A “invasão chinesa” é, atualmente, a grande preocupação da indústria automobilística nacional. “A China, com seu mercado interno de 5 milhões unidades por ano, terá até 2010, capacidade para exportar 2 milhões de modelos, número superior ao que comercializamos hoje no Brasil”, diz Ray Young, presidente da subsidiária nacional da General Motors. Assim, não perdemos para o país asiático apenas na captação de novos investimentos, mas corremos o risco de deixarmos escapar mercados que são tradicionais compradores de automóveis brasileiros. “Nossa indústria automobilística está próxima de um divisor de águas, que definirá se, no futuro, seremos exportadores ou importadores de veículos”, diz o executivo da GM.
Ray Young
Para Ray Young, temos um período entre três e quatro anos para preparar o terreno contra a “invasão chinesa”. “Precisamos de um mercado interno maior, com cerca de 2 milhões de unidades anuais, o que deve acontecer em 2008”. Embora admita que os chineses hoje produzam veículos de baixa qualidade, o executivo acredita que eles aprenderão rapidamente, assim como aconteceu com Coréia do Sul e Japão. Este cenário foi exposto durante o seminário “Perspectivas 2005”, realizado em São Paulo, e que contou ainda com os presidentes da Fiat, Volkswagen, Ford e Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).
Rogelio Golfarb
Rogelio Golfarb, presidente da Anfavea, compartilha da visão de Ray Young, apontando a China como uma grave ameaça ao desenvolvimento da indústria automobilística nacional. Ele explica: “as montadoras, principalmente européias e norte-americanas, não compartilham da liquidez das empresas de outros setores. Por isso, o pouco dinheiro que possuem é investido em mercados que apresentem custos de produção baixo e escala alta”. A China surge como alternativa ideal para este novo cenário da indústria, e capta investimentos que poderiam ser absorvidos pelo Brasil.
Para Golfarb, o desafio de nossa indústria em 2006 é reduzir ainda mais os custos e aumentar a escala de produção. “Os grandes entraves para que isso ocorra são a taxa de juros alta e os impostos”, afirma. “Acredito que em 2006 o cenário não vai ser diferente do deste ano, mas deixo os números para as montadoras”. Ray Young concorda com Golfarb; embora não divulgue números da própria GM, ele afirma que as vendas e a participação da marca no mercado nacional no ano que vem permanecerão estáveis. “Mas nosso volume de exportação cairá entre 20% e 30%, devido à perda de contratos com países andinos para a Coréia do Sul”, afirma.
Segundo Young, este ano a inovação, com lançamento de novos produtos e motores bicombustíveis, e a exportação, seguraram a indústria nacional. “Mas, com a atual taxa de câmbio (em torno de R$ 2,25), não conseguiremos manter os contratos de vendas externas em 2006”.
Hans-Christian Maergner
Hans-Christian Maergner, presidente da Volkswagen, também afirma que as exportações da empresa vão diminuir no ano que vem. “Perdemos contratos com a China, para onde o Gol era mandado em regime de CKD (kits montados no país para os quais foram enviados)”, conta. A montadora, que deve fechar o ano com 262 mil unidades embarcadas, prevê queda de 12,6% para 2006, com vendas externas de 229 mil modelos. “Os custos para produzir carros no Brasil deixam a exportação, até mesmo para a América Latina, sem competitividade”.
Para Maergner, o mercado interno continuará sendo mais atraente do que as exportações para as operações da VW do Brasil. Em sua palestra no seminário, ele fez uma crítica aos impostos cobrados nos veículos nacionais, os mais altos do mundo: “Nunca vi um governo que vá tão fundo no bolso do contribuinte”. No cenário sombrio pintado por GM, VW e a própria Anfavea, Ford e Fiat apresentam maior otimismo do que as concorrentes. Barry Engle, que assumiu o cargo de presidente da montadora norte-americana em nosso país há menos de dois meses, não fez previsões para o ano que vem, mas ressaltou sua confiança no mercado nacional.
“Nosso maior desafio é manter a atual rentabilidade nas operações da América do Sul”, disse Engle. No terceiro trimestre do ano, a região, que tem o Brasil como maior representante, obteve lucro de US$ 96 milhões; enquanto isso, no contexto global houve prejuízo de US$ 284 milhões, sendo US$ 1,2 bilhão somente nos Estados Unidos. Quanto às exportações, Engle ressaltou que o objetivo é manter o mesmo patamar deste ano, ou seja, US$ 1,1 bilhão. “Os atuais clientes compram menos; os embarques da picape Courier para o México, que eram de 9 mil unidades, baixaram para 2 mil modelos”.
Barry Engle
Ainda assim, Engle afirma que a Ford já conquistou outros mercados, sem ressaltar quais. Mas admite que, se não houver desvalorização do Real, no ano que vem será inviável para a empresa manter o volume de exportação atual. A preocupação da Fiat para 2006 é também a queda das vendas externas. Este ano, a montadora inicialmente embarcaria 100 mil modelos, mas reduziu a projeção para 104 mil unidades. Segundo Cledorvino Belini, presidente da empresa, no ano que vem as exportações da Fiat cairão 30%, totalizando cerca de 70 mil veículos.
“Em 2006, teremos riscos como crescimento mundial, alta do valor do petróleo, de matérias-primas e da taxa de juros, além das eleições, que podem ocasionar volatilidade cambial”, afirma Belini. Mesmo assim, o executivo mantém sua confiança no mercado interno e afirma que, este ano, espera fechar as operações da América Latina com lucro. Para todas as montadoras, as perspectivas para a indústria automobilística em 2006 são semelhantes. As exportações devem fechar 2005 com cerca de 840 mil unidades e, no ano que vem, caírem entre 10% e 30%, número que nenhum fabricante soube precisar.
Cledorvino Belini
Já a projeção para a venda de automóveis e comerciais leves é de crescimento entre 3% e 4%, para 1,625 milhões de unidades. Com a queda das exportações, espera-se que a produção permaneça estável, com cerca de 2,1 milhões de modelos (automóveis e comerciais leves). A combinação entre “invasão chinesa”, alta da taxa de juros e câmbio valorizado (as montadores esperam cerca 2,60 para 2006) cria o cenário de estagnação para a indústria automobilística nacional nos próximos anos. Entretanto, há quem faça boas previsões: segundo Rogelio Golfarb, alguns empresários do setor já acham que não devem investir todo o capital na China. Assim, a esperança é que o Brasil se torne uma alternativa ao país asiático.
“Temos, como diferencial, engenheiros de qualidade, e que já são formados com a idéia de reduzir custos de produção”, afirma o presidente da Anfavea. Segundo Golfarb, temos vantagens em relação ao Leste Europeu, onde a produção é mais cara, e ao México, que não apresenta engenharia tão avançada como a brasileira. Ele acredita também que a Argentina não é um rival na busca de investimentos, e sim um aliado. “Somando as vendas dos mercados brasileiro e argentino, podemos alcançar uma meta que seja atraente para os investidores no Mercosul”, diz. Segundo os executivos, o volume de vendas ideal para o bloco é 4 milhões de unidades, meta que ele projeta ser atingida entre 5 e 6 anos.