Texto: Aladim Lopes Gonçalves
Fotos: Divulgação
A cotação do dólar em relação ao real sempre foi um grande problema para as montadoras que atuam no Brasil, assim como a instabilidade da economia e a taxa de juros elevada. A soma desses fatores contribui para o cenário desfavorável para o crescimento e desenvolvimento do setor, que vem amargando resultados negativos em vendas, o que obriga a diminuir o ritmo de produção. De janeiro a abril desse ano foram vendidos 365.973 unidades, ante 388.224 do mesmo período de 2002, o que representa uma queda de 6,1%.
Para entender melhor a situação vamos comparar a evolução da inflação e da taxa de câmbio. No período de agosto de 1994 a março de 2003 o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) variou 205% enquanto que a moeda americana sofreu variação de 260%, segundo a Fundação Getúlio Vargas, uma das principais referências usadas para medir a inflação.
Entre os problemas gerados pelas elevações da taxa de câmbio, está a dificuldade na formação do preço dos veículos que usam peças e componentes importados. Por causa disso, os modelos com baixo índice de nacionalização dificilmente alcançam sucesso de vendas em função de estarem com os seus preços atrelados ao dólar.
Um modelo que vai enfrentar esse tipo de situação, por exemplo, é o recém-lançado Citroën C3, que tem índice de nacionalização de apenas 47%. Em contrapartida, o utilitário-esportivo EcoSport, da Ford, é o que podemos chamar de contraponto. Por ter sido fabricado a partir de um projeto nacional, o modelo tem 98% de nacionalização, condição que ajuda a manter um preço competitivo, independente da cotação do dólar.
Entre as mais recentes novidades do mercado, a que possui maior índice de nacionalização é o Honda Fit (lançado no mês passado), com 80% - 10% a mais que o sedã Civic. O mais novo trunfo da Fiat, o médio Stilo tem índice de 85%, enquanto que os modelos mais antigos, Palio e Mille conseguiram alcançar ao longo dos anos uma média de 98% de nacionalização.
No caso da Ford, ao lado do jipe EcoSport, o novo Fiesta também apresenta um bom nível de nacionalização, cerca de 95%. Na General Motors, o modelo que conta com maior número de peças e componentes nacionais é o Celta, com 93,6%, seguido do Corsa Classic (93%), Astra (91%) e Blazer (86,4%). O Renault Clio dispõe de cerca de 85% de itens nacionais. A Volkswagen não informou o índice de nacionalização de seus modelos.
EXPORTAÇÃO X IMPORTAÇÃO
Mas se o cenário não favorece as montadoras que usam muitos itens importados na produção dos seus carros, a situação não muda de figura para os importadores e representantes das marcas importadas. Se a moeda americana é cotada a R$ 4 (como ocorreu no final do ano passado), o que favorece a exportação, por outro lado desfavorece a importação de veículos.
Nesse caso, quem sai perdendo também são os donos de carros importados, por causa da depreciação e da manutenção, que se torna mais cara. Agora, se a moeda americana é cotada por volta dos R$ 3, como acontece agora, se beneficiam os importadores e saem prejudicados os exportadores. O ponto de equilíbrio para essas operações é muito discutido, mas uma posição comum a todos depende muito do crescimento da economia, do consumo e da produção.
COTAÇÃO IDEAL
Sérgio Habib, presidente da Citroën do Brasil, arrisca dizer que a cotação ideal do dólar para as montadoras seria algo em torno de R$ 2,50. Para ele, uma alíquota de R$ 3 é elevada. Habib recorda que um carro "popular" já chegou a custar, no Brasil, o equivalente a US$ 7 mil. "Pelo câmbio de hoje, o mesmo carro sairia por cerca de R$ 21 mil." O presidente da montadora francesa também reclama que a carga tributária no país é pesada. "Nos EUA, um carro médio paga 10% de imposto e aqui, 35%."
Sem estabilidade, o mercado automotivo tende a sofrer constantes aumentos de preço ao longo do ano. Atualmente, a média de reajuste das montadoras varia de 1% a 2%. O presidente da Ford do Brasil, Antonio Maciel Neto, explica que mesmo com a queda na taxa de câmbio os aumentos vão continuar para repor as perdas. "Em 12 meses sofremos 36% de reajuste no valor das commodities (espécie de investimento em produtos de uso comum, como carros) e só repassamos 12%", justifica Maciel Neto.
Para o diretor da Editora Autodata (especializada no segmento automotivo), Aparecido de Siqueira Stéfani, apesar da queda do dólar em relação ao real, as empresas da cadeia automotiva não deverão baixar os seus preços. "O mais provável é que as empresas ainda elevem mais os valores de seus produtos sob o argumento de que é necessário recompor as margens de lucro".
NACIONALIZAÇÃO
O aumento da cotação do dólar serve para forçar as montadoras que produzem no país a aumentar o índice de nacionalização dos seus carros. No entanto, as empresas afirmam que há uma parte do fornecimento que não podem alterar: a dos fornecedores, pois muitos deles importam algum componentes e pagam com outra moeda. Por exemplo: um fabricante de bomba de combustível utiliza componentes que importa de outro país, isso compromete a nacionalização.
Um estudo, encomendado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), apresentado no início do ano, concluiu que o setor de autopeças nacional depende do desenvolvimento local de novos veículos, ou de partes deles para se desenvolver. Seguindo essa lógica, no final do mês passado, o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, cobrou da Ford a criação de um novo automóvel com projeto genuinamente nacional para expandir a capacidade de produção na linha de montagem de São Bernardo do Campo (SP).
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