Embarque do VW Fox para exportação
O ano de 2005 ficará marcado como período de grandes perdas para a indústria automobilística global, especialmente para as duas principais gigantes norte-americanas. No terceiro trimestre deste ano, a operação de automóveis da Ford Motor Company registrou prejuízo de US$ 284 milhões. Enquanto isso, a General Motors, maior grupo automobilístico do mundo, perdeu US$ 1,6 bilhão de julho a setembro. As perdas acumuladas da montadora em 2005 já chegam a US$ 3,8 bilhões.
Enquanto amargam prejuízo, gerado em grande parte pelo pagamento de planos de saúde para seus funcionários e ex-funcionários, além do aumento do custo de produção, as empresas vêm suas subsidiárias brasileiras seguirem tendências diferentes. Apesar dos problemas como valores altos dos tributos e da taxa de juros, nossa indústria automobilística cresce e encerra um ano marcado por recordes de produção, vendas internas e, principalmente exportação. Algumas montadoras, depois de uma difícil primeira metade da década, já voltam a registrar lucros.
Linha de montagem Ford Camaçari
Entre as chamadas "quatro grandes", - grupo formado por Fiat, GM, Volkswagen e Ford – as montadoras que estão aqui instaladas há mais tempo e ocupam as primeiras posições no ranking de vendas, duas fecharão o ano de 2005 com lucro. As operações da Ford na América do Sul – bloco no qual o Brasil responde por 70% das vendas – registrou US$ 96 milhões positivos durante o terceiro trimestre, ante lucro de US$ 59 milhões em igual período do ano passado. O faturamento, por sua vez, alcançou US$ 1,2 bilhão.
Don Leclair
Os números registrados pela Ford América do Sul fazem desta operação a mais rentável de todo o grupo Ford Motor Company. Nos Estados Unidos e Europa, por exemplo, a montadora amargou grande prejuízo. Parte deste resultado positivo é fruto do sucesso obtido pelos produtos fabricados em Camaçari (Bahia), EcoSport e Fiesta. Além disso, a empresa não tem pretensão de liderar o mercado, – é quarta colocada, com cerca de 12,5% de participação – e por isso atua pouco no segmento de carros populares, aquele que impulsiona as vendas, mas permite menor margem de lucro.
Segundo Don Leclair, diretor-executivo financeiro da Ford Motor Company, as exportações também contribuem para o bom resultado da subsidiária sul-americana. Embora venha prejudicando as operações de muitas montadoras que atuam por aqui, o real valorizado, que gera prejuízo nas vendas externas, não afetou a Ford do Brasil. Situação diferente ocorre na GM: "não fosse pelos prejuízos gerados com as exportações, poderíamos obter lucro este ano", afirma Marcos Munhoz, diretor de Marketing e Vendas da filial brasileira do grupo.
Marcos Munhoz
Segundo o executivo, no ano que vem, os embarques vão cair, já que a GM do Brasil perdeu competitividade e não renovou contratos. A subsidiária brasileira faz parte do bloco LAAM (América Latina, Oriente Médio e África), que obteve, no terceiro trimestre, resultado positivo em US$ 25 milhões. "Representamos 70% dos negócios do LAAM. Além disso, somos fornecedores de veículos e engenharia para estes países. Por isso, o Brasil é a máquina do bloco", diz Munhoz. Entretanto, a GM do Brasil ainda fechará 2005 no vermelho, embora tenha resultado melhor do que as operações nos Estados Unidos e Europa.
Rogelio Golfarb
Hoje, a GMB representa apenas 3% do faturamento global da empresa, mas tem uma importância estratégica bem maior. "Fomos escolhidos como um dos cinco centros de engenharia da corporação, porque temos engenheiros capazes de fazer carros para o mundo", afirma Munhoz. Além disso, o Brasil é conhecido pelo desenvolvimento de engenharia de baixo custo. O presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Rogelio Golfarb, compartilha da idéia. "Nosso engenheiro já nasce com a idéia de redução de custos na cabeça".
O caso da Fiat é diferente da GM e da Ford. Atualmente, a montadora italiana é a 8ª colocada do ranking europeu de vendas. No global, está abaixo da 10ª posição. Aqui no Brasil, entretanto, ocupa a liderança desde 2001, exceção feita pelo ano passado, quando a primeira colocação ficou com a Chevrolet, bandeira da GM. Além dessa representatividade no ranking de vendas, a Fiat América Latina, da qual faz parte a subsidiária brasileira, responde por 20% dos negócios do grupo italiano, consistindo em sua segunda maior operação. Cerca de 80% das vendas do bloco são fechados no Brasil.
Cledorvino Belini
Segundo Cledorvino Belini, presidente da Fiat América Latina e Brasil, a subsidiária nacional fechará 2005 com lucro.Entretanto, os resultados financeiros da Fiat do Brasil só serão divulgados no ano que vem, trazendo o valor positivo das operações. No mês passado, a América Latina passou a ser responsável também pela filial da montadora na África do Sul, que agora está sob o comando de Belini. No contexto global, o grupo italiano, depois de um amplo período prejuízos, deve fechar este ano as operações com lucro.
No terceiro trimestre, o grupo Fiat obteve 232 milhões de euros positivos; no acumulado do ano, o lucro já chega a 1,3 bilhão de euros. Entretanto, boa parte do resultado foi gerado pelo pagamento de 857 milhões de euros, valor pago pela GM para desfazer seu vínculo com a empresa italiana.
Já a Volkswagen está na contramão não só de sua matriz, como de suas concorrentes aqui no Brasil. Na estratégia global do grupo, a VW nacional é essencialmente fornecedora de modelos populares para o mundo. Entre eles, o Fox, que atua como veículo de entrada no mercado europeu, e o Gol, o modelo mais exportado da marca.
Hans-Christian Maergner
Sendo a maior exportadora da indústria automobilística nacional, com previsão de embarques de 262 veículos em 2005, de caráter essencialmente popular (ou seja, de valor acessível), a VW se vê um uma situação ainda mais difícil que a das concorrentes. As operações da montadora em âmbito nacional registraram resultado negativo; no contexto global, o grupo fechou o terceiro trimestre com lucro de US$ 340 milhões. A grande vilã da VW do Brasil é a exportação: alguns contratos já foram perdidos este ano e, em 2006, haverá redução para 229 mil unidades, conforme projeção divulgada por Hans-Christian Maergner, presidente da subsidiária brasileira.
Para a Volkswagen, recuperar a rentabilidade é a principal meta para os próximos anos, mais importante do que a retomada da liderança de vendas internas, tirada da empresa há cinco anos pela Fiat e, ocasionalmente, pela GM.
Centro de desenvolvimento de engenharia ou fornecedor de carros populares, independente do papel estratégico para suas matrizes, as montadoras brasileiras conseguem se posicionar no mundo. E, em um contexto de crise como o atual, especialmente para os mais antigos fabricantes de automóveis, o resultado financeiro das filiais brasileiras mostra que o mercado interno está no caminho correto para a retomada do lucro.