Texto: Aladim Lopes Gonçalves
Fotos: Divulgação
A indústria automobilística está em crise no mundo inteiro. Segundo um estudo do centro de competência da indústria automobilística, preparado pela consultoria Roland Berger, a produção de carros nos Estados Unidos terá uma queda de cerca de 12% até o final de 2004. A pesquisa aponta também que deve haver uma redução em torno de 6% no Japão e Europa. Por enquanto, a única "ilha" de prosperidade é formada por alguns países da Ásia, como China e India, que ainda prospectam novos negócios. No Brasil, a situação é ainda mais grave pelo panorama traçado por especialistas do setor e pelos resultados obtidos até agora.
Para o economista David Kupfer, estudioso do mercado automotivo, do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a crise era previsível desde o ano passado. "As montadoras fizeram investimentos pesados entre os anos de 1998 e 2000, quando foram instaladas 19 novas plantas no país." Segundo Kupfer, o total investido das indústrias atingiu cerca de US$ 16,5 bilhões, elevando a capacidade de produção para 3,2 milhões de unidades por ano, enquanto que o mercado interno absorveu, no seu melhor momento, em 1997, 1,94 milhão de unidades. Em 2000 e 2001, esse patamar caiu para 1,59 milhão de unidades e continuou em queda em 2002.
Na verdade, o economista explica que o mercado brasileiro parecia ser uma espécie de "oásis" para algumas montadoras que ainda não tinham fábricas no país e enfrentavam dificuldades nos seus países de origem. De fato, o quadro enfrentado no Brasil, por exemplo, não é muito diferente do que acontece no mercado americano.
| O RETRATO DO SETOR |
| Projeção inicial de vendas em 2003 | 1,8 milhão (cerca de 60% da capacidade instalada) |
| Projeção atual de vendas em 2003 | Entre 1,4 e 1,5 milhão/ano (cerca de 40% da capacidade instalada) |
| Volume de vendas desejado | 2,7 milhões/ano (cerca de 85% da capacidade instalada) |
| Capacidade de produção | 3,2 milhões/ano |
| COMPARE OS MERCADOS (VENDAS/ANO) |
| Mercado brasileiro (recorde de vendas em 1997) | 1,94 milhão |
| Mercado Estados Unidos | Cerca de 17 milhões |
| Mercado Europa | Cerca de 15 milhões |
| Mercado Japão | Cerca de 8 milhões |
| Mercado mundial | Cerca de 56 milhões |
| RELAÇÃO CARRO/HABITANTE |
| Brasil: um carro = nove habitantes |
| Argentina: um carro = cinco habitantes |
| Europa: um carro = três habitantes |
| Estados Unidos: um carro = um habitante |
Um estudo da Anfavea (associação das montadoras) revela que o setor só vai se consolidar com uma produção anual mínima de 2,7 milhões, ocupando cerca de 85% da capacidade instalada. De acordo com o levantamento, realizado pela Consultoria Booz-Allen-Hamilton e pela Anfavea, o setor só se consolidará quando conseguir ocupar entre 80% e 85% da capacidade instalada. Hoje a ociosidade nas montadoras brasileiras é superior a 40% da capacidade. A Anfavea entende que a obtenção da "sustentabilidade" do setor depende de um consumo interno de dois milhões de veículos por ano, além de as exportações crescerem dos atuais 400 mil para 800 mil veículos.
A frota brasileira de carros de passeio é estimada em cerca de 20 milhões de unidades. Para Kupfer, da UFRJ, esse número é elevado para a América do Sul e corresponde a um automóvel para cada nove brasileiros (só perde para a Argentina, onde a proporção é cinco habitantes por carro), mas na comparação com os Estados Unidos e Europa é baixo. No mercado europeu, por exemplo, a relação é de um veículo para cada três pessoas e, no americano, se chega praticamente a um por um. Em termos globais, a produção mundial de automóveis, incluindo veículos de passeio, comerciais leves e pesados, alcançou o recorde de 58,2 milhões de unidades em 2000, mas recuou para 56,32 milhões em 2001.
"CARRO DO TRABALHADOR"
Outra medida estudada pelo governo para estimular a renovação da frota nacional e facilitar o acesso do automóvel às classes menos favorecidas é o "Carro do Trabalhador", um projeto que já vem sendo discutido desde o início do ano com a Anfavea e o sindicato dos Metalúrgicos do ABC. A proposta inclui facilidades, como prestações fixas em torno de R$ 300 e pagamento a longo prazo. A criação de incentivos fiscais específicos também faz parte das discussões. A parte mais complexa do programa envolve o motor que o veículo usaria. O governo defende a idéia de se produzir um modelo equipado com propulsor inferior a 1.000 cm³ (menos que um "popular" hoje).
| CONHEÇA O “CARRO DO TRABALHADOR” (PROJETO DO GOVERNO) |
| Preço entre R$ 12 mil e R$ 13 mil |
| Motor com menos potência (abaixo de 1.0) |
| Prestações fixas (em torno de R$ 300) por prazo mais longo |
| Veículo compacto e sem acessórios |
| Isenção do IPVA no primeiro ano |
Em coletiva de imprensa em São Paulo, o presidente da General Motors do Brasil, Walter Wieland, disse que o caminho para popularizar o automóvel no Brasil não é criar um novo conceito de "popular". "Logo vão acabar sugerindo que a indústria fabrique um carro específico para os sem-terra e outros grupos." Para ele, a solução para ampliar o mercado está numa política de redução dos impostos relativos à produção e da queda da taxa de juros. O presidente a Anfavea, Ricardo Carvalho, também não vê com bons olhos o projeto do governo. "Se isso sair do papel, vamos condenar o brasileiro a um carro sem tanta qualidade. Estaríamos voltando a uns dez anos atrás ou criando uma concentração enorme, de 70% ou 80%, como ocorreu com os veículos 1.0."
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