A velha idéia de que lugar de mulher é dentro de casa, cuidando dos filhos e esperando o marido para o jantar, já faz parte do passado. No mundo contemporâneo, o sexo feminino tornou-se ativo no mercado de trabalho e cada vez mais conquista seu espaço na sociedade. Essa nova realidade levou a indústria de bens duráveis a se modernizar e dedicar atenção especial ao "sexo frágil". E o setor automobilístico não ficou de fora, pois o número de mulheres com carteira de habilitação aumenta anualmente e, no contexto nacional, hoje já chega a 30%.
As mulheres se interessam por modelos variados, mas alguns fatos inusitados se tornaram realidade nos últimos anos: o sexo feminino não consome mais apenas por peruas, minivans e carros pequenos, fáceis de manobrar. A participação de mulheres em segmentos antes estritamente masculinos, como o de picapes 4x4, aumenta a cada dia. Segundo a Ford, em 2001, as mulheres tiveram 7% de participação nas vendas da Ranger com tração integral, porcentagem que subiu para 18% em 2003. Com esses dados em mãos, a Ford concebeu a nova geração da Ranger, lançada no ano passado, pensando no público feminino também.
"O poder de fogo da mulher como consumidora não pode ser ignorado", diz Oswaldo Ramos, gerente de serviço ao cliente na Ford. Com esta idéia em mente, grande parte dos fabricantes de automóveis do Brasil realiza pesquisas anuais para aprimorar seus conhecimentos sobre o gosto feminino. Segundo a Ford, os fatores que atraem as mulheres em um carro não são tão diferentes daqueles que chamam a atenção dos homens. Os dois sexos procuram preço, estilo, economia e indicação de terceiros. Entretanto, enquanto os motoristas masculinos privilegiam potência, desempenho, durabilidade e facilidade na manutenção, as mulheres preferem fatores como espaço interno, conforto e facilidade nas manobras.
A Renault, famosa no meio feminino pelas séries especiais Clio Sedan O Boticário, compartilha da mesma idéia da Ford, assim como a Honda, fabricante de um dos campeões de ibope entre as mulheres, o compacto Fit. Os três fabricantes responderam à nossa reportagem e são unânimes em afirmar que, levando em conta esses fatores, o sexo feminino prefere os carros pequenos. Na Ford, montadora que vende 45% de seus modelos para mulheres, o preferido do "sexo frágil" é o hatchback compacto Ka. Cerca de 60% dos modelos vendidos anualmente no Brasil são comprados por mulheres.
O público feminino também vence o masculino na Honda: no ano passado, elas representaram 58% dos clientes do Fit. Entretanto, os fabricantes também pensam nas mulheres quando concebem um carro para seus maridos e filhos. Segundo dados divulgados pela Ford, elas opinaram em 42% dos negócios fechados pela marca no ano passado. A Renault vai ainda mais longe: a marca afirma que em 70% de suas vendas anuais, a palavra final é da mulher. E o consumidor comprova: "Eu quero um Ecosport, mas minha mulher afirma que um Picasso é melhor para nossa família. Estou começando a pensar em gastar mais R$ 10 mil para fazer a vontade dela", afirma o vendedor Renato Gagliardo.
Como as pesquisas deixam claro o poder da mulher, as fábricas começaram a conceber modelos com características femininas. Segundo a Ford, o importante é esquecer a idéia pré-concebida do "carro cor-de-rosa" e passar a privilegiar aspectos como conforto e visibilidade. Os modelos Ka, Fiesta hatch e Fiesta sedã foram projetados pensando principalmente na mulher. Eles agregam características como deslocamento do extintor de incêndio do banco do motorista para o do passageiro, assento revestido de tecido especial (que não desfia as meias) e melhor ergonomia. Outro exemplo de modelo que também tem pontos que agradam o público feminino é o Ecosport. Embora os utilitários esportivos façam parte de um segmento com maioria de consumidores masculinos, as mulheres representam 50% das vendas da versão 1.6 do jipe da Ford.
Pesquisas, estudo do gosto feminino, lançamento de séries especiais e projeção do carro com características femininas. Tudo isso é só o início de um fenômeno que se torna cada dia mais forte na indústria automobilística. Os fabricantes de automóveis já contam também com pequenos mimos para as mulheres: a Ford, por exemplo, promove test-drives voltados exclusivamente para o "sexo frágil". A marca promove ainda um grupo de estudos com funcionárias da empresa. O objetivo é bolar estratégias para conquistar cada vez mais o público feminino. Nenhuma fábrica nega que lugar de mulher não é mais atrás do fogão, e sim atrás do volante.