Já imaginou consultar a tabela de preços de um determinado veículo e verificar, mais tarde, que o mesmo modelo está custando R$ 10 mil a mais que o valor determinado pela marca? Pois é justamente isso o que está acontecendo com os consumidores interessados em comprar um automóvel Honda zero-quilômetro na cidade de São Paulo.
Dependendo do modelo, a diferença de preço varia, inclusive, pela cor. Um exemplo é o recém-lançado Civic Si. O sedã esportivo tem preço sugerido de R$ 99.500, mas para retirar o veículo das concessionárias Honda de São Paulo o cliente terá que desembolsar, em média, R$ 107 mil. A maioria das autorizadas tem o carro na cor vermelha à pronta entrega, mas aqueles que fizerem questão da tonalidade preta terão que enfrentar uma fila de espera que pode passar de um mês. E, além de esperar, dependendo da loja, o consumidor terá que pagar a mais pela sua preferência: em uma concessionária da zona sul da cidade, por exemplo, o Civic Si preto custa R$ 110 mil, enquanto o mesmo carro em vermelho é comercializado por R$ 106 mil. Isto é: com a pintura preta, o valor do veículo que chega ao consumidor é R$ 10.500 superior que o sugerido pela Honda.
Ainda entre as novidades da marca japonesa, a terceira geração do CR-V também apresenta grandes diferenças no valor final. Com o preço sugerido de R$ 123 mil, o utilitário esportivo (que teve sua apresentação técnica à imprensa realizada ontem, 19) é vendido por até R$ 133 mil. Conforme o gerente de Serviços e Pós-Vendas da Honda no Brasil, Alexandre Cury, mencionou ontem, o primeiro lote de 130 unidades do CR-V já foi todo vendido e a segunda leva do modelo está chegando às autorizadas da marca. Enquanto isso não acontece, os concessionários não hesitam em dizer: "CR-V novo só em meados de abril".
E o New Civic não fica atrás de seus "parentes", apesar de ser comercializado há quase um ano. As diferenças de preço são maiores nos modelos Flex com transmissão automática. Nessa configuração, pela sugestão da Honda, o veículo deveria custar R$ 69.410, mas ele chega às vitrines por até R$ 75 mil. Dependendo da concessionária, equipamentos e cor do veículo, a fila de espera para o Civic Flex automático chega a três meses. No modelo de entrada, com motor a gasolina e câmbio mecânico, o consumidor enfrenta a espera de até 30 dias. O ágio sobre esta configuração é menor, girando em torno de R$ 3 mil. O Civic de entrada tem preço sugerido de R$ 62.800.
O gerente de Vendas da Honda Automóveis no Brasil, Marcos Martins, reconhece que o ágio sobre os carros da marca ocorre e que é prejudicial para a imagem da marca, que acaba divulgando um preço que não é praticado. "Apesar de não poder coibir essa ação, a Honda tem sua parcela de culpa por possuir uma política conservadora com seus produtos importados. Isso engloba o CR-V, por exemplo. Neste modelo, que é produzido no Japão, os pedidos de lote têm que ser feitos com seis meses de antecedência. Esse intervalo pode fazer com que a resposta do mercado seja completamente diferente da esperada pela Honda", explica Martins.
O executivo afirma ainda que a marca está tentando mudar sua postura no mercado nacional, solicitando mais veículos estrangeiros e aumentando sua capacidade de produção. O gerente conta que o volume de CR-V solicitado para este ano é maior que o dobro de veículos vendidos em 2006. "Porém, o sucesso dos veículos da Honda — especialmente os nacionais — tem sido maior que o estoque das concessionárias, o que gera filas de espera. Isso acontece com outras marcas, mas como a Honda já colocou dois novos modelos no mercado em 2007, acaba ficando em evidência", continua Martins.
Entretanto, ele admite também que a produção nacional da marca não está atendendo a procura do mercado na maioria dos produtos da Honda, pois o Fit também tem fila de espera, dependendo da configuração do carro. "Esse ágio sobre os veículos mais procurados acaba distorcendo os preços dos automóveis. A montadora, por sua vez, está aumentando sua capacidade de produção no Brasil. No ano passado, nossa linha despachava 315 unidades por dia. No início de 2007, esse número subiu para 360 e, em julho, pretendemos expandir a produção para 525 veículos diários. Para dar esse salto, a Honda está investindo cerca de US$ 100 milhões na aquisição de novas máquinas e robôs".
Procurada, a Associação Brasileira dos Distribuidores Honda de Veículos Automotores (Autohonda) não retornou às ligações.