A produção de álcool no Brasil tem uma trajetória pontuada por altos e baixos. Depois do auge nos anos 80, e do declínio com o perigo de desabastecimento, finalmente é possível dizer que a produção de álcool local é capaz de abastecer o setor. O Brasil hoje é o maior produtor e consumidor de etanol combustível do mundo, com 12,5 bilhões de litros produzidos por ano.
O aumento da produtividade fez com que a extração ultrapassasse a média verificada nos anos anteriores. Na safra 2003/2004, a produção de álcool no Estado de São Paulo atingiu 8,8 bilhões de litros, um volume 14,5% superior aos 7,7 bilhões de litros produzidos na safra anterior. Segundo dados da União da Agroindústria Canavieira (Única), até o final de 2003, o uso do álcool combustível no Brasil propiciou uma economia de US$ 55 bilhões acumulados em 27 anos.
O aumento de consumo de álcool combustível ganhou força com o lançamento do primeiro veículo bicombustível, que é movido a álcool e gasolina (puros ou misturados em qualquer proporção), em março de 2003. Em fevereiro do ano passado 3.770 carros novos movidos a álcool foram comercializados. Um ano depois, em fevereiro último, com a soma das vendas dos bicombustíveis, esse número passou para 18.431, um aumento de 388%. A participação de veículos desse segmento nas vendas gerais passou de 3,4% em fevereiro de 2003 para 16% no mês passado.
Os bicombustíveis chegaram mesmo para ficar. Em um ano 77.688 carros desse tipo foram emplacados no Brasil. A participação desse segmento nas vendas foi de 13%. Das quatro maiores montadoras instaladas no Brasil, apenas a Ford ainda não disponibiliza veículos com essa motorização. A Volkswagen, foi a pioneira no segmento com o Gol Total Flex em março de 2003 e hoje conta com os modelos Fox, Parati e Saveiro com motor bicombustível. A Fiat acaba de lançar Siena e Palio Weekend com motor desse tipo que junto com o Palio compõem a gama bicombustível da montadora.
A GM hoje tem no mercado os modelos Corsa, Corsa Sedan, Meriva e Montana com essa tecnologia e, segundo o Gerente de Engenharia GM/Power Train, Henrique Pereira, a montadora quer ampliar a oferta de Flex Fuel para toda sua gama de veículos disponível no mercado. Além disso, segundo ele todos os próximos lançamentos, sejam eles veículos, motores ou projetos, terão essa tecnologia. Para Pereira, essa tecnologia ajuda o consumidor. "Hoje em São Paulo a vantagem é muito grande para se rodar com álcool, mas ela já foi ao contrário", explica.
Os lançamentos não param por aí. Até o fim do ano muitos modelos devem ser lançados com esse sistema, como é o caso do Polo 1.6 (até o fim do primeiro semestre desse ano), Fiesta e Fiesta Sedan (ambos agendados para o segundo semestre), Zafira e Astra (ambos, provavelmente, em abril próximo). A Peugeot anunciou que no ano que vem lançará as versões hatch e perua do 206 com esse tipo de motorização.
Para o presidente da empresa especializada em comércio exterior, Sílex Trading, Roberto Gianetti da Fonseca, o motor bicombustível é uma evolução tecnológica da maior importância porque dá ao consumidor "a opção de utilizar um veículo de tecnologia garantida pelo próprio fabricante e com isso fazer uso dos benefícios de ambos os combustíveis". Além disso, segundo ele, esse sistema representa uma notável evolução tecnológica da indústria automotiva brasileira, com perspectivas ilimitadas para expansão internacional do mercado de etanol carburante.
Hoje vários países estudam a mistura do etanol à gasolina, situação que há muito tempo ocorre no Brasil, que tem 25% de etanol na composição de sua gasolina. "A internacionalização do mercado de álcool combustível é extremamente positiva para o Brasil", declara Gianetti. Os principais motivos que levam o especialista a essa conclusão são os mais de vinte anos de experiência no uso do etanol em larga escala e a tecnologia automotiva no setor, que é a mais desenvolvida do mundo.
O álcool tem tudo para ter um futuro promissor, mas o setor ainda tem muitas reivindicações para garantir seu crescimento sustentável. O presidente da Unica, Eduardo Carvalho, ressalta que um dos problemas enfrentados hoje pelo setor é a cotação do álcool. O excesso de oferta de álcool está derrubando o preço do combustível. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, em fevereiro, o preço médio do álcool era R$ 0,90. Esse mês o combustível já está cotado a R$ 0,81, uma queda de 10%. O preço do litro pago aos usineiros caiu 30% em janeiro, na comparação com o mesmo mês do ano passado.
"O declínio do preço nas entresafras é prejudicial. Hoje o preço cotado está abaixo da metade do preço de janeiro de 2003. Quando o preço sobe, todo mundo tenta conter, mas quando cai, ninguém quer ajudar. O governo pode ajudar nas negociações internacionais. A abertura dos mercados é fundamental", desabafa Carvalho.
Outra medida reivindicada é uma mudança na reforma tributária que dê ao álcool uma tributação compatível com combustível renovável para torná-lo mais competitivo em relação à gasolina. A queda do ICMS para carros a álcool, adotada pelo governo do estado de São Paulo e o Imposto sobre Produtros Industrializados (IPI) menor para carros a álcool e bicombustíveis também são pontos favoráveis.
Segundo Carvalho, o governo precisa agir rápido a favor do álcool em relação ao gás natural veicular (GNV), que hoje aponta como o principal concorrente do combustível derivado da cana-de-açúcar. Para Carvalho, o GNV conta com preços artificiais resultantes de uma carga tributária menor, não gera empregos e é um produto importado.