Sempre que um carro é lançado, o fabricante tenta, de todas as formas, convencer a imprensa e o público de que a tal novidade oferece inúmeras vantagens sobre seus concorrentes diretos. Ford e Volkswagen, por exemplo, usaram e abusaram dos elogios ao Fiesta Trail e ao Gol Rallye, dizendo que um era melhor que o outro.
Na ocasião da apresentação do Fiesta aventureiro, em junho último, a Ford repetiu inúmeras vezes que o modelo oferecia uma ótima relação custo-benefício. Já a Volks, relançou a série fora-de-estrada do Gol em setembro sob o mote "suje sem dó", passando a mensagem de que a configuração Rallye agüenta qualquer parada. Nesta briga de vaidades colocamos os dois compactos mais enfeitados do mercado frente a frente.
Ambos mirando os consumidores emocionais de espírito jovem, equipados com motores 1.6 litro bicombustível, modelos 2008, configurações topo de linha e com adereços a perder de vista. Daí em diante, as semelhanças diminuem. No quesito desempenho, como apontou as medições realizadas pelo Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), o hatchback da Ford - equipado com um motor de tecnologia mais moderna que o rival - andou na frente praticamente em todas os testes. O compacto VW dá o troco no preço, uma vez que ele é exatos R$ 9.185 mais barato que o concorrente. A explicação para isso é simples: menos equipamentos.
ESTILO
Tanto o Gol quanto o Fiesta passaram por retoques no visual este ano nas versões "urbanas". No compacto da Ford, as mudanças ficaram mais visíveis, pois em janeiro o modelo ganhou novos faróis e painel de instrumentos. O Gol também recebeu apenas uma "perfumaria". Em setembro, o carro mais vendido do País ganhou novo mostrador digital no painel, manopla de câmbio diferenciada e, nas versões mais requintadas, faróis com máscara negra e painel de instrumentos com fundo branco.
Antes vendido como pacote de equipamentos na linha 2007, o acabamento Trail chegou ao Fiesta hatch 2008 como configuração topo de linha, disponível nas motorizações 1.0 e 1.6, ambas Flex. Mas o estilo do modelo atual teve de ser adequado à legislação. O antigo pára-choque dianteiro tubular deu lugar a componentes de plástico na cor cinza, que também passaram a fazer parte do pára-choque traseiro. Complementam o aspecto off-road estribos laterais, rodas de liga leve de 14 polegadas, bagageiro de teto e adesivos alusivos à versão nas portas e na tampa do porta-malas.
Por dentro, o Fiesta traz bancos revestidos de neoprene, manopla de câmbio exclusiva, pedaleiras esportivas de alumínio e soleiras personalizadas. No que diz respeito aos itens de série, a versão Trail é equipada com os kits "Pulse" e "Class", o que recheia o compacto com ar-condicionado, direção hidráulica, travamento automático das portas e CD player com MP3. Por contar com estes mimos, a Ford pede pelo Fiesta 1.6 aventureiro R$ 45.560 — nada menos que R$ 160 mais caro que o Focus GL dotado de ar-condicionado, direção hidráulica e vidros e trava elétricos.
Bem menos equipado, mas tão chamativo quanto o adversário, o Gol Rallye é montado a partir da versão "Power", mas sua suspensão é mais elevada, deixando a altura livre do solo 2,7 cm maior que o modelo convencional. Disponível apenas com motor 1.6 Total Flex, a série especial tem preço sugerido de R$ 36.375. Esse valor dá direito a detalhes no interior com inserções em cinza claro, além de manopla de câmbio e painel com texturas diferenciadas. Os bancos têm revestimento exclusivo e rede porta-objetos nas laterais, o volante em tons tem estilo retrô e o porta-malas é acarpetado.
Na carroceria, que pode ser pintada em amarelo "Solaris" (o mesmo do CrossFox), os destaques ficam por conta dos novos faróis e lanternas de neblina — que seguem as linhas de estilo utilizadas no modelo aventureiro do Fox —, faixas adesivas laterais que identificam a versão e as molduras nas caixas de roda. Se de um lado o Fiesta tem bagageiro de teto, o Gol responde com o aerofólio traseiro e rodas de alumínio de 15". E, mesmo equiparando os equipamentos, o modelo Volks continua mais barato que o rival: R$ 41.315.
Mas estes R$ 4.245 a mais são compensados em espaço e conforto à bordo. O Fiesta é maior em todos os ângulos. São 4,03 metros de comprimento (10 cm a mais que o adversário), 1,67 m de altura (22 cm mais alto), 1,76 m de largura (11 cm maior) e distância entreeixos de 2,48 m (1 cm de vantagem). Na capacidade do porta-malas a diferença é de 20 litros: o Gol leva 285 l no bagageiro contra 305 l do concorrente.
Outro ponto forte do Ford é o acabamento, que ficou mais caprichado na versão 2008. No Gol, o motorista se depara com acabamento de plástico mais simples — apesar de ser agradável ao toque — e bancos menos anatômicos que os do Fiesta. No banco de trás, novamente vantagem para o hatch montado em Camaçari (BA). A ergonomia, por outro lado, é equivalente entre os dois.
DESEMPENHO
Mesmo ganhando ares mais modernos este ano, o Gol esconde embaixo do capô o veterano motor AP, utilizado pela Volkswagen desde meados de 1985. Está certo que a marca fez ajustes técnicos ao longo destes 22 anos, transformando inclusive o Gol no primeiro automóvel bicombustível no Brasil. Porém, ele ficou na rabeira do conjunto 1.6 RoCam Ford em quase todos os testes realizados pelo IMT. Apenas na aceleração de 0 a 100 km/h, o Gol se deu melhor que o rival, marcando 13,37 segundos contra 13,51 s.
Com gasolina, o Volks entrega 101 cv a 5.750 rpm e 14,2 kgfm a 3.000 giros. Abastecido com álcool, estes números saltam para 103 cv e 14,5 kgfm. Cifras inferiores às do compacto baiano, que desenvolve 105 cv e 111 cv a 5.500 rpm, com gasolina e álcool respectivamente, e 14,9 kgfm e 15,8 kgfm de torque a 4.250 rotações, na mesma ordem.
Nas retomadas de 40 km/ a 80 km/h o Gol precisou de 11,1 s ante 10,26 s do adversário. Contudo, aos 60 km/h, o Volks demora 17,1 s para alcançar os 100 km/h. O Fiesta crava 14,88 s. Abastecidos com álcool, as diferenças diminuem, mas o hatch de Camaçari mantém-se à frente. De 40 a 80 km/h, o Ford marcou exatos 10 s contra 10,27 s do Gol. As medições de 60 a 100 km/h foram de 14,93 s e 16,01, respectivamente. Ainda com o combustível de origem vegetal, a aceleração de 0 a 100 km/h é feita pelo Gol em 12,61 s, pouca coisa a mais que os 12,59 s do concorrente.
No consumo, outra prova da superioridade do motor Ford. Com gasolina, o Fiesta Trail percorreu média de 10,3 quilômetros com um litro de combustível, na cidade, e, 14,9 quilômetros, na estrada. O Gol fez média de 9,3 km/l e 14,3 km/l, na mesma ordem. Apenas com álcool no tanque, novamente o Volks mostrou ter mais sede. Nas vias urbanas, o modelo fez 7,3 km/l contra 7,7 km/l do rival. Nos trechos rodoviários engoliu 1 litro de combustível a cada 10,4 quilômetros ante 11,2 quilômetros do Fiesta.
Longe dos números, quem estiver em dúvida de qual modelo comprar, experimente entrar nos dois veículos no mesmo dia. Isso evidenciará um antigo problema do Gol: o fato de os pedais e o volante estarem desalinhados em relação ao banco do motorista, que é obrigado a dirigir na diagonal. Se possível, faça também um test-drive com os dois. Apesar de os percursos determinados pelas concessionárias não serem muito longos, um primeiro contato é o suficiente para ver qual dos dois combina mais com o seu jeito de dirigir.
A direção do Gol, por exemplo, é mais leve que a do Fiesta, que tem os pedais mais macios. A alavanca de câmbio do Ford é mais alta que o convencional, ao passo que a do Gol é menor, favorecendo a dirigibilidade do modelo, que tem relações de marchas mais curtas. Apesar de apresentar desempenho inferior e gastar mais combustível, o motor VW é mais silencioso que o Ford. Aos 100 km/h, ambos trabalham próximos dos 3 mil rpm, mas só quem estiver dentro do Fiesta se lembrará disso.
MERCADO
Líder de vendas do mercado nacional há 20 anos, o Gol conquistou seu espaço entre os consumidores, com direito a fama de ser "pau para toda obra", com baixo custo de reposição de peças e de que é muito fácil de ser revendido. Porém, ele também é um dos modelos preferidos dos ladrões e, em razão disso, sua apólice de seguro chega a ser mais cara que a de muitos automóveis de segmentos mais luxuosos. Um levantamento realizado com algumas seguradoras revelou que o motorista de São Paulo terá de desembolsar anualmente R$ 4 mil, em média, para proteger seu Gol Rallye. Valor superior que o do rival Trail. A apólice do Fiesta hatch topo de linha fica na casa dos R$ 3.200.
Mesmo assim, a Ford diz que o principal adversário da versão aventureira de seu hatch 1.6 é o CrossFox. De acordo com informações do fabricante, as vendas da versão Trail representam 10% do mix do Fiesta hatch, o que resulta em aproximadamente 5,5 mil unidades no acumulado de janeiro a outubro deste ano. Desse total, a motorização 1.6 responde por 40% dos licenciamentos (cerca de 2.200 veículos).
Já a configuração Rallye é considerada pela Volkswagen uma série especial. A versão lameira tem sua produção limitada em 3 mil unidades. Mas o gerente de Planejamento de Marketing da marca, Fabrício Biondo, anunciou durante a apresentação do modelo que a marca irá estender a fabricação da série Rallye. No entanto, a Volks não informou quantas unidades do veículo já foram comercializadas este ano nem dimensionou qual volume terá esta expansão.
Vale lembrar que o Fiesta não deve passar por modificações em seu visual tão cedo, ao contrário do Gol. A Volks lança a quinta geração de seu carro de entrada em meados de abril do ano que vem, o que deve resultar em uma sensível desvalorização da geração atual, a qual pertence a versão Rallye.
| COTAÇÕES DE SEGURO (*) |
| Seguradoras |
Gol Rallye |
Fiesta Trail 1.6 |
| Bradesco Seguros |
R$ 3.706,58 |
R$ 2.791,83 |
| Porto Seguro |
R$ 3.252,00 (**) |
R$ 2.818,00 |
| Unibanco AIG Seguros |
R$ 5.288,00 |
R$ 3.997,23 |
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(*) Os valores relacionados são os três menores encontrados. Perfil do condutor: masculino, casado e residente na cidade de São Paulo (zona leste), podendo variar de acordo com cada usuário e município de circulação.
(**) Com rastreador instalado
Fonte: Expresso Corretora de Seguros — (11) 6129-7906