Mesmo em um dos segmentos que mais cresceu no mercado nacional nos últimos anos, o de sedãs médios, existem alguns modelos que não conseguem "emplacar" nas vendas. Volkswagen Bora e Peugeot 307 Sedan nunca foram unanimidade entre os consumidores brasileiros, apesar do fato de ambos serem derivados de hatches de sucesso. Enquanto o Bora nasceu de uma "costela" do Golf, o três volumes da marca francesa traz o DNA do 307 Hatch.
Neste duelo de "hermanos" — o Volks vem do México e o 307 Sedan, da Argentina — não faltam características em comum. Além de beberem somente gasolina e de terem motor 2.0 litros, os dois são bastante conhecidos por aqui. Na verdade, o Bora já pode ser considerado um veterano, uma vez que está em sua segunda geração no Brasil, sendo comercializado desde o final de 2000. Já o sedã médio rival "deu as caras" no segundo semestre de 2006.
A diferença entre os preços sugeridos esquenta a disputa. O Volks parte de R$ 60.390, enquanto que o 307 Sedan Feline sai das lojas por R$ 58.650. Ao colocar a transmissão automática (opcional nos dois) nesta mistura, a distância fica ainda menor: R$ 64.520 ante R$ 63.650, na mesma ordem. E se na teoria a briga é interessante, nos testes do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) cada um mostrou suas reais virtudes. Enquanto o Bora ataca com o câmbio de seis marchas, o 307 Sedan responde com equipamentos e conforto extras.
ESTILO
A traseira é a grande polêmica do 307 Sedan. A versão três volumes destoa não só do restante da gama 307, mas de todo o portifólio da Peugeot. A marca francesa é considerada referência em estilo, mas as linhas conservadoras da parte posterior vão na contra-mão desta qualidade. O porta-malas tem tampa quadrada, os faróis contam com formato de um quarto de circunferência, enquanto o pára-choque é proeminente. Uma verdadeira miscelânea, pois a frente futurista "briga" com a linguagem antiquada das formas da traseira. Produzido na planta da PSA em Buenos Aires, o sedã destaca-se pela parte frontal. A grade do radiador larga, incorporada ao pára-choque, fez o modelo ser apelidado de 307 "bocão".
O painel de instrumentos tem iluminação âmbar e conta com difusores de ar com detalhes prateados, além de o acabamento ser mais caprichado que o do Bora — que não segue o padrão da linha Golf. Com 4,48 metros de comprimento, 1,76 m de largura e 1,52 m de altura, o 307 Sedan acomoda bem cinco pessoas. Mas se a distância entreeixos de 2,61 m do Peugeot já não é das melhores, os 10 centímetros a menos do Bora entre as rodas faz diferença para os passageiros traseiros. Cabem cinco no Volks, mas as pernas vão apertadas.
No porta-malas, outro ponto a favor do argentino: são 623 litros de capacidade ante 455 l do mexicano (diferença de 168 l). As medidas são: 4,37 m de comprimento, 1,73 m de largura e 1,44 m de altura. Em outras palavras, o Bora é mais curto, estreito e baixo que o adversário.
Bora
307 Sedan
O modelo Volks, por outro lado, traz estilo mais harmonioso que o do rival, mas não menos polêmico. Desenvolvido pela fabricante chinesa FAW e fabricado em Puebla, o Bora recebeu novos faróis circulares duplos, entradas de ar maiores e nova grande central que exibe o novo conceito de estilo da marca alemã. A traseira tem lanternas duplas — lembrando as do Polo Sedan — e abertura da tampa do porta-malas integrada ao emblema da marca.
Com plástico nas laterais das portas e revestimento mais simples, o três volumes mexicano não se equipara ao rival quando o assunto é conforto e silêncio a bordo. A posição de dirigir é boa em ambos, mas o 307 Sedan oferece melhor visibilidade em função de sua ampla área envidraçada. A iluminação dos instrumentos do Volks é em azul, contrastando com os ponteiros em vermelho.
No que diz respeito ao pacote de equipamentos de série, o argentino dá outro passo à frente. Custando apenas R$ 870 a mais nos modelos com câmbio automático, o 307 Sedan sai de fábrica recheado com sensor de luminosidade, faróis com regulagem interna de altura de facho, piloto automático, controle do sistema de som no volante — que é revestido de couro, diga-se de passagem. Nenhum destes itens consta na lista de acessórios do Bora, que traz como diferencial apenas o encosto de braço central com porta-objetos.
Bora
307 Sedan
Mas nem por isso o sedan Volks deixa a desejar. Oferecido em versão única de acabamento, o modelo traz de série ar-condicionado digital, freios com ABS, CD player com MP3, espelho retrovisor interno com dispositivo antiofuscamento automático e rodas de liga leve de 16". Os opcionais disponíveis para o mexicano são teto solar (R$ 3.750) e câmbio automático.
DESEMPENHO
O motor do Bora é bem conhecido, assim como a transmissão Tiptronic (com modo seqüencial) de seis marchas. A motorização 2.0 litros de 116 cavalos de potência a 5.200 rpm e 17,3 kgfm de torque a 2.400 giros é a mesma que empurra o Golf e o New Beetle, modelos que também compartilham a caixa automática. Fazem parte também da lista do "câmbio comunitário" os sedãs de luxo Passat e Jetta.
Mas se o equipamento fosse ruim, a Volkswagen não teria disponibilizado esta transmissão para tantos modelos. Muito pelo contrário, o casamento entre motor e o câmbio Tiptronic é bem sucedido praticamente em todos os veículos. No caso do Bora, o conjunto automático de seis marchas (são duas a mais que o Peugeot) favorece a dirigibilidade e proporciona melhores retomadas, sem dar trancos nas mudanças.
Bora
307 Sedan
Apesar das duas relações extras, aos 120 km/h o Bora trabalha na mesma faixa de rotação do rival: cerca de 3.500 giros. A explicação para isso é simples: o motor 2.0 da Aliança PSA Peugeot Citroën é mais moderno, como também difundido pelas marcas francesas. Quem abrir o capô de toda gama 307 (Hatch, Station Wagon e Coupé Cabriolet), Peugeot 407 de entrada, além dos Citroën Xsara Picasso, C4 VTR, C4 Pallas, C5 de entrada e, em breve, o Grand Picasso, encontrará o mesmo conjunto.
É verdade que alguns destes veículos contam com cabeçote diferente e a tecnologia de comando de válvulas, o que faz a potência deste propulsor variar de 138 cv a 143 cv. O 307 Sedan fica com a segunda cifra, gerando 22 cv a mais que o rival mexicano. O torque também é maior: 20 kgfm a 4.000 rpm. Mas se na mão da direita a motorização faz bonito no desempenho, na outra o câmbio poderia ser mais rápido nos engates. A transmissão (também utilizada na gama 206) não dá solavancos, mas muitas vezes demora para engatar a marcha que o motor está "pedindo".
Apesar das diferenças, na pista o embate foi equilibrado. De acordo com as medições do IMT, o Bora acelera de 0 a 100 km/h em 13,38 segundos contra 12,94 s do Peugeot. Nas retomadas, houve empate, cada um levou a melhor em um teste. Aos 40 km/h, o Volks precisa de 7,54 s para retornar aos 80 km/h. Para cumprir a mesma tarefa, o 307 leva 8,02 s. Porém, de 60 a 100 km/h, o argentino crava 8,78 s contra 9,5 s do concorrente.
Bora
307 Sedan
Mesmo menor e 117 quilos mais leve, o Bora breca praticamente junto com o sedã da marca francesa. Nas frenagens a 80 km/h são necessários 39,9 metros para parar e, aos 100 km/h, essa distância sobe para 53,3 m. O sedã médio portenho registra 35,6 m e 54,8 m, respectivamente.
A decisão ficou por conta do consumo. O três volumes argentino mostra-se bem mais econômico que o rival. No ciclo urbano, o Peugeot faz 9,1 km/l e, na estrada, 14,1 km/l. O Bora bebe 1 litro de gasolina a cada 7,5 km percorridos na cidade ou 11,7 km, nas rodovias. Para piorar a situação do Volks, o tanque de combustível do 307 Sedan comporta 5 litros a mais, garantindo ao Peugeot melhor autonomia. Para se ter uma idéia da diferença, o modelo argentino pode percorrer até 850 quilômetros sem parar para ser abastecido, cerca de 200 quilômetros a mais que o Bora.
MERCADO
Bons produtos ou não, a verdade é que para o consumidor brasileiro nem Bora nem 307 Sedan fazem sucesso. De setembro (quando foi lançada a nova geração do Bora) a janeiro, a Volkswagen licenciou 1.502 unidades de seu sedã médio, sendo 855 exemplares equipados com câmbio automático. Desempenho tímido se comparado ao segmento em que atua, mas ainda sim superior às projeções da marca alemã que, esperava comercializar 250 unidades mensais do modelo.
Há mais tempo no mercado, a geração atual do sedã médio 2.0 Peugeot teve 2.852 modelos emplacados ao longo de 2007. Conforme a marca do leão, a configuração sem o pedal de embreagem foi responsável por 70% do mix. Ainda segundo dados do fabricante, em janeiro de 2008 foram comercializados 113 unidades do 307 Sedan.
Vale lembrar que nestes números estão embutidas as vendas da configuração topo de linha "Griffe" (R$ 71.750), versão de acabamento mais refinada que a Feline, que enfrenta o Bora neste comparativo. Outro fator a ser levado em consideração é que o três volumes argentino conta com outras opções no Brasil. O 307 Sedan pode ser equipado também com o motor 1.6 Flex de até 113 cv — isso mesmo, apenas 3 cv a menos que o Bora 2.0 —, que integra os catálogos "Presence" (R$ 53.400) e "Presence Pack" (R$ 55.600).