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 Mercado

 Exportações são problema para a indústria automobilística18/05/2006 

Texto: Rafaela Borges
Fotos: Divulgação

Há quatro anos, uma grande euforia tomou conta da indústria automobilística nacional motivada pelas exportações. As vendas externas seriam a alternativa para a ociosidade da capacidade produtiva das montadoras, que hoje é cerca de 30%. Na época em que os contratos foram fechados, as empresas trabalharam com taxa de dólar superior a R$ 3. Entretanto, em janeiro do ano passado a situação mudou, e a moeda brasileira começou a valorizar diante da norte-americana.

Desde então, o dólar continuou sua trajetória de desvalorização, índice que chegou a 21% em abril último. Hoje, a moeda é cotada a pouco mais de R$ 2,10. “E ainda não chegou a seu limite de equilíbrio”, diz Rogelio Golfarb, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). O Real forte, já no ano passado, começou a gerar prejuízo para as exportações da indústria automobilística. As montadoras, entretanto, tinham contratos para cumprir, o que acabou gerando recorde de vendas externas: 817.575 unidades, 25% a mais do que em 2004.

Entretanto, desde o ano passado, a Anfavea já alertava para o impacto do dólar desvalorizado nas exportações. E, no início deste mês, a situação explodiu: a Volkswagen anunciou que vai demitir milhares de funcionários no Brasil – segundo os sindicatos de trabalhadores, cerca de 6 mil. Além disso, existe a possibilidade de fechamento de uma das quatro fábricas de automóveis da montadora. Esta semana, foi a vez de a General Motors anunciar cortes de 960 postos de trabalho em sua unidade industrial de São José dos Campos (SP).

As demissões são resultado, principalmente, de um problema comum: a queda no volume de exportações. Com o Real valorizado, os carros brasileiros ficaram mais caros, o que levou as montadoras locais a perderem contratos. A GM, por exemplo, deixará de produzir 12 mil unidades da minivan Meriva que até o ano passado eram destinadas ao México. A empresa exportará este ano 163 mil modelos, ante 208 mil embarcadas em 2005, queda de 22%. A nova projeção foi divulgada pelo presidente da GM do Brasil, Ray Young.

Barry Engle
Na Volkswagen o problema é maior; as exportações vão cair 23%, chegando a 197 mil unidades no final de 2006. A empresa é a principal exportadora de automóveis no Brasil. Em sua produção total, as vendas externas representam 42%, ante 33% da indústria. Segundo Hans-Christian Maergner, presidente da VW do Brasil, as projeções para embarques do compacto Fox, uma das maiores apostas da montadora na Europa, também foram revistas. No ano passado, a empresa comercializou 82 mil modelos no exterior, e a expectativa para este ano era 112 mil unidades. Entretanto, o número deve ficar em 69 mil Fox.

Rogelio Golfarb
Segundo fontes ligadas a fornecedores da VW, o Real valorizado inviabiliza a redução de preços do Fox na Europa. Ele acaba, portanto, perdendo mercado para o Polo, também da Volks, que traz valor semelhante, mas traz mais equipamentos e espaço. Na Fiat, as exportações também vão cair de 98 mil unidades em 2005 para 70 mil ou 80 mil em 2006. “Isso acontecerá se o dólar subir, chegando ao patamar de R$ 2,20 ou R$ 2,30, como apontam algumas pesquisas”, diz Cledorvino Belini, diretor-superintendente da montadora italiana. Para Rogelio Golfarb, porém, são pequenas as possibilidades de valorização da moeda norte-americana. Barry Engle, presidente da Ford, também afirma que as vendas externas da marca devem sofrer queda de 5% a 15%.

Os presidentes das montadoras divulgaram suas novas projeções para exportações no seminário “Revisão das Perspectivas 2006”, promovido pela editora AutoData. Segundo Ray Young, da GM, as exportações da indústria automobilística cairão de 250 mil a 300 mil unidades nos próximos anos. “Para que o número não afete nossa produção, o mercado doméstico teria de absorver este excedente, acumulando vendas de 2 milhões de unidades por ano”, afirma o executivo. Tanto os fabricantes de veículos como a Anfavea projetam, no fechamento de 2006, comercialização de 1,8 milhão de modelos.

Hans-Christian Maergner
Se houver queda na produção, a indústria terá um novo problema; a ociosidade nas fábricas de veículos já é grande, e pode cair ainda mais. Este ano, a Anfavea projeta fabricação de 2,5 milhões de modelos no Brasil. “Se mantivermos este número em 2010, ficaremos fora do jogo global”, afirma Cledorvino Belini, da Fiat. “O ideal seria produção de 4 milhões de unidades no bloco Mercosul (Brasil e Argentina) no final da década”, diz o executivo. A China, um dos mercados em maior ascensão no mundo, deve fabricar, em 2010, 10 milhões de veículos, o dobro de sua capacidade atual.

Paul Liu, presidente-executivo da Câmara de Comércio Brasil-China, estima que metade dos 10 milhões de veículos será destinada à exportação, especialmente para países emergentes. E a América Latina é um dos principais alvos. Diante desse quadro, as montadoras começam a estudar possibilidades para aumentar a produção nacional. É consenso que o mercado doméstico deve ser fortalecido. “O PIB (Produto Interno Bruto) precisa crescer entre 7% e 8%, e é necessário o choque no sistema tributário, o que aumentaria o poder de consumo dos brasileiros”, afirma Belini.

Ray Young
Para Ray Young, o mercado interno está aquém da expectativa da indústria. “Precisamos crescer 5% ao ano nos próximos cinco anos”, afirma o executivo. Hans-Christian Maergner, da Volkswagen, pretende promover grande ofensiva nas vendas domésticas, e projeta, ainda em 2006, crescimento de 15% para a montadora alemã, ante cerca de 8% para o mercado. Mesmo assim, aponta dificuldades como impostos e taxas de juros altos, além de custos com transporte no Brasil. A redução da carga tributária, todavia, parece improvável. Pelo menos, em curto prazo. “O governo já deixou isso bem claro”, diz Rogelio Golfarb. Todavia o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que divulgará essa semana um pacote de medidas para conter a flutuação do câmbio.

Os presidentes das quatro maiores montadoras do Brasil pedem um melhor programa de financiamento junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e agilidade na devolução dos créditos de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), resultantes das exportações. As duas últimas medidas são estudadas pelo governo.

Cledorvino Belini
Segundo Rogelio Golfarb, outra questão importante para a indústria é a resolução do acordo de livre comércio com a Argentina. “É a prioridade da Anfavea, já que vai fortalecer o Mercosul”, afirma. No momento, de acordo com o executivo, o país vizinho tem, diante do Brasil, taxa de câmbio favorável – cerca de 25% - às exportações. Para Ray Young, a atual situação da indústria, marcada por queda nas exportações, pode funcionar como um aviso ao governo. “O Real valorizado mostra que, no futuro, devemos agir de outra maneira. Afinal, nossos concorrentes estão aí, e são muitos: China, Leste Europeu, Índia, só para citar alguns”.


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