O mercado brasileiro de veículos é, sem dúvida nenhuma, muito peculiar. As constantes transformações pelas quais o setor e a economia nacional passam praticamente proíbem projeções e expectativas em longo prazo. É a moeda que enfraquece, os juros que sobem, o poder aquisitivo que desce, as taxas que aumentam, enfim, é uma enxurrada de problemas que dificultam a vida dos fabricantes e dos consumidores por aqui. E na esteira desse sobe e desce, por mais incrível que possa parecer, o segmento dos populares é o que mais vem perdendo participação nos últimos anos.
Para se ter uma idéia, o segmento que um dia chegou a representar quase 80% do mercado brasileiro, hoje beira os 50%, segundo números da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Além da queda do poder de compra e da falta de confiança do consumidor na economia do pais, qual seria o principal motivo de tamanha retração? Para o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Rogelio Golfarb, a queda se deve ao surgimento dos automóveis "flexíveis" e a menor diferença entre as alíquotas (veja quadro) que incidem sobre os veículos 1.0 frente aos modelos de maior cilindrada.
Porcentagem de impostos embutidos no preço do carro
"As vantagens que o consumidor encontrava durante a aquisição de um modelo 1.0 hoje são bem menores. Some a isso a falta de modelos 1.0 com tecnologia bicombustível - o único do mercado é o Volkswagen Fox - e chegamos ao cenário atual." Mas nem sempre foi assim. Não sei se o leitor se lembra, mas há pouco mais de um ano Fiat e GM chegaram a trocar farpas na mídia já antevendo tal situação. A marca norte-americana era favor da diminuição da diferença entre as alíquotas cobradas para os automóveis populares e os de maior cilindrada (favorecendo sua vasta gama de modelos com motor acima de 1.000 cc) e a outra pedia manutenção da diferença, favorecendo sua linha de veículos, composta basicamente por modelos com motorização 1.0.
A queda de braço perdurou por alguns meses e a vitória, digamos assim, ficou com a GM, que na época chegou até a ameaçar sua permanência entre os associados da Anfavea. Passado o tempo, verdade seja dita: o grande beneficiado foi o consumidor que passou a contar com mais opções e a possibilidade de adquirir automóveis com mais potência sob o capô. Apesar da situação atual, Golfarb acredita tudo voltará à normalidade. "O impacto causado pelos carros flex já passou e acredito que a partir de agora o segmento retomará a estabilidade."
Apesar de concordar com o Golfarb na questão da alíquota, o professor doutor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e analista do setor automotivo, Mauro Zilbovicius, não acredita que os modelos bicombustíveis tenham causado tamanha transformação no segmento. Para ele, o grande diferencial está na variação dos impostos - que hoje representam quase 40% do valor do carro - para cada faixa de motor.
"Como a diferença na alíquota ficou menor, vale muito mais a pena adquirir um carro com maior cilindrada do que um modelo 1.0." O professor afirmou ainda, que, em futuro não tão distante, os "populares" deverão ficar reduzidos a frotistas e grandes empresas. "Acredito que o consumidor comum deverá continuar migrando para segmentos superiores e a gama de modelos com motor 1.0 deverá se reduzir a poucas opções, apenas para frotistas e empresas."
Valor de impostos embutidos no preço do carro
Zilbovicius também fez questão de citar a péssima situação na qual se encontra a industria nacional, com capacidade instalada para a produção de 3,2 milhões de veículos, mas que deve fechar o ano na casa das 2 milhões de unidades fabricadas. Além disso, o professor afirmou que o país precisa deixar de ser uma espécie de plataforma exportadora e pediu, com urgência, que novos investimentos em tecnologia sejam aplicados pelas empresas com fábricas no Brasil. "Nem me lembro quando foram feitos os últimos investimentos tecnológicos por aqui. A Renault, por exemplo, conta com um centro de desenvolvimento na França, no qual trabalham cerca de 15 mil engenheiros, e nenhum no país."
Para ele, o Governo deveria criar mecanismos que obrigassem esses fabricantes a desenvolver tecnologia nacionalmente, o que viria a modernizar a industria brasileira como um todo. "Talvez com a concretização de um plano de incentivos que vem sendo pedido pelas empresas automotivas, o Governo possa aproveitar para cobrar alguma atitude neste sentido", completou Zilbovicius. Uma proposta que poderá ser anunciada pelo Governo reduziria o valor de algum dos impostos - provavelmente o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) - e recuperaria parte desta arrecadação por meio do aumento do IPVA. Mas ainda não há nada acertado e nenhum documento escrito, segundo uma renomada consultoria do setor tributário, mas fontes dão conta de que esforços neste sentido já vêm sendo discutidos.