“Fim do IPI reduzido”. Esse é o mote que as montadoras e revendedores de veículos utilizarão massivamente nos próximos dias para convencer o consumidor brasileiro de que esse é “o momento” para comprar um carro novo. Só que, diferentemente de meses atrás, quando não se sabia se o desconto na tarifa seria prorrogado ou não, desta vez o anúncio é para valer. No dia 1º de outubro, o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) volta a se normalizar gradativamente até alcançar os 7% de incidência originais, em janeiro de 2010. Por isso, fabricantes e revendas correm para negociar o máximo possível de modelos zero quilômetro. Por uma razão bem simples: ninguém sabe o que acontecerá após o retorno da alíquota.
Os executivos do setor, porém, sabem que a redução do IPI foi o principal fomentador, até aqui, para o recorde momentâneo nas vendas de carros no País em 2009. Há confiança de que o mercado mantenha os números no “azul”. “Agora com a confirmação do fim da redução no IPI, acredito que as pessoas vão querer aproveitar o momento para comprar seu carro. E mesmo com o retorno gradativo da alíquota, 2009 será um ano muito bom. Deve haver uma acomodação nas vendas a partir de outubro, mas a economia brasileira está funcionando bem e os níveis de crédito, com taxas de juros decrescentes, deve manter o mercado aquecido”, acredita Sérgio Reze, presidente da Fenabrave – Federação Nacional dos Revendedores de Veículos Automotores.
Independentemente da redução no IPI, porém, a ordem nos últimos dias de setembro é zerar os estoques. Para o consumidor, um momento incomum, de grande oportunidade. Isso porque, além do abatimento ainda vigente no imposto, que chega a ser integral nos modelos 1.0 litro, as fábricas estão oferecendo descontos “gordos”. Especialmente para os que possuem dinheiro em caixa. É possível barganhar descontos entre 10% e 15% nas concessionárias.
A Peugeot, por exemplo, baixou significativamente os preços de sua gama. A versão de entrada Presence 1.6 Flex da linha de médios 307, que custava R$ 52.500 nas carrocerias hatch e sedã, é oferecida por R$ 49.900 – são R$ 2.600 a menos. Outro modelo da marca francesa com preço promocional é o sedã compacto 207 Passion. A versão básica XR 1.4 Flex, antes vendida por R$ 38.490, sai das revendas nos próximos dias por R$ 36.990 – desconto de R$ 1.500.
Mas o carro-chefe da Peugeot é o veterano 206, equipado com o motor 1.4 Flex de 82 cv de potência com álcool. O hatch pequeno fabricado em Porto Real, no interior do Rio de Janeiro, está R$ 1 mil mais em conta, por R$ 24.990 na carroceria duas portas. Será o segundo feirão de fábrica da montadora no ano. “Tínhamos um certo receio com feirões. Havia a preocupação de como a ação impactaria na imagem da marca. Mas bolamos soluções como serviço de manobrista e cadeiras mais confortáveis para os clientes”, aponta Stephane Majka, gerente nacional de Vendas da Peugeot.
A Nissan, única japonesa a aderir às mega promoções de fim do IPI reduzido, também vai jogar pesado no varejo nos próximos dias. Os modelos Livina, Tiida e Sentra estarão entre 4% e 8% mais baratos. O desconto maior será para a minivan compacta, que custava R$ 46.690 e pode ser adquirida nos próximos dias por R$ 42.990 – corte de quase R$ 4 mil. No caso da Nissan, porém, a ideia é aproveitar as promoções para elevar o volume de emplacamentos. Os mexicanos Sentra e Tiida obtiveram médias mensais tímidas nos últimos três meses, de 190 e 122 unidades, respectivamente. Já o Livina, pimeiro carro de passeio nacional da marca, ainda não embalou nas vendas e mantém média inferior a 600 unidades/mês.
Já no caso das “quatro grandes”, Fiat, General Motors, Ford e Volkswagen, os feirões em 2009 estão cada vez mais comuns. De tão corriqueiros, alguns modelos já mantém os preços promocionais, mesmo fora das grandes ações de vendas. Na Volks, os compactos SpaceFox e CrossFox já são oferecidos há meses por valores menores que os anteriores ao desconto no IPI. A perua está à venda por R$ 42.500 e o hatch com traje aventureiro custa R$ R$ 41.530. Antes, os preços eram de R$ 46 mil para ambos. Na Fiat, acontece o mesmo. A Palio Weekend, por exemplo, está com bônus de R$ 1 mil na versão mais simples ELX 1.4 Flex. Custa pouco abaixo de R$ 40 mil.
Recentemente, a Ford também baixou os preços dos compactos Ka e Fiesta em cerca de R$ 1 mil. O Fiesta, que hoje é anunciado por R$ 29.200, era vendido por R$ 31.765 antes do desconto na alíquota. “A redução do IPI comprovou mais uma vez que a redução da carga tributária favorece as vendas, sem prejuízo da arrecadação, já que a soma dos outros tributos arrecadados nesse período, como o PIS/Cofins e o ICMS, mais que compensou a redução do IPI”, argumenta Lélio Ramos, diretor comercial da Fiat Automóveis do Brasil.
E além do IPI reduzido, algumas montadoras ainda lançaram no mercado nas últimas semanas versões mais básicas de alguns modelos. A Toyota, por exemplo, criou uma nova configuração intermediária para o sedã médio Corolla, a Gli, disponível por R$ 65.240, com câmbio manual e lista de itens de série bem completa. Já a Fiat acaba de lançar uma versão da pick-up Strada voltada ao trabalho, a Strada Working, oferecida a partir de R$ 30.980. Até entre os modelos topo de linha há descontos extremamente convidativos. O Ford EcoSport "top" 2.0 XLT Flex automático é anunciado por até R$ 54.900, valor muito abaixo dos R$ 62.630 pedidos na tabela.
A favor das vendas conta ainda o cenário estável da economia brasileira. Com as ações do Governo Federal, que disponibilizou R$ 8 bilhões aos bancos em meio à crise financeira, no fim de 2008, o crédito retornou aos poucos. Atualmente, as financeiras já oferecem praticamente as mesmas condições do período pré-crise. Há financiamentos com zero de entrada e até 72 meses de prazo para quitar a dívida. E as taxas de juros caíram no período. A média mensal hoje é inferior a 1,5%. “A ideia era com a redução do IPI era contornar a crise. Era uma medida de curto prazo, de oportunidade. E deu certo. As pessoas foram estimuladas a comprar o automóvel. E mesmo agora, com o fim oficial do desconto na alíquota, o cenário deve se manter favorável. É um setor que depende muito do crédito e, com a retomada dos financiamentos, as vendas seguirão relativamente aquecidas. A confiança do consumidor voltou a crescer”, aposta Rogério César Souza, economista do IEDI – Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial. Quer dizer, com o cenário favorável, o melhor mesmo é ser otimista. E aproveitar o momento para vender o quanto der.