Os protagonistas deste comparativo são espaçosos, confortáveis e trazem a palavra Grand no nome. Isso sem falar do visual moderno e da grande quantidade de mimos tecnológicos à disposição de quem está ao volante ou o acompanha. Estamos falando dos franceses Grand C4 Picasso, da Citroën, e do Grand Scénic, da Renault. Ambos podem levar até sete ocupantes e chegam para disputar mercado com a veterana e brasileira Chevrolet Zafira, que reinou por um bom tempo como a única minivan com essa capacidade e preço abaixo dos R$ 100 mil. Bem, isso até a chegada da Carens, da Kia, no mês passado, custando R$ 80 mil. E por falar em preço, o C4 Picasso parte de R$ 89.800. O Scénic, por sua vez, tem tabela sugerida de R$ 88 mil. A minivan da Renault desembarcou no mercado nacional em fevereiro. Já o compatriota chegou em maio, com pouco mais de um ano de atraso, levando-se em conta que a Citroën do Brasil chegou a anunciar seu lançamento por aqui para o ano passado.
ESTILO
Apesar do atraso, o C4 chama mais a atenção por onde passa. Seja pelo porte avantajado ou pela ampla área envidraçada, ou ainda pelo jeitão de nave espacial. Não que o Scénic não tenha visual moderno e atraente. Mas o desenho da minivan da Citroën lembra o de um carro-conceito e abusa dos cromados, tendência em alta atualmente. Suas linhas remetem a outros modelos da linha C4, como o VTR e o Pallas. Graças, principalmente, aos faróis triangulares e ao grande Chevron, símbolo da marca, no papel de grade frontal; detalhe também herdado pelo Xsara Picasso. Outra característica que impressiona é o imenso pára-brisa que avança sobre o teto. De acordo com o fabricante, a visibilidade frontal é de 70º, o dobro da oferecida por um monovolume convencional.
Na aparência, o Scénic é mais distante do restante da gama Renault, apesar de a dianteira exibir a mesma grade separada em duas partes com o losango da Renault ao centro. Por ser mais baixo que o rival – 1,64 metros ante 1,71 m, do Citroën –, o Renault chega a flertar com a esportividade. Visto de lado, a moldura das janelas remete ao Honda Fit. Porém é atrás que o Scénic sai do lugar comum. O vidro traseiro – que pode ser aberto com a tampa do porta-malas fechada – é vertical e não acompanha a inclinação da porta, assim como no Mégane hatchback vendido na Europa e ainda indisponível por aqui. A traseira do C4 também é vistosa, com destaque para as lanternas verticais que cobrem as colunas D.
Por dentro, as duas minivans chegam a compartilhar algumas boas idéias, como o painel digital, o vão livre entre os assentos dianteiros, o botão do freio de estacionamento no painel – o do C4 é no centro, e o do Scénic fica à esquerda do volante -, e as bandejinhas nos encostos dos bancos da frente. Mas o Citroën sai na frente quando o assunto é mimar os ocupantes. A começar pelo ar-condicionado digital, capaz de oferecer quatro zonas de climatização individuais – duas na frente e mais duas na segunda fileira de bancos. O acionamento é feito por um pequeno conjunto de botões à esquerda do volante.
E por falar nele, assim como o do Pallas, a peça tem miolo fixo e botões que acionam as funções do computador de bordo, do sistema de áudio e do piloto automático. A direção também agrega hastes para a troca de marchas e a própria alavanca de câmbio, posicionada na parte superior. No Grand Scénic, o volante é convencional e possui teclas de controle do limitador de velocidade e do rádio. Já o câmbio fica no console central e, como na linha Mégane, um cartão substitui a chave. O C4 conta ainda com um pequeno compartimento refrigerado logo abaixo do CD/MP3 player. Mas a oferta de porta-trecos não pára por aí. A impressão que se tem é de que as duas minivans travam um duelo para saber qual delas tem mais lugares para guardar objetos. O Citroën traz dois esconderijos sobre o painel, já o Renault aposta no assoalho a frente do banco traseiro, como no Scénic nacional.
E se o charme do C4 é o imenso teto panorâmico, o rival não fica atrás. Na unidade testada, porém, ele é dividido em duas partes, sendo que o da frente pode ser aberto eletricamente. Este recurso, porém, não foi disponibilizado aos consumidores brasileiros, assim como o lavador dos faróis. O porta-malas do Citroën tem capacidade para 576 litros – e traz uma pequena lanterna destacável e recarregável na parede do compartimento – ante 550 l, do Renault. Para ajudar nas manobras de estacionamento, ambos os modelos contam com sensores de aproximação e alertas sonoros. O C4, no entanto, mostra por meio de um gráfico no painel o quanto o veículo está perto do obstáculo. Mas se a dúvida é saber se o carro cabe na vaga. Voilá! O dispositivo também é capaz de calcular o tamanho do espaço e informar se é suficiente para ele estacionar.
No quesito segurança, as duas minivans não descuidam. Freios com ABS e assistência de frenagem de emergência, controle eletrônico de estabilidade (ESP) e pontos de fixação Isofix para cadeiras infantis são itens de série. O C4 vem com sete airbags – duplos frontal e lateral, tipo cortina e um exclusivo para proteção dos joelhos do motorista – um a mais que o Scénic. Além do teto de vidro, a lista de opcionais do Renault inclui rede de proteção do bagageiro e forração de couro nos bancos. Há ainda um console entre os bancos dianteiros, mas ele é de série.
DESEMPENHO
Os dois franceses usam motor 2.0 litros de quatro cilindros e 16 válvulas e câmbio automático de quatro marchas, com modo seqüencial. No caso do C4, ele rende 143 cavalos de potência a 6.000 rpm, apenas 5 cv a mais que o do concorrente. O torque é quase o mesmo em ambos: 20,4 kgfm (a 4.000 rpm), no Citroën, e 19,1 kgfm (a 3.750 rpm), no segundo. A relação peso/potência também é bem próxima: 10,9 kg/cv, no Picasso, e 11,9 kg/cv, no Scénic. As suspensões de ambas tem configuração voltada para o conforto, mas isso não chega a afetar o desempenho em curvas. Porém, o C4 sofreu com o asfalto castigado de São Paulo. As batidas típicas de final de curso do amortecedor eram constantes. Isso sem falar dos rangidos dentro da cabine. O conjunto do Scenic encarou o asfalto irregular da cidade com mais firmeza. Pesam contra o Renault a posição do pedal do freio, muito próxima do acelerador, detalhe que incomodava constantemente durante a avaliação; e a rigidez excessiva do mecanismo de rebatimento da última fileira de bancos. Aliás, viajar nestes assentos pode ser um martírio mesmo para crianças, pois o espaço é ínfimo.
Nos testes de desempenho, o C4 levou a melhor sobre o adversário. Ele precisou de 13,2 segundos para acelerar de 0 (zero) a 100 km/h, contra 14,9 s, da minivan Renault. Nos ensaios de retomada, o Picasso continuou em vantagem. Para ir de 40 km/h a 80 km/h e de 60 km/h a 100 km/h foram necessários 8,3 s e 8,7 s, respectivamente, ante 8,8 s e 9,65 s, do Scénic. O Citroën também freia bem. A 60 km/h, ele precisa de 24,2 metros para parar totalmente, quase a mesma distância do rival: 24 m. A 100 km/h, a diferença sobe para quase cinco metros – 52,6 m, do C4, contra 57,5 m. O troco do Renault veio nas medições de consumo. Em regime urbano, o Scénic rendeu 7,9 km/l. No rodoviário, por sua vez, foram 12,5 km/l. Mais beberrão na cidade, o Picasso fez 7,5 km/l, mas compensou na estrada, com média de 13,2 km/l.
MERCADO
Além de serem boas opções à já veterana Zafira, que já conta com uma nova versão na Europa, duas gerações à frente da nossa, e à recém-chegada Carens, a dupla Grand concorre indiretamente com modelos maiores e mais caros, como o Carnival, para oito ocupantes, também da Kia; e o Grandis, da Mitsubishi. A Carens tem motor 2.0 e custa R$ 80 mil. O coreano maior tem motor V6 3.8 l de 24 válvulas e sai por R$ 145 mil. O japonês, por sua vez, custa a partir de R$ 120 mil e esconde um bloco 2.4 16V sob o capô. Os franceses oferecem três anos de garantia, assim como o Grandis. Já a Kia oferece cinco anos de cobertura total para seus dois modelos. De acordo com a Renault, de fevereiro a julho, foram vendidas 195 unidades da Grand Scénic, menos da metade do volume acumulado nos dois últimos meses pela concorrente. Segunda Citroën, já foram comercializadas 400 exemplares do Picasso.