Texto: Carina Mazarotto
Fotos: Divulgação/ Audi, Car2Car Communication, Ford Motor Company, General Motors e Nissan Motor Co.
Murilo Baptista Felice é uma pessoa de sorte. Na semana passada, durante o caminho para o trabalho, um grave acidente ocorreu a poucos metros de distância de seu veículo. No painel do carro, o aviso. "Problemas na pista. Reduza a velocidade imediatamente. Vá para a faixa da direita". Como estava atrás de um caminhão, Murilo não viu a batida. Se não fosse o alerta no painel, certamente teria se envolvido na colisão.
Feliz Murilinho. Na verdade, ele ainda é um bebê. Nasceu no dia 3 de janeiro de 2009, na capital paulista. Daqui a 30 ou 40 anos, esse deverá ser o cenário de seu dia-a-dia. Depois do cinto de segurança, freios ABS, airbags, controle de estabilidade, sistemas autônomos de direção e diversas tecnologias de segurança passiva e ativa, os carros vão aprender a se comunicar com outros veículos, semáforos e estradas. E o mais interessante é que o rumo desta 'prosa' chegará aos motoristas.
Por meio de um display no painel, sinais visuais iluminados por leds (diodos emissores de luz) ou alertas sonoros, o condutor receberá informações sobre acidentes, obras nas vias, veículos quebrados no meio do caminho, aproximação de ambulâncias, riscos de colisões nos cruzamentos sem sinalização, entre outros. Além disso, a nova 'linguagem' universal também promete reduzir os congestionamentos. Ao se aproximar de um semáforo, por exemplo, o motorista saberá qual a velocidade média que deve manter para não encontrar o farol vermelho.
Ficção científica? Nada disso. Lembre-se que, até pouco tempo atrás, os celulares não faziam parte de nossa realidade, os computadores liam apenas disquetes, o CD era coisa do futuro, e o iPod sequer existia. "O desenvolvimento da eletrônica é muito rápido. E a velocidade de evolução das tecnologias mudou completamente nos últimos anos", comenta Carlo Gibran, gerente de Marketing da unidade Chassis System Control da Bosch. No trânsito, não faltam exemplos. Basta pensar no pedágio eletrônico nas estradas, na fiscalização por radares e na implementação dos chips (microprocessadores) nos carros. "Antigamente, era algo inacreditável no Brasil", explica o engenheiro e professor Ricardo Bock, do curso de Engenharia Mecânica Automobilística da FEI (Fundação Educacional Inaciana).
As primeiras palavras
Muitas montadoras estão engajadas nas pesquisas de comunicação interveicular, conhecida em outros países como IVC (Inter-Vehicle Communication). Há alguns anos, engenheiros do Centro de Testes da General Motors em Dudenhofen, na Alemanha, se dedicam ao desenvolvimento do sistema 'V2V' (Vehicle-to-Vehicle), que possibilita a troca de dados entre carros por meio de uma rede sem fio.
O V2V, já testado em protótipos, é composto por um microprocessador, que trabalha em conjunto com um receptor GPS (Sistema de Posicionamento Global) e um módulo wireless LAN (sem fio). Trocando em miúdos, se o carro A, que está alguns metros à frente do B, sofrer um acidente, seu microprocessador enviará a mensagem para o receptor GPS do veículo B, utilizando sinais de rádio-frequência. Mais ou menos como acontece quando celulares que possuem Bluetooth trocam informações entre si. "Não tem segredo. Basicamente, é preciso haver um emissor e um receptor. Acredito que a principal tendência desses sistemas será o uso de redes de curta distância", afirma Eduardo Cabral, coordenador do curso de Engenharia de Controle e Automação do Instituto Mauá de Tecnologia.
Ainda em 2007, os engenheiros da Opel, subsidiária alemã da GM, conseguiram demonstrar os exercícios práticos da aplicação do sistema. Foram simuladas sete situações, com sucesso. Os carros receberam os seguintes alertas: veículo imobilizado à frente, mesmo em outra faixa da estrada; acionamento do pisca-alerta dos carros fora do campo de visão; alerta de colisão à frente; presença de carros nas regiões do ponto-cego durante a mudança de faixa; aproximação dos veículos de emergência; obras na pista e riscos nos cruzamentos perigosos.
As idéias não param por aí. A Nissan, por exemplo, anunciou nesta semana, no Japão, que testará um sistema para alertar motoristas que dirigem na contramão, também utilizando a tecnologia dos celulares e do GPS. Empresas como BMW, Daimler AG, Honda, Volkswagen, Volvo e Toyota também têm projetos avançados na área de comunicação entre automóveis.
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No ano passado, a Audi apresentou em Ingolstadt, na Alemanha, o projeto experimental 'Travolution', desenvolvido em parceria com especialistas de tráfego do país. O investimento foi de 1,2 milhão de euros. A tecnologia é capaz de sincronizar o movimento dos carros com os semáforos, com o objetivo de diminuir a quantidade de paradas e permitir a fluidez do tráfego. Por meio de sensores, os semáforos da cidade enviam mensagens aos carros, informando o tempo restante para a abertura do próximo sinal verde. O veículo, por sua vez, mostra ao motorista qual a velocidade ideal para que ele encontre o semáforo aberto.
A proposta da Audi é instalar os sensores em 96 semáforos da cidade e equipar 22 protótipos nos próximos meses. "A idéia é gerar mobilidade. Mas com certeza é uma tecnologia que exige grandes mudanças na infraestrutura do sistema de tráfego", explica o gerente de Produto da Audi Brasil, Rafael Carmo Clemente.
Um único idioma
Além de mudanças na infraestrutura, a comunicação entre os automóveis precisa passar por um processo de uniformização. É como se carros, estradas, semáforos, pedestres e motociclistas aprendessem um novo idioma."Este é um dos desafios, porque cada país quer implantar o sistema da sua maneira, cada fabricante propõe a sua tecnologia.Uma estrada não pode ter uma linguagem diferente de outra, assim como os carros ", exemplifica o professor da Mauá, Eduardo Cabral.
É por isso que, nos últimos quatro anos, empresas do setor, incluindo montadoras, fornecedores e instituições governamentais, têm se reunido para discutir os principais desafios da comunicação interveicular. Organizações importantes surgiram, como a Car2Car Communication Consortium e a NoW - Network on Wheels, ambas na Alemanha. O 'Network on Wheels', apoiado pelo governo alemão, é um projeto de pesquisa que durou quatro anos (2004-2008) e tem foco na comunicação 'Car-to-X', ou seja, carros que não interagem apenas com outros carros, mas com estradas, utilizando basicamente a tecnologia de rede wireless LAN. Uma das conquistas das organizações foi a aprovação, junto à Comissão Europeia, da frequência 5.9 GHz para uso exclusivo dos sistemas de comunicação.
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Contra os imprudentes
A imprudência no trânsito é tão grande que, mesmo com sinalização adequada, radares de velocidade, semáforos e outras providências, os acidentes continuam acontecendo. Mas é exatamente na falha humana que a tecnologia encontra sua inspiração. "Cada vez mais os sistemas de segurança serão projetados para minimizar a atuação do ser humano sobre o automóvel", afirma o professor Ricardo Bock, da FEI.
Os congestionamentos merecem atenção especial. Nos Estados Unidos, uma pesquisa realizada pela associação norte-americana NHTSA (National Highway Traffic Safety Administration) identificou que cerca de 85% das fatalidades no trânsito, nos Estados Unidos, acontecem em cruzamentos. Em São Paulo, eles são o pano de fundo de pelo menos um terço dos acidentes, segundo o Detran (Departamento Estadual de Trânsito). "Quando não há semáforo, 30% das pessoas simplesmente ignoram o sinal de pare", explica Horácio Figueira, consultor de Trânsito e Transportes, que observou o comportamento de mais de 600 motoristas na capital paulista, no ano passado, para uma pesquisa da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego).
Os engenheiros do Departamento de Pesquisa e Inovação da Ford, em Dearborn, Michigan (EUA), começaram a desenvolver, há dois anos, um tipo de cruzamento inteligente (smart intersection). A idéia é a seguinte: se um carro da outra via estiver em alta velocidade e prestes a ultrapassar o farol vermelho, sinais de GPS captam o perigo e, assim que o computador de bordo recebe esta informação, alertas sonoros e visuais informam o motorista.
No Brasil de Murilo
Mas será mesmo que nosso pequeno personagem, o bebê Murilo, terá a chance de ver seu veículo interagindo com outros carros e estradas? Sim, respondem os especialistas. A tecnologia existe, funciona e é confiável. "Hoje já temos comunicação baseada em GPS e telefonia celular, por isso tecnologia não é o problema. A questão é que a comunicação entre veículos não depende só dos carros", aponta Carlo Gibran, gerente da Bosch. "Há ainda outros desafios, como o direito de privacidade", acrescenta.
O futuro também aponta para veículos autônomos. Atualmente, algumas 'amostras' dessa tendência já são encontradas em modelos de luxo, como Audi A5 e Volvo XC60, que trazem tecnologias como o ACC (Adaptive Cruise Control), pela qual o veículo é capaz de reconhecer o carro da frente e manter uma distância razoável, mesmo que seja necessário frear bruscamente, sem a intervenção do motorista. É possível encontrar pesquisas de veículos autônomos em universidades brasileiras, como a Unisinos (RS) e a FEI (SP).
Mas o 'futuro do futuro' diz que os veículos tomarão decisões ao receberem os avisos de outros carros ou das estradas. Seria a combinação entre os sistemas ‘Car-to-Car’, ‘Car-to-X’ e os automóveis autônomos, o que parece ser uma utopia para as próximas gerações. Na visão dos especialistas, a integração de todas estas tecnologias exigiria completa renovação da frota brasileira e das estradas, além de investimentos altíssimos. É, Murilo, parece que esta, sim, será uma 'prosa' para os automóveis dos seus netinhos.
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