Texto: Mariana Carnicelli
Fotos: Divulgação
Se antes andava na contra mão das crises, hoje o nicho dos carros de luxo não está resistindo à estagnação do mercado. Modelos luxuosos, com preços dezenas de vezes superiores ao dos populares, passam por uma fase difícil, mas não perdem a pose. Os importados são os que mais sofrem com esse quadro, já que ainda carregam o peso das oscilações do dólar, da alta do euro e do imposto de 35% sobre a importação. Marcas como BMW, Jaguar, Volvo, Audi e Mercedes disputam a preferência de um público seleto, muito exigente e muitas vezes até fanático.
Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores (Abeiva) - que representa as marcas BMW, Ferrari, Jaguar, Kia, Maserati, Porsche e Ssangyong - no primeiro semestre de 2003 foram vendidos 1.412 carros de luxo, uma queda de 47,1% em relação ao mesmo período do ano passado, em que 2.673 unidades foram negociadas. A entidade declarou que não é possível fazer previsões, mas que é necessário enfrentar a realidade: "As perspectivas não são animadoras".
A montadora sueca Volvo também enfrenta dificuldades. A marca teve queda de 38,7% nas vendas do primeiro semestre de 2003 em relação a igual período do ano passado. De janeiro a junho de 2002 foram comercializados (no atacado) 369 carros, contra 226 negociados em 2003. No mês de julho a situação não foi diferente: foram vendidas 20 unidades contra as 57 arrematadas no mesmo período de 2002. Desde que a Volvo Automóveis começou sua operação no Brasil em 1992, comercializou pouco mais que 7.000 carros.
É claro que a crise também tem suas exceções. Uma das marcas que - apesar da crise - tem boas notícias para contar é a Mercedes-Benz. A montadora teve um aumento de 8% na sua participação no mercado brasileiro. Segundo a montadora, esse resultado só foi alcançado devido à comercialização de automóveis especiais sob encomenda. Atualmente, as vendas de veículos por esse sistema correspondem a 15% do total da montadora. Se a participação da empresa no mercado aumentou, as boas notícias param por aí. O número de vendas da montadora alemã caiu em relação a 2002. A expectativa da marca para 2003 é vender 800 automóveis no Brasil, 400 unidades a menos que o total negociado em 2002. Nos sete primeiros meses do ano foram vendidos 350 carros importados da Mercedes-Benz em território nacional.
Vários fatores aliados determinam a compra de um carro de luxo superior. O fato de o carro ser um modelo diferenciado e que atinja altas velocidades contam, mas o fundamental é se apaixonar por ele e principalmente, ter condições financeiras para bancar essa compra. O Mercedes Classe E, por exemplo, custa de R$ 300 mil a R$ 368 mil. Um Jaguar S-Type tem preço base de R$ 235 mil e pode chegar a custar R$ 340 mil. O Audi S3 é encontrado por R$ 163,5 mil e uma Ferrari 575 Maranello custa US$ 480 mil. Mas afinal, quem são os proprietários dessas supermáquinas caríssimas?
Entramos em contato com o Audi S Clube do Brasil, que reúne donos dos modelos S, RS e TT da Audi para tentar descobrir essa resposta."É difícil definir o perfil dos proprietários desses modelos", declara o empresário Mark (todos entrevistados pediram para não ter seus sobrenomes divulgados), proprietário de um Audi RS2 Porshe. "Há de tudo, desde senhores que desejam um carro para demonstrar status, a jovens bem sucedidos que desejam uma máquina veloz, potente e que lhe traga prazer e emoção ao ato de dirigir", declarou.
O status de dirigir um carro desse porte atrai uma boa parte dos compradores, mas a maioria compra mesmo pela relação custo/benefício (ou custo/diversão), como declarou o empresário Alexander, feliz proprietário de um Audi S3. O estudante Bruno, que também tem um Audi S3 na garagem, revelou que "O prazer de estar pilotando, e não dirigindo, é algo inigualável". Bruno declarou que a relação entre o custo, o benefício e o amor à primeira vista pelo carro determinaram a sua escolha.
Carros que transmitem glamour, status e boa situação financeira não causam apenas admiração. Esses modelos fazem crescer os olhos de marginais e essa violência assusta a maioria dos proprietários de carros de luxo. "Não é só pela violência urbana, mas pelas barbeiragens que os outros motoristas fazem", explicou o presidente do Audi S Clube do Brasil, Ricardo, que possui um Audi RS2 Porsche e não sai constantemente com seu carro. O empresário Mark, que já foi vítima da violência, acredita que o trânsito congestionado prejudica a tomada de ações preventivas e o estudante Bruno destaca que além da violência, muitas pessoas distraídas e mal intencionadas também oferecem perigo e podem causar estragos ao patrimônio alheio.
Em locais com a pavimentação irregular, como é o caso da cidade de São Paulo, a preservação do carro requer um cuidado extra. Os carros esportivos, por exemplo, têm suspensões rígidas e pneus de perfil baixo com rodas largas, o que requer do motorista mais atenção ao guiar. A manutenção desses modelos é cara, assim como seus acessórios e peças. "Obviamente não se pode esperar que uma pastilha de freio custe o mesmo que de um popular, mas não é nada exorbitante levando em consideração a categoria do carro", declara Alexander.
Quando o assunto é preço, facilmente entra-se em acordo. O valor empregado no carro é facilmente recuperado pela satisfação de guiar e se beneficiar de todo conforto e desempenho que os modelos oferecem. "Existe uma idéia errada de que os custos são proibitivos. Pelo valor que paguei, teria comprado um nacional zero, que, em comparação, perde em todos os quesitos, sejam eles segurança, estabilidade ou potência", declarou o empresário Alexander.
Mark encontrou no seu Audi RS2 Porsche tudo o que queria: desempenho no topo da escala e sofisticação para um jantar social, por exemplo. "Acabei por conseguir muito mais que isso. Meu carro tem desempenho que só as mais potentes Ferraris conseguem alcançar, ao mesmo tempo em que tenho espaço de uma perua média-grande." Bruno destaca a estabilidade nas curvas e Mark, a segurança de um carro que tem controles superdimensionados proporciona. "Poucas ultrapassagens são perigosas quando está disponível mais de 350cv sob seu pé direito". Pelo jeito, valeu o investimento.
No Audi S Clube do Brasil, os associados participam de passeios e criam vínculos de amizade com outros proprietários. O clube já começou a fechar parcerias que garantem descontos em serviços e peças e até o final do ano será promovido um evento em pista fechada, no qual os participantes poderão levar seus carros ao limite. Somente os proprietários dos modelos Audi S, RS e TT podem se associar. Para se inscrever, basta acessar www.audisclub.com.br.
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