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 Sedãs médios são a nova aposta da indústria30/03/2006 

Texto: Rafaela Borges
Fotos: Divulgação

Abandonados pela maior parte das montadoras desde a segunda metade da década passada, os sedãs médios voltam a receber atenção especial. Além do Renault Mégane, cujas vendas começaram no início de março, estão previstos mais cinco lançamentos até o final do ano. Assim, o segmento será a maior aposta dos fabricantes de veículos em 2006. Apesar disso, este representa pouco mais de 8,5% do mercado total, e não deverá ultrapassar 10% no fechamento do ano, informam analistas da indústria automobilística.

Na primeira metade desta década, o segmento foi dominado pelas japonesas Honda e Toyota, com Civic e Corolla. As versões sedã de modelos como Chevrolet Astra, Ford Focus não conseguiam agregar o status que o consumidor da categoria procura. Por isso, o a enxurrada de lançamentos que acontece este ano, – e começou no final de 2005, com o Chevrolet Vectra – representa o retorno aos investimentos em modelos com boa tecnologia e valor agregado.

O Renault Mégane, por exemplo, vem de série com itens de segurança como freios ABS, airbags, direção hidráulica e ar-condicionado. O exemplo será seguido pela nova geração do Honda Civic, que chega em maio. A versão nacional do modelo, produzida em Sumaré (SP), segue as diretrizes de seu equivalente norte-americano, lançado no final do ano passado. “As montadoras voltaram a investir nos sedãs médios para suprir um nicho que estava sem grandes representantes desde 2001”, explica Vítor Meizikas, consultor de mercado da agência Molicar.

Na década passada, os fabricantes nacionais importavam veículos grandes e os comercializavam por aqui. Mas em 2001, com a alta do dólar,- que chegou a valor superior a R$ 3 - o perfil do importador mudou. “As marcas começaram a trabalhar com versões topo de linha de veículos importados, que hoje custam, no mínimo, R$ 150 mil”, diz o consultor. Segundo Antonio Megale, diretor de marketing da Renault, foi justamente mais ou menos nesta época que a montadora iniciou o processo de desenvolvimento do Mégane nacional.

“Não foi do dia para a noite”, afirma Megale. “Percebemos a necessidade de veículos que fizessem o papel dos grandes, que praticamente desapareceram do Brasil”. Outro fator que contribuiu para o investimento nos sedãs médios é a margem de lucro obtida pelas montadoras nesse segmento, bem superior à dos compactos, que têm preços mais baixos. Assim, os fabricantes aproveitam o contexto favorável para alavancar a categoria. Ao final do ano, haverá opção para todos os gostos e bolsos variados.

Depois de Mégane e Vectra, chegarão ao mercado o novo Honda Civic, além do Citroën C4 e Peugeot 307 Sedan, os dois últimos importados da Argentina. Do México, vêm o Ford Fusion e o Volkswagen Jetta. Como os modelos mexicanos não pagam impostos para entrar no Brasil, as duas montadoras poderão competir com as versões topo do Chevrolet Vectra e o Honda Civic, cujos preços partem de R$ 80 mil, podendo ultrapassar os R$ 90 mil, dependendo dos opcionais. Os sedãs médios que serão lançados em 2006 têm preço de, no mínimo, R$ 53 mil, caso do Renault Mégane com motor 1.6. É um valor alto para o padrão do consumidor nacional, e por isso as montadoras acreditam que boa parte das vendas será feita por financiamento.

“Estimamos que 40% dos modelos Jetta (que chega no segundo semestre) serão financiados”, diz Marcelo Olival, gerente de propaganda e marketing da Volkswagen. Na Renault, com o Mégane, 45% das 12 mil unidades projetadas para 2006 devem ser obtidas por meio de financiamento. O segmento conta com clientes que exigem grande valor agregado ao veículo. “Formado principalmente por executivos, o público alvo quer conforto e tecnologia”, diz Vitor Meizikas. Além disso, as montadoras têm também mais um desafio pela frente: a fidelidade do consumidor à marca.

O engenheiro Carlos Alberto Martins, de 58 anos, acaba de adquirir um Toyota Corolla 1.6 novo. “Eu já tinha um Corolla 1999”, diz. Ele está antenado na enxurrada de lançamentos do segmento, mas afirma que o fato não afeta sua opção. “Gosto da garantia de três anos oferecida pela Toyota. Não estou interessado nas outras novidades do mercado”, afirma. Antonio Megale, da Renault, está ciente de que a fidelidade à marca é muito forte no Brasil. Por isso, não pleiteia para o Mégane e a liderança. “O segmento não deve crescer muito este ano, e por isso teremos que tirar clientes de outras montadoras. A projeção de vendas (que daria ao carro, no máximo, o 4º lugar na categoria) é realista”, afirma.

Harry Krieger
Mas para Vitor Meizikas, a fidelidade só existe até o momento que o consumidor não tem melhores opções. “Honda e Toyota conquistaram clientes por oferecer uma série de tecnologias”, diz. “Mas as duas montadoras terão de se renovar, pois já começam a perder clientes para o Vectra”. Lançado em outubro último, hoje o sedã da Chevrolet é líder do segmento. Proprietário de um Focus Sedan, o procurador aposentado Harry Krieger, 69 anos, vai adquirir um Vectra Elegance, versão de entrada do modelo. Seu filho, o advogado Fabiano, responsável pela escolha dos carros do pai, sintetiza a opção. “Queremos um sedã de nível mais elevado, e o da Chevrolet é muito mais carro do que o Focus”, afirma.

Os Krieger não querem esperar a chegada do Fusion, da Ford, e não são fãs dos carros japoneses. Eles consideram o Vectra a melhor opção no momento. Influenciando ou não o consumidor, a enxurrada de novos sedãs médios só trará benefícios ao mesmo. “Os lançamentos resultarão em preço e qualidade, e as montadoras utilizarão estratégias como promoções e facilidades na compra do carro”, afirma Meizikas. “Vencerá a guerra quem tiver o departamento de pós-venda mais estruturado e conseguir criar uma identidade do consumidor com a marca”.


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