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 13º Baja SAE Brasil26/03/2007 

61 equipes participaram da competição
Texto e fotos: Thiago Vinholes


No fim de semana passado Melbourne, na Austrália, foi tomada pelo circo da Fórmula 1, dando início à temporada 2007 da mais importante competição automobilística do mundo. No mesmo dia acontecia em Piracicaba, no interior de São Paulo, um evento infinitamente menor, em termos de estrutura e repercussão, mas com a mesma garra e talvez até mais adrenalina que a F1.

O evento de que estamos falando é o 13º Baja SAE Brasil, que tomou cada metro quadrado do Esporte Clube Piracicabano de Automobilismo e recebeu 61 equipes, formadas por estudantes de Engenharia de faculdades espalhadas pelo país. Cada uma com seus carros, as estrelas da competição. Antes conhecido como Mini Baja, a categoria foi renomeada com o nome Baja, para se adequar a nomenclatura da SAE International. Mesmo com a mudança os carros continuam pequeninos e cada vez mais modernos.

A competição teve início com provas estáticas, cujo objetivo é avaliar a qualidade de montagem dos protótipos, a originalidade, o conforto do piloto, os custos de construção e a facilidade de manutenção. Na sexta-feira (16) e no sábado (17) foram realizadas as provas dinâmicas, em que os bajas são submetidos a provas de tração, dirigibilidade, aceleração, frenagem, velocidade máxima e subida de rampa. No domingo, a competição foi encerrada com um enduro de resistência de quatro horas, em pista de terra e debaixo de um sol de rachar o capacete.

   

A classificação obedece a uma pontuação máxima é de 1.000 pontos. Desse total, 300 pontos são para as provas estáticas e dinâmicas e 400, para o enduro. Durante as provas, berros e gritos-de-guerra repletos de palavrões, e em diferentes sotaques, tomam conta da arquibancada.

Para competir, as equipes devem se organizar tal como uma escuderia de F1. Para criar uma competividade equilibrada, todas elas utilizam o mesmo motor de 10 hp (10,13 cavalos de potência) fornecidos pela Brigg & Stratton. Com o propulsor em mãos, cabe a cada um dos times desenvolver o projeto do carrinho off-road de acordo com o regulamento da competição que, dentre algumas regras, proíbe alterações na taxa de compressão e no comando de válvulas. A grande "fixação" dos estudantes é com o peso do jipinho. Para melhorar a relação peso/potência, eles são construídos com materiais leves, como fibra de vidro e alumínio. As equipes de ponta, por sua vez, chegam a usar titânio e fibra de carbono. Em média, os veículos pesam 130 quilos.

DRAMA NA LAMA
Na construção dos bajas, as equipes chegam a desembolsar entre R$ 10 mil e R$13 mil, mais os gastos com viagens e testes. Dessa forma, toda a ajuda é bem-vinda, principalmente de patrocinadores, que prestam auxílio financeiro ou fornecem material e prestam serviços. Faculdades de Engenharia como o Centro Universitário FEI e o Instituto Mauá de Tecnologia, ambos de São Paulo, dispõem de modernos laboratórios, porém a situação não é tão simples para outras instituições de ensino.

   

Um dos casos mais complicados nesta edição do Baja foi o da equipe Siara, da Universidade Federal do Ceará, cujo protótipo foi construído numa oficina improvisada nos corredores da faculdade e com recursos limitadíssimos. Para competir em Piracicaba, o time com nove integrantes contava com o apoio da Força Aérea Brasileira, para viajar de Fortaleza para São Paulo. Porém, o avião da FAB que traria os alunos sofreu um pouso forçado na Bahia, um dia antes do embarque da equipe cearense. Sem o transporte, os estudantes tiveram de arcar com os custos da viagem, e o mais difícil, o transporte do jipinho.

Para reduzir os gastos, o time de Fortaleza desmontou o carro e trouxe as partes nas próprias malas. Sem dinheiro para hospedagem, os estudantes tiveram de dormir em barracas armadas nos boxes da pista de Piracicaba. Para a frustração geral, a equipe acabou sendo desclassificada da competição por causa de problemas constatados nos itens de segurança no modelo. Como senão bastasse, no último dia do evento a equipe dispunha de apenas R$ 100 para passar o dia e, pior, para voltar para Fortaleza. O fim do drama dos estudantes cearenses aconteceu no final da competição, quando eles conseguiram recursos para a jornada de volta pra casa.

Por outro lado a FEI, que disputou a competição com dois bajas, tinha à sua disposição recursos de alta tecnologia e integrantes mais preparados, fatos refletidos no desempenho do carro. Entre outras virtudes, o modelo contava com uma excelente suspensão e até mesmo um sistema de telemetria sem fio, semelhante ao usado na F1. Durante as provas, o dispositivo transmitia dados sobre a performance do baja, em tempo real. A semelhança com a F1 não para por aí. Para ajudar na busca de patrocínios, a equipe possui um departamento de comunicação com assessoria de imprensa. "O coleguismo é outro fator importante na equipe. Aqui todos têm sua função e se houver brigas não há vitória", revelou o professor responsável pelo time da FEI, Roberto Bortoluz.

   

Com tantos competidores na disputa também é necessária uma boa quantidade de juizes. Em Piracicaba, a maioria deles era de ex-bajeiros hoje atuando em empresas como Embraer, Volkswagen, Fiat, Peugeot e Fiat, além de companhias do setor ferroviário e petroquímico. Eles atuam como olheiros, que observam o desempenho dos futuros engenheiros. Alguns serão recrutados por empresas, que buscam profissionais com espírito de liderança e competitividade.

"BAJETES" NA GRAXA
As meninas também vêm ganhando espaço na competição, que é dominada pelos homens. Chamadas carinhosamente de "bajetes", as moças se sujam de verdade com a graxa dos motores e fazem reparos mecânicos que fariam muitos marmanjos pedirem ajuda ao papai. Por pesar 55 quilos, a estudante Rachel Kuan foi a solução ideal para o problema de peso do time da Universidade Federal Fluminense. A destemida piloto que participava de seu quarto Baja SAE Brasil revelou que no início sofreu com o preconceito, mas os resultados provaram o seu valor. "Eu adoto um estilo de direção defensiva, pois como não somos uma equipe de ponta, sou obrigada a respeitar os limites do carro", releva a piloto, que também afirmou conhecer todos os barulhos dos carros.

   

DESAFIO FINAL
A madrugada de domingo trouxe para Piracicaba uma forte chuva, que só parou às 9 h. Com o dilúvio, a pista do enduro foi tomada pela lama, o que forçou a organização a adiar a largada em uma hora. Melhor para os estudantes, que tiveram mais tempo para acertar seus carros. O início do enduro aconteceu as 11 h, sob um forte sol. O barro foi o grande desafio do bajas, que atolavam o tempo todo, sem falar na chuva de lama que os carros provocavam ao acelerarem em falso na pista. Mas, no decorrer da prova, a terra foi secando e ficando mais firme, permitindo que os pilotos pisassem fundo no acelerador. O ímpeto dos competidores também proporcionou um engraçado show de saltos e capotagens de frente.

Com 110 voltas, a equipe Demec 9 da Universidade Federal de Minas Gerais foi a grande vencedora da prova de resistência, provando que a longa viagem valeu a pena. Na segunda e terceira colocações ficaram os bajas da FEI (FEI Baja 1 e FEI Baja 2), com 876,52 e 853,41 pontos, respectivamente. A Escola de Engenharia de São Carlos, campeã no ano passado, ficou com a quarta colocação, com o time da Poli-USP na quinta posição.

Os quatro primeiros colocados ganharam o direito de disputar o mundial de Baja da SAE International, que acontece todos os anos em Nova York, nos Estados Unidos. As equipes brasileiras participam do evento internacional desde 1998, e sempre ficaram entre os cinco primeiros lugares, tendo vencido em duas ocasiões: em 1998, com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e em 2004, com a FEI. Com o final da competição, as equipes passam por uma reciclagem e voltam para as pranchetas. O estudante Rafael Giannetti, capitão da equipe FEI Baja 1, está confiante para a prova internacional. "Levaremos a união de nossa equipe aos EUA e tentaremos repetir o bom resultado de 2004".

   


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