Desde as corridas de rua realizadas no Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro, no início do século XX, o sucesso da Mil Milhas Brasileiras, na década de 50, até a consagração de pilotos brasileiros na Fórmula 1, o automobilismo nacional acompanhou a evolução do Brasil e de sua indústria. Passou por diferentes gerações e adaptou-se às novas tecnologias. Os carros criados com lápis, compasso e papel deram lugar aos protótipos virtuais, projetados em softwares de simulação computadorizada. As corridas sem comunicação entre boxes e pilotos foram engolidas pela telemetria.
Mesmo com tantas mudanças, a paixão do homem por carros e velocidade continua viva até hoje. Mas o romantismo do passado deixa saudade aos protagonistas dessa história. É o caso do ex-piloto de corrida, Bird Clemente. “Os carros eram muito bons de guiar. O piloto sentia o carro no quadril. Andar de ‘lado’ na nossa época era um privilégio”, contou entusiasmado o ex-piloto, durante palestra realizada ontem (13) no 1º Forum de Automobilismo Brasileiro, promovido pelo Centro Universitário da FEI, em São Bernardo do Campo.
Idealizado por Ricardo Bock, professor do curso de Engenharia Mecânica Automobilística da FEI e ex-piloto de corrida, o encontro uniu gerações e reuniu alunos, professores, engenheiros e ex-pilotos, como Chico Lameirão, Bob Sharp e Anísio Campos, além dos jornalistas Lito Cavalcanti e Flávio Gomes.
Carros clássicos
O saudosismo da época ganhou vida com a exposição de oito carros de corrida históricos, como o Berlinetta nº 22, um Willys Interlagos baseado no Renault Alpine, considerado o primeiro esportivo de série construído no Brasil. Foi com ele que Bird Clemente conquistou a primeira vitória brasileira em uma corrida internacional, realizada em El Pinar, no Uruguai, em 1964, pela equipe Willys. Equipado com motor de 983 cilindradas e transmissão de quatro marchas, o carro também foi companheiro dos ex-pilotos Luiz Pereira Bueno, Chico Lameirão, além dos irmãos Wilson e Emerson Fittipaldi.
O Bino Mark I, de 1968, foi sucessor do Berlinetta nº 22. Tinha motor Renault 1.3 litros, quatro cilindros, de 130 cavalos, com transmissão de quatro marchas. A carroceria foi construída em resina de poliéster e fibra de vidro. O nome Bino, uma homenagem ao piloto brasileiro Christian Bino Heins, que faleceu em um acidente durante corrida em Le Mans, na França, em 1963, também deu origem a outro modelo, o Bino Mark II, protótipo esportivo que consagrou o piloto Luiz Pereira Bueno, o Luizinho.
As famosas carreteras, que passaram a figurar nas competições a partir da década de 30, também foram lembradas durante o encontro. O Carretera, de 1957, construído e pilotado por Camilo Christófalo, tinha suspensão traseira da Ferrari Testarossa e suspensão dianteira do Corvette, assim como o motor V8, e atingia velocidade máxima de 237 km/h. Já o Carretera DKW nº 10, de 1961, também pilotado por Bird Clemente e Mario César de Camargo Filho (Marinho) foi considerado o melhor carro da época, ao vencer a Mil Milhas de 1961.
Com motor DKW de 1.089 cm3, três cilindros em linha, acoplado ao câmbio de três marchas, o Carcará ficou conhecido ao atingir 214 km/h em um evento no Rio de Janeiro, em 1966, um recorde de velocidade para a categoria. O Carcará desenvolvia 104 cavalos de potência e 13 kgfm de torque. O carro encerrou as atividades do Departamento de Competição da Vemag e hoje pertence ao Museu do Automobilismo Brasileiro, em Passo Fundo (RS).
O evento também reservou espaço para o restaurado Copersucar FD01, primeiro carro de Fórmula 1 construído no Brasil, em 1974, por Wilson Fittipaldi. O bólido tinha motor DFV 8 cilindros em V, com câmbio Hewland FG-400 de cinco marchas. No mesmo ano, a Ford lançava o Maverick Berta para as pistas, com motor V8, capaz de gerar mais de 500 cavalos. O carro atingia velocidade máxima de 230 km/h.
A exposição de clássicos também ficará aberta hoje (14), até as 22h, no ginásio de Esportes da FEI. A entrada é gratuita. O Centro Universitário da FEI fica av. Humberto de Alencar Castelo Branco, 3972, bairro Assunção, em São Bernardo do Campo.