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 O Brasil na vanguarda dos combustíveis27/09/2005 

Texto: Rafaela Borges
Fotos: Reprodução

O alto preço do petróleo, a ameaça de escassez e a demanda por fontes de energias limpas. Este é o cenário pelo qual atravessa o mundo atual e faz com que os consumidores procurem combustíveis seguros e mais baratos. Com essa idéia em mente, montadoras e sistemistas passaram a investir alto na busca por fontes alternativas ao petróleo, cujo barril, este mês, teve cotação superior a US$ 60, um dos valores mais altos da história. Na Europa e nos Estados Unidos, empresas como BMW, Mercedes-Benz, Ford, General Motors, Toyota, Honda, entre outras, apostam no desenvolvimento de modelos que podem ser alimentados por novos tipos de combustíveis.

Hoje, temos veículos híbridos, alimentados por motor a gasolina ou diesel combinado com propulsor elétrico. Além disso, empresas investem na concepção de modelos movidos a hidrogênio. “Mas ainda existem alguns problemas em relação a essas fontes, como baixo volume de produção e formas de gerá-las” , diz Paulo Lozano, diretor técnico da AEA (Associação de Engenharia Automotiva). Por isso, pode-se dizer que o Brasil saiu na frente na busca por combustíveis alternativos ao petróleo: atualmente, os modelos bicombustíveis, que rodam com álcool, gasolina ou a mistura de ambos, representam 61,7% do total de veículos novos comercializados no país.

“O carro ‘flex’ trouxe confiança para o consumidor, que viu a oferta de álcool ser reduzida durante as décadas de 1980 e 1990, quando os usineiros priorizaram a produção ao açúcar”, diz Lozano. Acredita-se no veículo com tecnologia flexível porque, no caso de escassez do combustível vegetal, pode-se recorrer ao uso da gasolina. “O bicombustível oferece também economia e, com utilização exclusiva de álcool, deixa o motor do carro mais potente”, diz Paulo Kakinoff, diretor de Marketing e Vendas da Volkswagen, a primeira empresa a investir no sistema ‘flex’. Atualmente, Fiat, GM, Ford, Renault e Peugeot também fabricam modelos com a tecnologia.

O veículo bicombustível é tão importante para a indústria automobilística brasileira, que muitos consumidores deixam de comprar um carro que não tenha essa tecnologia temendo, principalmente, a alta da gasolina nos postos. Mas não é só o nosso país que volta os seus olhos para o álcool como fonte de energia alternativa. No início deste mês, o presidente da República, Luiz Inácio ‘Lula’ da Silva esteve na Guatemala para assinar protocolos de cooperação para desenvolvimento do programa de álcool naquele país. Na ocasião, o diretor do Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty, Mário Vivalva, afirmou à Agência Brasil que outras nações da América Central também têm interesse em nossa tecnologia de veículos flexíveis.

"Recebemos vários pedidos para que avançássemos numa cooperação na área de álcool combustível", afirmou Vivalva. "América Central e Caribe são produtores de açúcar (uma das fontes para o etanol) e não agüentam mais o alto preço do petróleo", completou. Além disso, o álcool também se transforma em fontes importantes para outros países em desenvolvimento, como a Colômbia – com o qual trocamos informações sobre a produção do combustível vegetal –, a Índia, a Tailândia, entre outros. A informação é de Eduardo Pereira, presidente da Unica (União da Agroindústria Canavieira de São Paulo), que representa o setor sucroalcooleiro brasileiro no exterior.

E, segundo Pereira, os Estados Unidos também surgem como um importante mercado consumidor para o álcool. Atualmente, os norte-americanos consomem anualmente cerca de 13 milhões de litros do combustível vegetal; no Brasil, o consumo é de 26 bilhões. “Com a recente aprovação da nova lei de energia, em sete anos os EUA pretendem chegar a 28 bilhões de litros”, diz o presidente da Unica. Ele afirma ainda que, na Europa, programas importantes para incentivar o uso do etanol serão concluídos dentro de três ou quatro anos. De olho nesse novo mercado, a Ford apresentou no início do mês o Focus FFV (Flexible-Fuel Vehicle), modelo cujo motor 1.6 permite a mistura de álcool e gasolina.

As primeiras 40 unidades do carro desembarcarão no mercado inglês em março do ano que vem, mas ainda em caráter experimental. Entretanto, apesar do estímulo ao uso do etanol ao redor do mundo, Eduardo Pereira afirma que boa parte das iniciativas é local. “A técnica de produção do álcool combustível já é conhecida, não tem segredo. Temos acordo de cooperação com outros países mas, na maioria dos casos, somos apenas o exemplo de aplicação de sucesso do etanol, já que fazemos isso desde 1930”, diz.

Apesar dessa posição, Pereira admite que o Brasil pode figurar como um grande exportador de álcool combustível no futuro. “No momento, estamos trabalhando para que nossa produção possa, em alguns anos, suprir a demanda interna (que absorve a maior parte), e ainda gerar um bom excedente para o mercado externo”, afirma. Segundo a Unica, em 2005 será destinado aproximadamente 1,8 bilhão de litros de etanol para a exportação, o mesmo número de 2004. Entretanto, o consumo interno aumentará cerca de 7%, também na comparação com o ano passado.

Enquanto o Brasil se especializa e dá o exemplo de como utilizar da melhor forma um combustível renovável, montadoras investem pesado para desenvolver novas fontes de energia. A Toyota inovou com o lançamento do Prius, modelo equipado com dois propulsores, um a gasolina e um elétrico, alimentado por bateria. A iniciativa foi seguida por diversas empresas, como a Ford, que tem o Escape híbrido. Até o final da década, o grupo norte-americano quer alcançar a produção anual de 250 mil veículos equipados com essa tecnologia.

Na Europa, a história é a mesma. O Salão de Frankfurt (Alemanha), que terminou ontem (25), foi marcado por uma avalanche de lançamentos e protótipos de modelos híbridos. Como exemplo, a Mercedes-Benz mostrou duas versões diferentes da nova geração do Classe S, enquanto a Audi apresentou um Q7 conceitual, equipado com motor elétrico. Até a Porsche, tradicional fabricante de esportivos, se arrisca no segmento: a marca alemã firmou parceria com o grupo Volkswagen para desenvolver carros híbridos. Com o mesmo objetivo, DaimlerChrysler, BMW e GM fecharam acordo de cooperação.

“O problema dos modelos híbridos é que eles ainda estão em fase embrionária. A maioria dos carros é conceitual, e os que são produzidos em série têm volume baixo”, diz Paulo Lozano, da AEA. Outra fonte alternativa que pode ganhar força nos próximos anos é o hidrogênio e a BMW é uma das montadoras que investe pesado em seu desenvolvimento. Alguns especialistas afirmam que, até 2020, o combustível poderá integrar a matriz energética brasileira. Para Lozano, trata-se de uma fonte limpa, que emite apenas água, sendo esta sua grande vantagem.

“Porém, ainda não se sabe qual matéria-prima é apropriada para gerar o hidrogênio. O petróleo é uma boa alternativa, mas tiraria o caráter ecológico do combustível”, diz o diretor técnico. Além disso, existe também o problema do alto preço desta fonte, além da ameaça de escassez. Por isso, quando o assunto é combustível renovável, o Brasil ainda é pioneiro, já que desenvolveu uma tecnologia que se mostrou eficiente, viável, econômica, e já faz grande sucesso mundo afora.


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