Texto: Rafaela Borges
Fotos: Divulgação
Os fãs do automobilismo, quando assistem as corridas pela TV ou nas arquibancadas, prestam atenção nas disputas, nas ultrapassagens e na competitividade das equipes. Os mais atentos se preocupam em analisar o comportamento dos motores e dos chassis, itens que garantem o bom desempenho dos carros. Os pneus, únicos elos de ligação entre o conjunto homem/máquina e o solo, passam despercebidos. Mas saiba que os modelos desenvolvidos na pistas acabam servindo para os que são vendidos nas lojas.
Além de ser uma grande "vitrine", o automobilismo também é um grande laboratório para o desenvolvimento de produtos. Por isso, o objetivo dos fabricantes nas competições, além da exposição, é trazer para os pneus vendidos nas lojas a tecnologia que desenvolveram para os carros de corrida. "O automobilismo é um laboratório perfeito", afirma Inácio Caltabiano, gerente de marketing de produto da Pirelli do Brasil. "Ele reúne fatores extremos como alta velocidade, pistas sensíveis e pessoas experientes (pilotos), que têm grande autoridade para transmitir as reações", completa.
Assim como o "câmbio borboleta", desenvolvido na Fórmula 1, foi incorporado aos carros de rua, os compostos dos pneus de corrida também podem beneficiar o usuário comum. "Mas incorporamos apenas tecnologias, pois os pneus de competição são muito diferentes dos comuns", aponta Caltabiano. A principal diferença é a duração, uma vez que um carro de corrida - dependendo da categoria - utiliza até três jogos de pneus por corrida, enquanto nos os normais devem percorrer 60 mil quilômetros.
AUTOMOBILISMO NACIONAL
Na Fórmula Truck, cujo fornecedor oficial é a Bridgestone, o sistema é um pouco diferente. "Os pneus utilizados na competição são rigorosamente os mesmos que são usados pelos caminhoneiros, o que torna a categoria um grande campo de teste da tecnologia já aplicada em nosso pneu de carga", conta Raul Viana, gerente de assuntos corporativos da empresa. A fabricante japonesa fornece 140 pneus (modelo R227) por prova da Fórmula Truck, que são submetidos a uma série de análises. A Bridgestone não divulga o seu investimento em dinheiro na F-Truck, mas a Pirelli aplica cerca de R$ 1.500.000 na Stock Car e na Fórmula 3 sul-americana, das quais é fornecedora exclusiva.
"Esses investimentos compreendem desenvolvimento de produtos, fornecimento de pneus às equipes, patrocínios e custos fixos (técnicos especializados, veículos e demais equipamentos)", diz Inácio Caltabiano. A categoria principal da Stock Car utiliza pneus importados da Itália. "Mas nós já desenvolvemos produtos brasileiros eficientes, que hoje estão presentes na Stock Car Light. Se os pilotos aprovarem, no ano que vem esses pneus passarão a equipar todos os carros da categoria", conta Murilo Ferreira, responsável pelo marketing de competições da Pirelli.
Para acompanhar as competições que patrocina, o fabricante italiano mantém uma equipe de apoio que conta com engenheiros da fábrica. Eles estão em constante contato com os pilotos para descobrirem o comportamento dos pneus em condições extremas para depois definirem os compostos das versões "de rua". "A velocidade de resposta nas pistas é muito rápida. Pensamos em um material, aplicamos a um carro de corrida e em uma semana já temos as respostas que precisávamos", conta Kaio Machado, engenheiro da empresa. Segundo Machado, o rali, por suas condições de pistas adversas, é um laboratório mais eficaz do que a Stock e a F-3, embora não traga um bom retorno em publicidade.
Por isso, a Pirelli mantém um carro de pesquisa no campeonato brasileiro de rali conduzido por Sérgio Barata, piloto do fabricante há 24 anos. O navegador é Giovanni Godói, engenheiro da Mitsubishi, empresa que fornece o veículo. "Não estamos preocupados em vencer corridas, temos este carro no campeonato para desenvolver produtos para o consumidor e a transmissão de dados entre nós é essencial neste processo", conta o piloto. Além de Bridgestone e Pirelli, a Michelin também está presente no automobilismo brasileiro: ela fornece exclusivamente pneus para a Fórmula Renault. "A participação está relacionada ao fato de a Renault ser uma parceira mundial da empresa", conta Claude Maurice Fondeville, responsável pela parte de competições da Pirelli.
EXEMPLOS DE TECNOLOGIA
A Uni-T, da Bridgestone, é um exemplo de tecnologia das pistas incorporada aos carros de passeio. "Ela permite a fabricação de pneus de última geração, com componentes totalmente otimizados por computador, e foi desenvolvida a partir da experiência da empresa na Fórmula 1", conta Raul Viana. A empresa utiliza a Uni-T nos modelos da linha Potenza, fabricados no Brasil. Na Pirelli, um dos exemplos mais relevantes é o kevlar, um material de reforço em pneus que nasceu nas pistas e hoje é utilizada em carros comuns. A Michelin acaba de lançar o Pilot Sports 2, pneu próprio para superesportivos como Mercedes SLR McLaren, BMW M5, Audi RS4, Porsche Carrera GT, entre outros.
O Pilot Sports 2 tem um composto de base sílica que permite maior aderência ao piso molhado e bom comportamento em alta velocidade. "Muitas vezes, duas fabricantes em uma categoria é bem melhor do que uma, pois na briga por melhores resultados, que resulta em visibilidade, elas buscam sempre as tecnologias mais avançadas, o que é melhor para o consumidor", conta Raul Viana, da Bridgestone. Na Fórmula 1, a vitória no ano passado ficou com a japonesa Bridgestone. Esse ano, os franceses da Michelin querem o contra ataque. Vencendo ou não, os maiores beneficiários desta briga serão nossos carros.
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