas colocou as luvas e perguntou se eu iria sem os tampões de ouvido. Fiquei em dúvida, mas optei em não usar. Ainda bem.
Na maior reta do circuito, o piloto levou o motor ao limite, chegando a cerca de 6.300 rpm em quinta marcha. Sem velocímetro, suponho que chegamos a 180 km/h, a maior média estimada para o percurso. Nas curvas, Piquet explorou tudo o que tinha direito e, mesmo com as trepidações, o carro se manteve estável na maior parte do tempo. "Não pisei tanto, pois estávamos sem capacete e este carro, como é reserva, precisa de vários ajustes", concluiu, quando chegamos aos boxes.
Fórmula 1
Enquanto atendia diversas ligações no celular, desde o momento em que chegou ao autódromo, o piloto era bombardeado com perguntas sobre a Fórmula 1. "Não estou aqui para isso", afirmou. Mesmo assim, acabou fazendo declarações sobre seu relacionamento com o espanhol Fernando Alonso, bi-campeão mundial de F1 e seu atual companheiro de escuderia. "O importante é ter uma boa relação com os engenheiros que cuidam do meu carro e não com o piloto da equipe", disparou.
* A repórter Carina Mazarotto viajou a Curitiba à convite da Renault do Brasil