Mesmo após as condenações do Vaticano, que chamou a prova de off-road de “sangrenta e irresponsável”, mais uma edição do Rally Dakar – a 29ª - chegou ao fim neste domingo (21). Desta vez 300 veículos cruzaram a linha de chegada na capital do Senegal, Dakar. Foram mais de 9 mil quilômetros entre a largada em Lisboa, Portugal, até o destino final, na África. O trajeto foi dividido em 13 etapas, em que cada equipe teve de superar uma série de desafios, desde condições climáticas adversas – que variavam de chuvas torrenciais ao sufocante calor do deserto da Mauritânia – às mais variadas condições de piso.
Os franceses levaram os títulos das categorias Carros e Motos, com a dupla Stephane Peterhansel (piloto) e Jean-Paul Cottret (navegador) e o piloto Cyril Despres, respectivamente. Nos Caminhões, o troféu foi para o holandês Hans Stacey, da equipe Exact-MAN, que assumiu a ponta após o acidente do russo Vladimir Chagin, que capotou seu caminhão quando liderava a prova com uma ampla vantagem.
Peterhansel, o maior campeão da história do Dakar, chega ao seu nono título, sendo seis deles nas motos (1991, 92, 93, 95, 97 e 98) e três nos carros (2004, 2005 e 2007). Despres, por sua vez, tornou-se bicampeão da prova, principalmente graças ao tropeço do espanhol Marc Coma, que vinha liderando a categoria até sofrer um acidente na 11º etapa. O primeiro título de Despres foi em 2005.
Dos 505 veículos e mais de 1.100 competidores que iniciaram a competição, 205 abandonaram. Por causa das condições climáticas pouco favoráveis no Marrocos e das ameaças terroristas em Mali, a prova teve duas etapas canceladas. Em edições passadas o rali já teve de lidar com este tipo de situação. A pior delas foi em 2000, quando todo o circo da prova teve de ser transportado de avião entre Niger e a Líbia, por causa do alto risco de ataques terroristas. Na ocasião, quatro etapas foram canceladas e estima-se que a organização sofreu um prejuízo de US$ 5 milhões com o frete dos Antonov, aeronaves russas de grande capacidade de carga, usados na operação.
A prova deste ano também ficou marcada por duas mortes, ambas entre pilotos que competiam em motos. Na quarta etapa, o sul-africano Elmer Symons sofreu uma queda grave no Marrocos, e morreu em decorrência de uma lesão na coluna. Mais lamentável foi o caso do piloto francês Eric Abijoux, que sofreu uma parada cardíaca a apenas 15 quilômetros do fim da prova, em Dakar.
MITSUBISHI X VOLKSWAGEN
A Volkswagen bem que tentou derrubar a hegemonia da Mitsubishi, que vem dominando a prova há mais de uma década. Para isso, a fabricante alemã contou este ano com um forte investimento, tanto em tecnologia como em pessoal, com a contratação dos veteranos Carlos Sainz (Espanha) e Giniel de Villiers (África do Sul), conhecidos pelo estilo agressivo de pilotagem.
Nas primeiras etapas, a equipe da VW vinha dominando o certame, ocupando com folga as três primeiras colocações, até o momento que as adversidades aliadas ao excesso de ímpeto dos pilotos vieram à tona. O primeiro Touareg da equipe a cair na classificação foi o de Sainz, que vinha liderando a prova até as etapas na Mauritânia, quando se perdeu e quebrou no meio do deserto. O revés da equipe continuou com Villiers, que, após capotar, viu seu carro pegar fogo e suas chances por uma boa posição desaparecerem.
Após as baixas da Volks a Mitsubishi entrou em cena, dominou as duas primeiras colocações e seguiu apenas administrando o resultado, mantendo um ritmo de cautela. Mesmo sem vencer nenhuma etapa, Peterhansel obteve com bons tempos e conquistou seu nono rali Dakar.
O francês ganhou notoriedade na década de 1990, quando faturou seis títulos nas motos e ganhou status de pop star na Europa. Procurando novos desafios, Peterhansel mudou para a categoria Carros, onde conquistou sua primeira vitória em 2004, após um duro período de transição entre as categorias. O piloto ainda venceu o Rally Dakar 2005, seguindo uma estratégia muito parecida com a utilizada nesta última edição. A segunda colocação ficou nas mãos do campeão do ano passado, o também francês Luc Alphand, que fez um rali perfeito sem danificar seu carro.
O Toureg melhor colocado ocupou apenas a quinta posição na classificação, sob a tutela do português Carlos Souza. A surpresa mais uma vez ficou por conta de outro francês, Jean Louis Schlesser, que faturou a quarta colocação a bordo de um carro construído por ele mesmo.
TURMA VERDE E AMARELO
Nunca tantos brasileiros participaram do Rally Dakar como nesta edição. Ao todo 12 participantes distribuídos nas três categorias, dos quais 10 chegaram ao final. As baixas foram nas motos com o abandono de Dimas Matos e Sylvio Barros. A categoria ainda contou com Carlos Ambrosio, que terminou na 50º colocação, e Jean Azevedo, que venceu a penúltima etapa, no sábado (20), e ficou na 25º posição. Jean é o único brasileiro a vencer duas etapas no Dakar. A primeira foi em 2005.
Nos carros, o Brasil contou com quatro equipes, onde o melhor colocado foi Paulo Nobre, o “Palmeirinha”, ao lado do navegador português Felipe Palmeiro, que completou o rali na 24º colocação a bordo de uma BMW X5 oficial.
Riamburgo Ximenes, conhecido no Brasil como “Rei da Areia”, devido a sua perícia neste tipo terreno, teve motivos de sobra para comemorar junto do experiente navegador Lourival Roldan. Ao terminarem a prova na 52º posição, a dupla conquistou a primeira colocação na categoria Rookie, destinada aos estreantes na prova. Logo no inicio da corrida, a equipe sofreu um acidente que danificou seriamente o carro, mas graças ao eficiente trabalho da equipe de apoio, a dupla pode voltar a prova, mas sem a pretensão de bons resultados. Em sua 20ª participação no rali, Klever Kolberg ao lado do navegador Eduardo Bampi, conseguiu somente a 57º posição, devido a inúmeros problemas mecânicos.
O melhor resultado brasileiro foi o de André Azevedo, que correu lado do navegador Maykel Justo e o mecânico checo Mira Martinec. Eles conquistaram a quinta colocação entre os caminhões. Nesta edição André surgiu como um dos favoritos ao título da categoria, e durante todo o rali intercalou boas e más atuações. No ano passado, a mesma equipe completou o rali na quarta colocação, melhor resultado brasileiro na história da prova.
Outra equipe a estrear no Dakar foi a formada por Ricardo Lopes e Haroldo Nogueira, que corriam em uma categoria paralela a da competição, e não tinham a obrigação de lutar por resultados.