AMERICANA (SP) - O travamento das rodas do carro em frenagens bruscas é responsável por boa parte dos acidentes de trânsito. Na Alemanha, por exemplo, 40% das ocorrências são motivadas por esse motivo. Para evitar que as rodas travem na frenagem e o motorista mantenha a dirigibilidade do veículo em situações críticas é que foi inventado o sistema de freios ABS (sistema de freios antitravamento) . Diante das estatísticas, esse equipamento já é item de série obrigatório nos modelos europeus e equipa cerca de 74% dos veículos norte-americanos. Entretanto, no Brasil o panorama é bem diferente. Segundo a Bosch, fornecedora de cerca de 65% dos freios ABS da frota nacional, aqui o número de veículos equipados com o sistema chega a apenas 11%.
Uma pesquisa da Bosch foi feita com objetivo de detectar a importância do item de segurança para o consumidor brasileiro e por que o ABS ainda não é adotado em larga escala em nossos modelos. Foram entrevistados 44 consumidores, cujos carros estão equipados com os freios antitravamento, além de pessoas que têm veículos sem o equipamento. Os resultados mostraram que o brasileiro privilegia estética, conforto e potência na hora de adquirir seus modelos. No caso da segurança, eles preferem itens ativos, aqueles que amortizam os resultados do acidente já consumado, como airbag e cinto de segurança.
Além disso, consideram o freio ABS um equipamento caro. O sistema é oferecido como opcional na maioria de nossos modelos - exceto Chevrolet Celta, Fiat Uno e Ford Ka. Entretanto, já que se trata de um equipamento importado, deixa o preço final do veículo cerca de R$ 3 mil superior, valor considerado alto para os padrões brasileiros. Para produzir o ABS no Brasil, seria necessário que os modelos equipados com o equipamento tivessem participação de 25% no total das vendas, afirma a Bosch. A conclusão da pesquisa é que o brasileiro tem um certo desconhecimento em relação à eficiência do sistema. A convite da Bosch, Carsale esteve na pista da Goodyear para participar de uma experiência de comparação entre veículos com e sem ABS.
O TESTE PRÁTICO
Antes de partirmos para a pista para efetuarmos cinco exercícios com o uso do ABS, recebemos algumas instruções do piloto chefe e de engenheiros da Bosch. Além de manter a dirigibilidade em situações de frenagem bruscas, o sistema também reduz o espaço de frenagem. Equipado com freio convencional, o veículo que está a 100 km/h pára depois de se arrastar por 45 metros. Já nos carros com ABS, essa distância é 9 metros menor. Outra informação importante diz respeito ao uso do freio antitravamento em situações cotidianas. Nestas condições o sistema ABS não entra em ação.
Dadas as instruções, partimos para a pista a bordo de seis modelos diferentes, todos equipados com freios ABS. Tivemos um piloto como monitor, que instruiu seus alunos sobre o princípio básico de utilização do item de segurança. Segundo nosso instrutor, é preciso acionar os freios com força, sem sentir medo da trepidação do pedal. Esta reação significa que o sistema está trabalhando corretamente. Os exercícios simularam situação de risco, como curvas travadas, presença inesperada de pedestres e desvio de obstáculos, em pista seca e molhada. Em todas as situações, é preciso acionar o pedal com força, e manter o pé até que o veículo pare ou desvie do obstáculo.
Com o pé pisando forte no pedal, o motorista pode controlar a direção normalmente, mantendo a dirigibilidade do carro. O importante é não aliviar a pressão dos freios, caso contrário o ABS não vai funcionar diretamente. Comprovamos a eficácia do sistema antitravamento nos cinco exercícios, nos quais conseguimos transpor difíceis obstáculos, em alta velocidade, mantendo o controle do veículo.
Para mostrar como o carro se comporta sem ABS, a Bosch instalou nos veículos um dispositivo que desativa o equipamento. Fazendo os mesmos cinco exercícios sem a presença do freio antitravamento e com o pé no pedal, perdemos a direção dos veículos em todas as situações. Isto porque o freio convencional impossibilita o controle da direção, uma vez que trava as quatro rodas.
O objetivo da simulação, batizada de "Bosch Experience", era mostrar a eficiência dos freios antitravamento. A comparação deixou clara que o motorista tem melhoria de segurança em um carro equipado com ABS. Entretanto, o preço do dispositivo continua sendo um obstáculo para muitos consumidores brasileiros. Por isso, resolvemos simular situações de frenagem brusca com ABS desligado, apenas controlando a pressão do pé no pedal. O que pudemos constatar é que é possível controlar a dirigibilidade do carro em paradas de emergência sem a utilização do ABS.
Segundo nosso instrutor, o motorista de carro sem ABS deve acionar o pedal com força quando detecta um obstáculo e manter a trajetória de desvio normalmente. Quando o obstáculo estiver próximo, o condutor deve aliviar a pressão no pedal para poder mover o volante. No teste prático, o método se mostrou eficaz em algumas situações, mas não em todas. De qualquer maneira, existem cursos de direção que ensinam o motorista a aprimorar esta prática. Custam cerca de R$ 800 - em alguns caros, são oferecidos gratuitamente pelas seguradoras. De qualquer maneira, é uma opção para quem não pode pagar pela segurança - comprovadamente superior - que o sistema de freios ABS oferece.
Quadro: verdades e mentiras sobre o ABS - fonte: Bosch