Há bem pouco tempo atrás, o brasileiro que quisesse comprar uma Lamborghini, uma Ferrari ou mesmo um Smart Fortwo tinha apenas uma opção: as importadoras independentes. Elas eram as únicas a oferecer esses e outros modelos importados no País. Agora, a história é outra. Com o crescimento acentuado das vendas de veículos estrangeiros nos últimos dois anos, é cada vez maior o número de representações oficiais. Só do início do ano para cá, várias marcas se instalaram por meio das próprias montadoras ou de grupos de concessionários.
Primeiro foi a britânica Mini, que pertence ao grupo BMW. A fabricante alemã da Bavária passou a vender oficialmente o hatch compacto Cooper One em março. O leque de versões foi ampliado em seguida, com a oferta do esportivo Cooper S, o conversível Cabrio e a configuração perua Clubman. Um mês depois, em abril, foi a vez da arquirrival Mercedes-Benz, também otimista com o bom momento da economia brasileira, lançar o pequenino Smart Fortwo nas versões Coupé e Cabrio.
Com apenas duas lojas em São Paulo, o minúsculo subcompacto de dois lugares equipado com um motorzinho 1.0 turbo de três cilindros e 84 cv surpreendeu. Em seis meses, o Fortwo somou mais de 700 emplacamentos – a média mensal foi superior a 100 unidades. Os preços são de R$ R$ 57.900 para a versão Coupé e de R$ 64.900 na carroceria conversível Cabrio, cifras bem menores que os mais de R$ 100 mil pedidos no modelo antes da chegada oficial da Smart por aqui.
Mesmo a Fiat, acostumada a trabalhar com compactos nacionais populares, se animou. Em setembro, a montadora italiana lançou no país o subcompacto 500, importado da Polônia e chamado pelos europeus de Cinquecento – pronuncia-se ‘Tchinqüe Tchento’. Com quatro lugares e o bloco 1.4 litro 16V a gasolina de 100 cv, o carrinho retrô é também um dos importados atuais com preço mais acessível: parte de R$ 62.870 e chega a R$ 68.970 na versão topo Lounge equipada com o câmbio automatizado Dualogic.
“O Cinquecento é um ícone da Fiat, um carro de nicho. Por essa razão, decidimos trazer algumas unidades para os consumidores brasileiros que querem um carro diferenciado. O câmbio hoje nos ajuda a fazer isso. E como não é um carro de volume, as duzentas unidades mensais previstas são suficientes”, pontua Lélio Ramos, diretor Comercial da Fiat do Brasil. “Grande parte desses modelos importados são de nicho. Não se justifica uma produção local. E o volume deixa de ser uma consideração. Muitas vezes, é a própria imagem da marca que está em jogo. O importador pode ser uma empresa de grande porte, que produz diversos veículos no país e resolve trazer uma de suas marcas ou modelos estrangeiros como ícone, para marcar presença”, raciocina o consultor Arnaldo Pellizzaro, da ABIConsult.
Marcas de alto luxo cada vez mais presentes
É no topo da pirâmide, porém, que a ‘briga’ está mais acalorada. Há poucos dias, a Via Itália, representante oficial de Ferrari e Maserati, inaugurou a primeira revenda oficial da italiana Lamborghini no Brasil. A loja, localizada no bairro dos Jardins, na capital paulista, já exibe na vitrine o superesportivo de luxo Gallardo LP 560-4 nas carrocerias cupê e conversível Spyder. O modelo tem tração integral – daí o numeral 4 – e sob o capô há um poderoso motor 5.2 litros V8 aspirado de 560 cv de potência – a ‘cavalaria’ também está no nome do bólido. O cupê custa R$ 1,5 milhão e o cabriolet sai por R$ 1,7 milhão.
Para os endinheirados que buscam ainda mais exclusividade, a loja oferece também a edição especial LP 550-2 Valentino Balboni, feita em homenagem ao famoso piloto de testes da montadora. O exemplar tem tração traseira, 10 cv a menos que o Gallardo ‘normal’, é 30 quilos mais leve (1.380 kg) e arranca de zero a 100 em 3,9 segundos. A máxima é de 320 km/h.
“Nosso mercado sofreu uma evolução. Além de haver um crescimento das vendas de carros em geral, no segmento de veículos de alto luxo há uma tendência de crescimento somada à situação mundial. Muitos países que antes eram bons clientes deixarem de ser, porque suas economias estão estagnadas. E a Lamborghini percebeu esse bom momento para se instalar no Brasil”, resume Jaroslav Sussland, diretor de relações internacionais da Lamborghini São Paulo.
A Platinuss, que representa a italiana Pagani e negocia a representação oficial da britânica Lotus, anunciou há algumas semanas outra novidade que mistura pimenta e luxo. O grupo Bertin, dono da revenda, apresentou oficialmente dois modelos da holandesa Spyker: o cupê C8 Laviolette e o conversível C8 Spyder. O primeiro, com o teto rígido e repleto de itens opcionais, é oferecido por R$ 1,24 milhão. Já o cabriolet custa R$ 1,15 milhão, preço que sobe para R$ 1,3 milhão com equipamentos pagos à parte. Os dois modelos usam o mesmo propulsor, um 4.2 litros V8 de 405 cv. “O plano agora é consolidar a Spyker. Ambientamos o show room de uma forma impressionante”, completa Hideki Oshiro, diretor da Platinuss.
Próximo ano terá ainda mais lançamentos
Para o primeiro trimestre de 2010, a Platinuss prepara mais um lançamento: a importadora vai trazer modelos da Caterham, construtora inglesa de roadsters clássicos, com dois lugares, capô longo e sem portas e teto. Cinco versões do carrinho que parece um kart serão oferecidas na loja do grupo em São Paulo. Uma delas provavelmente será a Superlight R300, equipada com um propulsor 2.0 de 177 cv e vendida no Reino Unido por £ 24.995 (R$ 72 mil). A Platinuss ainda deve trazer outro modelo para 2010. A empresa não revela, mas especula-se que o supercarro em questão seja o Bugatti Veyron.
O ano de 2009 ainda reserva mais outra estreia de gala. A Bentley, montadora britânica de carros de altíssimo luxo, controlada pela Volkswagen, vai abrir sua primeira revenda oficial em terras brasileiras. Enquanto a inauguração não acontece, a Sky Motors, importadora independente sediada no Rio de Janeiro, oferece uma unidade do sedã superesportivo Continental Flying Spur Speed, produzido pela marca inglesa. O exemplar custa negociáveis R$ 1,78 milhão e vem equipado com um motor biturbo de 6.0 litros e 12 cilindros em duplo “V” capaz de entregar 600 cv de potência máxima.
“Esse mercado é um pouco diferente. O poder aquisitivo dos consumidores é bastante elevado. Eu trago poucas unidades, não faço grande volume. Importo entre seis e 10 carros por ano, no máximo. E não vou disputar jamais com marcas que têm bandeira aqui. Esse Bentley Flying Spur Speed, por exemplo, é o único à venda no Brasil no momento. É um modelo muito exclusivo e extremamente possante”, aponta Guy Monteiro, diretor da Sky Motors.
O valor da representação e da tropicalização
Com as vendas em alta no País, as projeções de importadoras e montadoras para o último trimestre e para o próximo ano são as melhores possíveis. A recém-aberta Lamborghini, por exemplo, acredita que irá vender 12 unidades do Gallardo até dezembro. Em 2010, a previsão é de 20 unidades do superesportivo de R$ 1,5 milhão, fora os emplacamentos do Murciélago, que chega no segundo semestre. Mas por trás das vendas, as empresas correm para estabelecer raízes cada vez mais profundas no País. Com a representação oficial de determinadas marcas, a pressão por oferecer segurança cresce.
“A Via Italia se interessou ao saber que a Lamborghini estava à procura de uma representação oficial. Os importadores independentes compravam os carros de concessionárias. Acontece que esses veículos que entraram no Brasil, sobretudo nos últimos dois anos, são modelos preparados para rodar nos EUA e na Europa, onde o combustível é diferente. Então, desde o ano passado estávamos nessa empreitada. E a marca vem trabalhando para adaptar os veículos para rodar no país”, explica Jaroslav Sussland, diretor de relações internacionais da Lamborghini São Paulo.
A ‘tropicalização’, termo que a indústria usa para se referir a essa adaptação, é complexa. É preciso mexer no motor, nos sistemas de admissão e escape, trocar componentes, principalmente as peças plásticas e borrachas. Como a gasolina brasileira tem entre 20% e 25% de álcool na composição, o contato com o combustível vegetal pode corroer alguns componentes. Há ainda os ajustes no conjunto de suspensão para que esses supercarros possam rodar pelas ruas esburacadas das grandes cidades do país. Quer dizer, trata-se de um processo lento, que leva alguns meses em média. E os representantes oficiais apostam nesse ‘diferencial’ para garantir emplacamentos maiores.
“A tropicalização faz parte de todo esse conjunto de valores que o comprador leva em consideração. Ele assume que por ser representado pelo próprio fabricante, aquele modelo estará adaptado para rodar por aqui, para usar nosso combustível, para trafegar por nossas ruas e estradas”, explica o consultor especializado Arnaldo Pellizzaro, da ABIConsult. “A chegada de uma Lamborghini estimula a compra. As pessoas esclarecidas sabem que ao comprar um carro de um importador independente há um risco. A garantia não é a mesma. Se quebrar o carro, lógico que vão consertar. Mas a garantia original de fábrica é dada no primeiro endereço onde se fatura um veículo”, justifica Sussland, diretor da Lamborghini São Paulo.
“Essa onda de importação de modelos pelas próprias marcas é negativo para as importadoras. Quando se fala em importação oficial, as pessoas geralmente associam segurança de assistência técnica e continuidade. Mas a Platinuss oferece a mesma garantia de dois anos nos veículos. Então, os clientes vão continuar comprando conosco independentemente da exclusividade. O carro é o mesmo e a garantia também. A principal razão para um cliente vir comprar um carro desse perfil é saber que a loja é segura. E que há um grupo muito sólido por trás do negócio”, defende Hideki Oshiro, diretor da Platinuss.
O fato é que, com ou sem representação oficial, os negócios devem seguir em evolução. E os modelos, desde os mais básicos até os extremamente exclusivos, não vão parar de chegar. Desde o ano passado, por exemplo, a Audi comercializa por aqui o superesportivo R8, que fez sua premiére nas telonas do cinema, no ‘blockbuster’ hollywoodiano “O Homem de Ferro”. A Mercedes-Benz deve trazer até o fim do ano o recém-lançado SLS ‘asa de gaivota’, que substitui o SLR McLaren. Já a Ferrari terá muito em breve unidades do 458 Itália, além do Califórnia, primeiro cupê-conversível com teto rígido retrátil da marca italiana. Uma abertura de mercado nunca vista antes no Brasil.