O mundo do rali tem suas particularidades. A começar pelas duplas de pilotos e navegadores que não sabem, ao certo, qual a principal motivação que os levam às competições. Esporte, paixão, hobby, profissão? Talvez o combustível desta “tribo” seja mesmo a mistura de tudo isso com um aditivo especial, a adrenalina. Muitos ainda dizem que, para entender o que sentem, basta estar dentro de um carro de competição durante as provas, sejam elas de Velocidade ou Regularidade.
Foi assim que, a bordo da nova perua Peugeot 206 SW Moonlight 1.4 flex, recém-lançada pela marca, aceitei o desafio e iniciei minha experiência como piloto no Rally de Regularidade da primeira etapa da Copa Peugeot 2008 - que aconteceu no último final de semana (5 e 6 de abril), em Indaiatuba, interior de São Paulo. Ao todo, 51 carros participaram da prova, sendo seis na categoria Imprensa.
Voltada para proprietários de veículos Peugeot de todos os modelos (até uma Boxer se arriscou!), sem a necessidade de preparação, a disputa de Regularidade não tem como vencedor o carro que faz o melhor tempo, mas sim o que conseguir chegar o mais próximo possível do tempo estabelecido pela organização. Minutos antes da prova, todos os competidores recebem o livro de orientação ao navegador, que contém as indicações de caminho, assim como a velocidade média, tempo de deslocamento aconselhável para cada trecho e pontos para zerar o hodômetro.
Mas no meio do caminho não há somente pedras: os Postos de Controle (PCs), espalhados pelo percurso, registram exatamente em qual tempo o carro passa por ali, graças ao trabalho de um fiscal e de uma fotocélula. Cada segundo fora do tempo estipulado para aquele PC, um ponto perdido para a dupla.
Experiência
Então, aqui vou eu. Na manhã ensolarada de domingo, junto a famílias, amigos, casais e apaixonados por rali - todos muito preparados, com suas calculadoras (muitas eram científicas!) e anotações – eu e meu colega navegador Marcelo Monegato, do Diário do Grande ABC, fomos os últimos da largada, por volta das 10h, saindo a um minuto de diferença do anterior, assim como os outros competidores.
Com o carro nº 51, a boa idéia veio logo no primeiro trecho. Seguimos a estratégia de outros colegas de competição e paramos o carro, já que o desafio era se deslocar em 35 minutos em apenas 5,7 km. Imaginem a velocidade média que teríamos de seguir para cumprir a meta! No entanto, nem sempre é bom seguir os outros competidores, pois muitos deles estão perdidos ou na direção errada. A dica é confiar no “taco” de seu navegador.
Nós não estávamos tão preparados como os competidores, mas, no fundo, a prova ficou ainda mais divertida. A calculadora deu lugar às contas feitas de cabeça, com base no hodômetro do carro, orientações do livro e no relógio. Sem GPS, a localização dependia totalmente dele, o navegador. Aliás, sua tarefa não foi fácil. Além da responsabilidade de não perder o caminho, meu colega ainda respondia a todas as minhas repetitivas perguntas com precisão e paciência. “Está boa esta velocidade?”, “Quanto tempo temos para a próxima marcação de tempo?”, “Quanto tempo mesmo?”.
Isto porque, apesar de não ser tão ousado como o Rally de Velocidade, que tem como vencedor o carro que fizer o menor tempo durante um percurso cronometrado, o desafio da Regularidade exige do piloto muita concentração e um bom entrosamento com o navegador. É preciso estar atento ao tempo que se tem para chegar à próxima marca de quilometragem estipulada pelo livro, mesmo que este, um grande amigo da dupla, indique a velocidade média ideal para aquele período. Eu confesso, o piloto não consegue ser fiel a esta média na maioria das vezes, pelo menos não foi o meu caso. Os trechos acidentados exigem mais cautela e, quando menos se espera, o navegador avisa. ”Acelera, estamos atrasados!”. Ok, pé no acelerador!
Cuidados com o carro
O motor 1.4 do SW Moonlight respondeu bem às tomadas mais agressivas. Que ninguém me ouça, mas chegamos a quase 100km/h em terra, em trechos altamente estreitos e cheios de desníveis. Foi um gostinho a mais no desafio. Nas subidas que exigiam mais torque, a tração dianteira só ajudou a deixar os carros que vinham atrás cheios de poeira, graças àquela derrapagem típica.
Atenção aos proprietários da perua: ao experimentarem o carro no Rally de Regularidade, levem suas calculadoras e não deixem para recuperar o atraso nos últimos segundos do trecho, como a dupla de jornalistas aqui o fez. O protetor de cárter agradece, pois as pedras (grandes!) normalmente ficam no meio da pista e podem se tornar imperceptíveis, ainda mais em momentos de adrenalina.
O teto solar elétrico do 206 SW, que deu a ele o nome “Moonlight”, dá um toque de liberdade ao passeio, mas também traz mais poeira ao interior do veículo. A melhor opção é deixá-lo sem a abertura de ventilação, somente com a tela, já que a luminosidade torna o ambiente agradável.
Resultado
Depois de quase quatro horas de prova e 86 km percorridos - contando com uma parada divertida de 30 minutos, com direito à moda de viola, no “Armazém do Limoeiro”, construído em 1901 e que já virou atração de Itu – chegamos ao final do Rally de Regularidade da Copa Peugeot 2008 em segundo lugar no pódio da categoria imprensa, que atraiu seis competidores no total.
A motivação que leva famílias, jovens, adultos e profissionais ao rali está realmente dentro do carro, durante a prova. É quando o prazer de dirigir se une ao desafio da competitividade, sem tirar a diversão e a admiração por belas paisagens.
Duplas do Sul se destacam na Copa Peugeot 2008
A primeira etapa do Rally de Velocidade da Copa Peugeot 2008, realizada no último final de semana (5 e 6 de abril), em Indaiatuba, São Paulo, revelou jovens talentos e reafirmou o potencial das duplas de competidores do Sul do País.
Na categoria Light, voltada para iniciantes - competidores que não tenham sido campeões ou vice em outros ralis realizados no Brasil -, que reuniu 10 equipes, os irmãos Gabriel Boff, 22, e Vitor Hugo Boff, 19, do Rio Grande do Sul, estreantes na Copa, conquistaram o primeiro lugar da categoria ao realizar o percurso cronometrado de 91,5 km em 51 min 55 s. Já na categoria principal, o título ficou para o já favorito Luís Stédile, 26, também do Rio Grande do Sul, ao lado do navegador Gilson Rocha, do Paraná. A dupla fez o menor tempo da competição, com 49 min 33 s, com 1 min 16 s de vantagem sobre Roberto Theodoro e Ernani Waschburger (RS).
O jovem Stédile é considerado o “pupilo” de Rafael Túlio, 34, tri campeão da Copa e único piloto a participar de todas as edições desde 2003, quando a prova ainda estava integrada ao Campeonato Brasileiro de Rally. De tanto ganhar, Túlio não pode mais participar da Copa Peugeot, de acordo com o regulamento. “É com muita dor no coração que deixo de pilotar aqui”, contou Túlio, enquanto coordenava sua equipe, formada por cinco duplas, entre elas a de Stédile. “Dou toda a estrutura a eles e tenho a oportunidade de passar meu conhecimento”, contou o piloto que, mesmo formado em duas faculdades, decidiu transformar a paixão pelos ralis em profissão. E adivinhem de onde ele é? Morador de Curitiba e nascido em Pomerode (SC), terra de rali.
Os mais jovens da competição foram Luccas Arnone Jorge, 18, e Felipe Araújo Costa, 19, que ficaram em terceiro na categoria Light. São paulistas, mas também moram no Sul (PR), onde cursam faculdade de Comércio Exterior. Não por acaso, o talento de ambos vem de berço. Felipe é filho de Ricardo Costa, o Costinha, navegador que já foi campeão sul americano de rali oito vezes, e Luccas é filho de Silvino Arnone Jorge, também piloto há muitos anos.
Novos pneus e transmissão
As provas começaram no sábado, dia 5, quando os 22 carros Peugeot 206 de rally, totalmente preparados para a modalidade, passaram pela Especial 1, um trecho de 17 km sinuoso, estreito e cheio de obstáculos, e logo em seguida pela Especial 2, com 13,5 km, que exigia dos carros velocidades mais altas em uma pista travada, sem muitas retas. No domingo, dia 6, as duplas enfrentaram mais duas passagens pelas duas especiais que, no total, resultaram em 91,5 km de trechos cronometrados.
Para estreantes e veteranos, a mudança de pneus, agora da marca Yokohama (14", já utilizado na categoria A6 do Campeonato Brasileiro de Rally), trouxe apreensão antes das especiais, já que a maioria não havia testado o carro com os novos pneus. “É como se eu estivesse aprendendo tudo de novo”, afirmou o catarinense Elcio Lange, 19, que conquistou o título da categoria Light no ano passado, ao lado de seu irmão navegador Gerson Alberto Lange, 29. Pelos resultados, a prova foi mesmo uma adaptação à dupla, que não subiu ao pódio e agora aposta na segunda etapa da Copa, que acontece em maio, em Goiânia.
Etapa que, aliás, também reserva uma boa novidade aos competidores: a nova caixa de câmbio, com relações de marcha mais curtas, um alívio para pilotos. “Ouvimos as sugestões dos próprios participantes”, explicou Marcus Brier, diretor de Relações Externas da Peugeot Sport. Segundo ele, a procura pela Copa tem crescido graças a este tipo de facilidade, assim como transporte gratuito do carro de qualquer região do País, um 206 de competição mais “barato”, no valor de R$ 40 mil, e aumento das premiações para este ano.
Mulheres navegadoras
Sem deixar a maquiagem ou o salto de lado, a advogada gaúcha Rosa Maria Ribeiro, 47, é companheira de seu marido, também advogado, no Rally de Velocidade. “No começo ele ficava um pouco bravo porque eu me perdia, mas agora estamos bem entrosados”, brincou a navegadora, quando contava que, nas primeiras provas, ela não sabia nem que precisaria de um relógio para participar. Mas o maior desafio mesmo foi treinar a concentração. “Além de não tirar os olhos do caminho, tu deve ajudar a piloto a ouvir o que está dizendo, nem que seja preciso repetir várias vezes”, contou Rosa, com o incomparável sotaque gaúcho.
A analista de sistema Gilze Ferreira de Araújo, 43, gosta tanto de rali que encara a atividade como segunda profissão. Com experiência de treze anos como navegadora em diversos campeonatos, Gilze foi convidada a fazer uma “participação especial” na primeira etapa da Copa Peugeot, já que o navegador do estreante piloto Emerson Destro não poderia participar em Indaiatuba. “Sempre dá aquele frio na barriga”, contou Gilze, que ficou em 4º lugar na categoria principal do Rally de Velocidade.