Texto: Rafaela Borges
Fotos: Roberto Konda/Peugeot
Ouro Branco (MG) – Nas inúmeras competições “off-road” disputadas no Brasil e no mundo, as glórias e fracassos recaem nas mãos do piloto. Mas tão importante quanto aquele, que conduz o carro por condições adversas – muitas vezes ao extremo – é o navegador. Para muitos, ele desempenha uma função passiva, sentado no banco do passageiro. Grande engano. Quem penetra no mundo das provas fora de estrada tem conhecimento de que, nesta modalidade, 50% da responsabilidade do resultado é do navegador.
“Somos os olhos do piloto”, afirma Gilson Rocha, navegador da Copa Peugeot. “Eles vêm completamente alucinados, não enxergam nada na frente. Por isso, confiam 100% em nossas coordenadas”. Se o navegador ler – ou “cantar”, termo usado entre os competidores – uma informação errada, pode alterar o resultado de uma prova, ou ainda causar um sério acidente. Com o objetivo de conhecer de perto a atuação deste profissional, aceitei o convite da Peugeot para ser navegadora na segunda etapa do Campeonato Brasileiro de Rally de Velocidade, disputada em Ouro Branco (MG), nos dias 22 e 23 de abril.
O campeonato é dividido em três categorias. A principal, N4, tem modelos com motor acima de 2.000 cm³ de cilindrada, tração 4x4 e preparação livre. Na modalidade, predominam veículos da Mitsubishi e Subaru. Na intermediária, A6, competem carros com motor até 1.600 cm³ de cilindrada, tração 4x2 e preparação livre. A N2, para iniciantes, conta com as mesmas especificações da A6, mas não permite preparação no modelo. Dentro da categoria intermediária, há a Copa Peugeot, com regras específicas referentes à potência do motor e os pneus do veículo.
ALUNA APLICADA
Participei da Copa Peugeot com um 206 hatch modificado (veja o quadro abaixo), ao lado do piloto Tino Vianna, campeão de competições “off-road”, como Rally dos Sertões e da edição 2002 da tradicional Mil Milhas de Interlagos, em São Paulo (SP). Ao lado da equipe da montadora, cheguei a Belo Horizonte na quinta-feira (20), com destino à Ouro Branco, cidade histórica com cerca de 40 mil habitantes. Na saída da capital mineira, um imprevisto: um acidente na BR40 – que liga Minas Gerais ao Rio de Janeiro – travou o trânsito por quatro horas. Chegamos em Ouro Branco só no final da tarde, mas ainda deu tempo de sair com Tino para conhecer um dos trajetos do rally.
Antes de iniciar nossa aventura fora de estrada, pegamos o livro de bordo, que indica os caminhos que os competidores deverão percorrer durante a prova. Há duas situações no Rally de Velocidade: a mais importante é a chamada especial, na qual piloto e navegador buscam percorrer um trecho pré-determinado em menor tempo. O percurso é cronometrado. Para ligar uma especial à outra, há o deslocamento, percorrido com auxílio do livro de bordo e em tempo estipulado pela organização da corrida.
Aprendi tudo isso já na quinta-feira e, no dia seguinte, 21 de abril, saímos para realizar o primeiro reconhecimento. O processo é demorado; enquanto o piloto percorre os trechos das especiais, o navegador anota as coordenadas que cantará no dia da prova em uma planilha, ou levantamento. As informações principais se referem às curvas, que dominam os trajetos. Se o navegador cantar E4, significa que existe uma curva à esquerda, que deve ser feita em quarta ou quinta marcha. D2, uma das situações mais perigosas do rally, é à direita e travada, em segunda ou primeira marcha.
Seis horas depois de iniciar o processo de reconhecimento, voltamos ao apoio, espécie de “box” das equipes que disputam o campeonato. Então, chegou a hora de conhecer minhas armas de competição: macacão, balaclava e capacete com microfone para comunicação via rádio com o piloto. E, o mais importante: o carro. Logo em seguida, partimos para o “shake down”, realizado em um circuito fechado ao lado do apoio. No trecho marcado por curvas, pedras e muita poeira, a participação do navegador é nula.
Foi lá o único momento em que pude desfrutar da sensação de estar em alta velocidade na terra. Enquanto Tino Vianna checava as condições do 206, eu sentia despertar em mim uma veia competitiva, uma vontade de vencer, um gosto pelo rally. Aluna aplicada, coloquei na cabeça que, mesmo com toda a minha inexperiência de estreante, conseguiria um bom resultado na prova do dia seguinte.
A CORRIDA
No primeiro dia da prova, Ouro Branco acordou ensolarada, condição que ressaltou sua bela paisagem serrana. A região é contornada pela Estrada Real, responsável pelo trajeto do ouro mineiro até o Porto de Parati (RJ), na época do Brasil colonial. Amante dos livros de história, não pude deixar de me empolgar com o local que protagonizou um dos mais importantes capítulos de nosso país. Mas também não tirei a competição do foco: na largada da primeira especial, com o levantamento nas mãos, eu já sabia que não bastava ler o que estava escrito naqueles papéis.
“O navegador tem que estabelecer um ritmo com o piloto. Este é o segredo da boa navegação”, explicou Tino Vianna. O ritmo vem com a prática e o entrosamento entre os dois competidores. Por via das dúvidas, optei por perguntar antes de “cantar” a informação. E, até certo ponto, deu certo. Concentrada no levantamento, tomei pouco conhecimento da velocidade do carro, que pode chegar a 180 km/h, o que é um exagero para condições “off-road”. Tentava passar os dados corretos para o Tino, buscando obter o menor tempo nas especiais.
Apenas nas retas longas é que eu me desligava um pouco do levantamento e podia prestar atenção na poeira levantada pelo carro. No andamento da prova, aconteceu de tudo. Ainda no sábado, uma capotagem espetacular do Palio de Luís Tedesco, da equipe Fiat, atrasou a especial 3. Sem pára-brisa e vidro dianteiro, o piloto ainda voltou para a prova e obteve o terceiro lugar na categoria A6, vencida por Rafael Túlio e Gilvan Jablonski, com Peugeot 206. No trecho seguinte, o pneu de nosso Peugeot 206 furou, e perdemos cerca de 1 minuto.
No domingo, o mais inusitado: uma mulher entrou em trabalho de parto em uma das casas que rodeiam o trecho da especial 7. Resultado: pista interditada por uma hora, para viabilizar a entrada e saída da ambulância. Coisas de Rally. No último trecho, mais um imprevisto: em uma curva travada, nosso carro rodou, o que nos fez perder cerca de 4 segundos. Ao final dos dois dias e de nove especiais, Tino Vianna e sua navegadora iniciante, esta repórter que vos escreve, obtiveram a quinta posição na Copa Peugeot. Poderíamos ter ido melhor, não fosse o pneu furado e um problema com o sensor de velocidade, que cortava a aceleração antes dos habituais 7.000 giros.
De qualquer maneira, não nos classificamos, já que não tenho carteira de navegadora profissional e topei participar da corrida apenas como convidada. Tirar o registro de navegador é simples: basta preencher uma ficha na secretaria da prova, a chamada filiação desportiva, e pagar inscrição de cerca de R$ 200, taxa que varia de acordo com o Estado onde o campeonato é realizado. Mesmo ciente de que, ao final da corrida, eu não seria classificada, admito que senti uma pontinha de ciúmes quando vi uma outra dupla ocupar a quinta posição do pódio, que poderia ser nossa. É a veia competitiva falando mais alto. Para encerrar com chave de ouro, dei alguns autógrafos para fãs da velocidade presentes no apoio do Rally.
Quando eles pediram, me espantei, mas não pude negar. Apesar de anônima, estava em uma condição que comove o imaginário popular: a bordo de um carro de competição e com um macacão de piloto. Cheguei à conclusão que valeu a pena passar o feriado de Tiradentes engolindo poeira. Só foi uma pena o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, deslocar a tradicional Festa da Inconfidência de Ouro Preto – a 30 Km de Ouro Branco – para Diamantina, quebrando uma tradição de 53 anos. É um rito popular que eu gostaria de assistir. A próxima etapa do Campeonato Brasileiro de Rally de Velocidade será no dia 13 de maio, em Estação (RS).
CONHEÇA O 206 DE RALLY
O 206 que utilizei no Rally de Velocidade é baseado no carro de rua, mas traz diversas modificações para adequar-se à competição. O motor é o 1.6 16V, que na versão de série rende 110 cavalos. No modelo de rally, o propulsor ganhou alterações no comando de válvula, taxa de compressão e coletor de escapamento, passando a oferecer 130 cv. Assim, o 206 alcança até 190 km/h, velocidade acompanhada pelo excitante ronco dos modelos de competição.
O câmbio, semelhante ao da versão de série, recebeu nova relação final. Amortecedores e freios também foram modificados. Na cabine, o carro perdeu toda a forração e itens como ar-condicionado e air bags. Ficou apenas o painel original do 206. Na dianteira, há dois bancos esportivos, com cintos de segurança especiais para competição. O modelo conta ainda com barras de proteção, ou santantonio, que formam uma célula de segurança para os ocupantes.
Os pneus são desenvolvidos pela Goodyear especialmente para a categoria “off-road”. Todos os modelos da Copa Peugeot apresentam as mesmas especificações. Por se adequar às regras da modalidade, têm desvantagem em relação a outros carros A6 do Campeonato Brasileiro de Rally Velocidade. O Palio da equipe oficial da Fiat, por exemplo, conta com motor mais forte, que rende 160cavalos. Modelos como Renault Clio VW Gol também participam do rally, mas sem o apoio oficial das montadoras.
|
|