Texto: Rafaela Borges
Fotos: Divulgação

Quem foi ao autódromo de Interlagos no domingo (22) assistiu a um momento histórico do esporte mundial. E não pela vitória de Felipe Massa, e nem pelo espanhol Fernando Alonso, que se tornou o mais jovem bicampeão da Fórmula 1, superando o brasileiro Emerson Fittipaldi. O fato marcante foi a despedida de Michael Schumacher - estatisticamente o melhor piloto de todos os tempos - das pistas. E o alemão saiu em grande estilo: depois de largar em 10º e fazer diversas ultrapassagens, um dos pneus traseiros de seu carro estourou. Mas ele foi para os boxes, voltou para a prova na última posição, e deu um show.
Após grandes ultrapassagens, principalmente em cima de Kimi Raikkonen, da McLaren, o alemão da Ferrari terminou a corrida em quarto, com aplausos do público brasileiro, - que vibrava a cada passagem de Schumacher tanto quanto nas do piloto da casa, seu companheiro Felipe Massa. Mas nem sempre o alemão foi alvo de manifestações de amor por parte dos fãs da Fórmula 1. Em sua trajetória vitoriosa, alguns fatos marcaram de maneira negativa o currículo do alemão.
Em 1994, após a morte de Senna, com o mundo do automobilismo ainda de luto, Schumacher, então na equipe Benetton, tirou seu adversário, Damon Hill (Williams), da pista na última corrida. Assim, com uma atitude antidesportiva, ele conquistou seu primeiro título na Fórmula 1 – após três anos de participação – e também o ódio dos torcedores. Deveria virar herói, mas se transformou na personificação do vilão. Em 1997, já na Ferrari, ele fez a mesma manobra contra Jacques Villeneuve, da Williams, e também na última prova. Daquela vez, todavia, se deu mal: a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) desclassificou Schumacher, e o campeonato ficou com o piloto canadense.
Este ano, quando muitos torcedores já haviam esquecido o passado, mais uma vez Schumacher tentou uma trapaça: em Mônaco, durante os treinos classificatórios, simulou perder o controle do carro para atrapalhar Fernando Alonso, que vinha em sua volta rápida, para tentar a pole position. Mais uma vez, foi punido. Mas as demais equipes acusam a Ferrari e Schumacher de serem beneficiados pela FIA. Além disso, os ídolos do esporte nunca apreciaram o “jogo de equipe” dentro da escuderia italiana, em prol do piloto alemão.
Mesmo com essas manchas no currículo, ao longo de 15 anos de Fórmula 1, Schumacher, por seu talento, conquistou fãs no mundo todo. E, nos últimos dias da carreira, até mesmo do relutante público brasileiro, órfão de Senna, considerado por muitos o maior piloto de todos os tempos – apesar dos números apontarem o alemão como dono desta honra. Schumacher nasceu há 38 anos na pequena cidade de Kerpen, na Alemanha, filho de uma família modesta. Seu pai administrava o kartódromo da cidade, onde o piloto começou a carreira.
O futuro maior campeão da história da Fórmula 1 usava o que sobrava das equipes mais bem estruturadas do kartódromo para competir. Apesar das limitações financeiras, Schumacher se transferiu para o automobilismo e, em 1991, chegou à Fórmula 1, como piloto da equipe Jordan. Já no mesmo ano, foi descoberto por Flavio Briatore, - hoje diretor da escuderia campeã da temporada 2006, a Renault - que farejou seu talento e o levou para a equipe Benetton. Ele conquistou, em 1992, a terceira posição do campeonato, ficando na frente de Ayrton Senna; no ano seguinte, foi quarto.
O ano de 1994 foi o início da consagração de Michael Schumacher, que conquistou seu primeiro título – apesar da trapaça sobre Damon Hill. Com a morte de Senna ainda no início daquela temporada, o caminho do alemão no campeonato ficou mais fácil. Naquela época, muitos já diziam que a Fórmula 1 não seria mais competitiva, pois já não existia um piloto no mesmo nível de Michael Schumacher. Ele repetiu o feito em 1995 e, como meteoro, se igualou, em número de títulos, a grandes nomes do automobilismo, dentre os quais Emerson Fittipaldi.
No ano em que obteve o bicampeonato, Schumacher surpreendeu o mundo do automobilismo ao anunciar sua transferência para então decadente Ferrari. Lá, mostrou profissionalismo e competência – além de paciência - ao levantar a equipe e transformar a parceria na mais vitoriosa da Fórmula 1. O piloto trabalhou duro nos quatro anos seguintes e, tendo como companheiros primeiro Eddie Irvine e depois Rubens Barrichello, levou a Ferrari à conquista do campeonato de construtores em 1999.
No ano seguinte, sagrou-se tricampeão, igualando-se a Senna, Nelson Piquet, Niki Lauda, entre outros. Daí para frente, ele foi superando todos os grandes nomes da categoria. De 2000 a 2004, conquistou cinco títulos seguidos, a bordo de carros igualmente vencedores. Nesta época, começou a celebrar suas memórias imitando um maestro, regendo o hino italiano para os mecânicos da Ferrari. A atitude foi criticada por autoridades da Itália, mas o alemão Schumacher continuou fazendo sua orquestra delirar.
O ano de 2005 foi difícil para Schumacher, que já não tinha um carro competitivo. Porém, em 2006, apesar de um início adverso, ele recuperou-se ao longo das etapas, mas não deixou de fazer um anúncio já esperado pelo mundo da Fórmula 1. No GP de Monza (Itália), revelou que deixaria as pistas ao final da temporada. Schumacher viu o sonho de conquistar o oitavo título desaparecer duas semanas atrás, quando o motor de seu carro explodiu, no GP do Japão. Chegou ao Brasil apenas com chances matemáticas de levar ao campeonato, o que não aconteceu. Mesmo assim, não deixou de brindar o público com um show de arrojo e talento, as características que marcaram sua carreira.
RECORDES
São poucos os recordes que Michael Schumacher não conquistou em sua carreira na Fórmula 1. Ele tem o maior número de títulos, sete, ante cinco do argentino Juan Manuel Fangio, o segundo colocado. Foi também o piloto que mais venceu na categoria, com 91 conquistas, contra 51 de Alain Prost e 41 de Ayrton Senna. É dono, ainda, do recorde de pole positions, 68 (apenas 3 a mais do que Senna) e de pontos, 1.364.
Todavia, não é o piloto que mais disputou corridas na história. Ele fica em segundo lugar, com 248 grandes prêmios, oito a menos do que Ricardo Patrese. Se Senna foi o ‘rei de Mônaco’, Schumacher é o da França, do Canadá e da Bélgica – respectivamente com oito, sete e seis vitórias. E, ao parar de correr, ontem, no GP do Brasil, no auge da carreira, o alemão marcou mais um recorde: foi o vice-campeão com o maior número de pontos na história, 121.
ADVERSÁRIOS
Com a morte de Ayrton Senna, no GP de San Marino de 1994, o mundo chegou a pensar que não existiria mais disputa na Fórmula 1, tamanha era a superioridade de Michael Schumacher. Mas, já naquele ano, o alemão não levou de bandeja o título para casa; este só foi decidido na etapa final, contra Damon Hill. Em 1996, o inglês da Williams conquistou o campeonato, enquanto Jacques Villeneuve, da mesma equipe, ficou com a taça de campeão em 1997.
Mas o principal adversário de Michael Schumacher não estava na Williams; Mika Hakkinen, da McLaren, venceu o alemão em 1998 e 1999. E, nestas duas últimas temporadas, o jovem Fernando Alonso travou belas disputas com o alemão, levando ambas. Mas também Kimi Raikkonen, com a McLaren, e Juan Pablo Montoya, com a Williams, merecem ser citados nesta lista. Eles nunca venceram Schumacher no campeonato, mas travaram com ele grandes disputas, especialmente em 2003.
FORA DAS PISTAS
Schumacher nunca foi fã das badalações típicas do mundo da Fórmula 1. Casado com a alemã Corinna, ele é pai de dois filhos, Ginna Maria, de 9 anos, e Mike, de 7. Vive com a família na cidade de Vufflens-le-Chateau, na Suíça. Segundo o piloto, a escolha do local tem a ver com a privacidade. Ele não conseguiria viver tranqüilamente, sem assédio, na Alemanha.
Altruísta, Schumacher é embaixador da Unesco e dedica boas quantias anuais a causas humanitárias, principalmente as ligadas a crianças carentes. Ele mantém, sozinho, um hospital em Saravejo, por exemplo. Fora das pistas, é amante do futebol, embora não atue tão bem nos campos como na pista. Joga ‘peladas’ com amigos e acompanha torneios importantes – foi visto em jogos da Alemanha na última Copa do Mundo, em julho.
Além disso, já participou de inúmeros torneios beneficentes de futebol, inclusive no Brasil, atuando ao lado de grandes jogadores, astros da música e outras celebridades. É também fã das motocicletas, e já percorreu parte da Suíça a bordo de uma. Michael Schumacher tem hoje o maior salário do mundo dos esportes, e a aposentadoria não vai reduzir sua renda. Além dos contratos de publicidade, o agora ex-piloto deve continuar ligado a Ferrari, como consultor da escuderia.
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