O presidente da Audi Brasil Distribuidora de Veículos, o argentino Daniel Buteler, coordena o processo de transição pela qual passa a empresa em nosso país. A partir do ano que vem, a Audi passa de fabricante a importadora de veículos. Isto acontecerá logo após o encerramento da produção do A3 na fábrica de São José dos Pinhais (PR), "joint-venture" entre a marca de veículos de luxo e a Volkswagen. Em seu novo período de atuação no Brasil, a empresa alemã vai investir na chegada de novos modelos importados. Só este ano, serão oito, com destaque para o A3 Sportback – que vai conviver com o nacional por alguns meses – e o utilitário esportivo Q7.
Mas, se os carros contribuirão para a estratégia da Audi de manter a liderança do segmento de luxo (contra BMW e Mercedes-Benz), outro produto deve contribuir para a imagem da marca. O R8, esportivo do fabricante alemão, deve ser uma das grandes estrelas do Salão do Automóvel de São Paulo, em outubro. Se sua presença for mesmo confirmada, ele será mostrado aos brasileiros apenas 15 dias depois de sua estréia mundial, no Salão de Paris.
Daniel Buteler recebeu o Carsale na sede da Audi Distribuidora, em São Paulo. Lá, falou desses e de outros temas, ressaltando que a empresa manterá as estratégias de marketing ousadas implementadas pelo grupo Senna, sócio da Audi AG na empresa comercial até o ano passado. Quando a companhia brasileira saiu de cena, em julho, Buteler foi designado pela matriz para presidir a Audi Distribuidora. O executivo, de 48 anos, atuava na Volkswagen como gerente executivo de Planejamento de Marketing. Antes disso, trabalhou em outras empresas do setor automobilístico, entre elas a General Motors.
Em sete anos como fabricante, a Audi obteve lucro no Brasil?
Daniel Buteler – Nunca registramos lucros nesta operação, a produção do A3. Sem dúvida, as empresas têm que trabalhar para ficar no azul. Mas, mesmo assim, ganhamos muita coisa positiva em termos de construção da marca. Agora, temos projetos muito ambiciosos para a distribuidora, com oito novos modelos para este ano e para o ano que vem.
E quais são estes modelos?
DB – A3 Sportback, RS4, S4, S6, S8, A4 Cabriolet, Q7 e R8.
R8? O Le Mans definitivo?
DB – Sim. Esperamos mostrar o esportivo ao público brasileiro em outubro, no Salão do Automóvel (de São Paulo). Sua estréia mundial acontecerá em no Salão de Paris (França), poucos dias antes de nosso evento automotivo. Mas as vendas do R8 no Brasil só começam em 2007. Vai competir com modelos da Porsche.
E todos estes carros estarão no Salão do Automóvel?
DB – Sim. Todos eles e mais o TT.
E para 2007, o que teremos?
DB – Além do TT e do R8, mais um modelo. Mas não posso falar qual é, porque ele ainda não foi lançado na Europa.
A nova geração de modelos da Audi, identificadas pela grade do radiador trapezoidal, está completa?
DB – Não, ainda faltam três modelos: o A5, um cupê entre o A4 e o A6, o Q5, um utilitário esportivo menor que o Q7 e um cupê de quatro portas para concorrer com o CLS, da Mercedes-Benz. Nos próximos oito anos, a Audi vai dobrar sua quantidade atual de veículos.
O protótipo Roadjet inspirou o A5?
DB – Não. As linhas do Roadjet serão inspiração para diversos futuros modelos da Audi. Mas o carro conceito não terá produção em série. O A5 é derivado de um conceito revelado dois anos atrás, o Nuvolari.
Quais serão as especificações e preços do Q7 para o mercado nacional?
DB – Ele chega em setembro com motor 4.2 V8, de 350 cavalos, câmbio seqüencial de seis marchas com opção de trocas por meio de hastes no volante, e será totalmente equipado. Um dos destaques é o teto solar panorâmico concebido exclusivamente para o carro. Haverá tração nas quatro rodas com controle eletrônico, câmeras para auxiliar o estacionamento e MMI (Multi Media Interface, um computador que controla a maior parte das funções do veículo). O preço deve ficar entre R$ 360 mil e R$ 390 mil. A expectativa é vender 50 unidades até o final do ano e 150 em 2007.
Hoje, a Audi é dividida em Distribuidora de Veículos e fábrica. Como fica a estrutura com o final da produção do A3?
DB – Só a Audi Distribuidora vai continuar. A fábrica, que é uma "joint-venture" com a Volkswagen, com participação da matriz da Audi, vai passar a fazer 100% de produtos VW. A Audi vai ficar só com a empresa distribuidora.
O que será feito com os 25% de participação da Audi na fábrica de São José dos Pinhais?
DB – O mais provável é que a parte da Audi seja alugada. Isso acontece em nossas fábricas no mundo todo. A porção que não é utilizada pode ser alugada para outra divisão do grupo VW, gerando utilização da capacidade plena da planta. No futuro, se as condições forem favoráveis, podemos voltar a produzir no Paraná. Hoje, não existe nenhum projeto da Audi para a planta. Mas as coisas mudam.
A Audi passa definitivamente a importadora de veículos. Isto está definido, pelo menos, até quando?
DB – Até que as condições sejam favoráveis para que a Audi volte a ser montadora. Por enquanto, teremos 100% de importação a partir do ano que vem.
Por que a Audi optou por encerrar a produção do A3 e não fabricar a nova geração no Brasil?
DB – A questão principal é a viabilidade econômica do projeto. A nova geração do A3 tem muita tecnologia. Os investimentos que tinham que ser feitos para produzi-lo em Curitiba são muito altos, enquanto o volume do mercado brasileiro é baixo. Não compensava economicamente.
A decisão da Volkswagen de não trazer a plataforma da nova geração do Golf foi determinante para a decisão de encerrar a produção do A3 no Paraná?
DB – Hoje, A3 e Golf produzidos em São José dos Pinhais têm muito em comum. Mas o mesmo não acontece com as novas gerações dos modelos. Isso já era um fator determinante. O fato da Volkswagen também não poder colocar o Golf, pelo mesmo motivo econômico, auxiliou na falta de viabilidade de produção do novo A3 no Brasil. Mas, infelizmente, o fator mais importante é que o mercado brasileiro não tem o volume esperado neste segmento. Há grande demanda por carros populares, mas a categoria na qual A3 e Golf concorrem não é viável.
A VW afirma que manterá a produção do Golf, talvez com reestilização, por mais alguns anos. Por que a Audi encerra a fabricação do A3 mais cedo?
DB – Porque nosso consumidor é diferente; ele procura ter os modelos mais atualizados. Avaliamos a possibilidade de promover reestilização no A3, mas isso não nos deixou muito satisfeitos, porque seria praticamente o mesmo modelo.
Qual é a expectativa de vendas para o novo A3?
DB – Mil unidades no ano que vem, ou cerca de 80 carros por mês. Com isso, esperamos liderar as vendas no segmento de luxo pelo quinto ano consecutivo, comparado com BMW e Mercedes-Benz. Queremos também liderança neste segmento, onde concorrem A3, BMW Série 1 e Classe A e B, da Mercedes. As médias de vendas mensais destes carros variam de 25 a 30 unidades.
E por que o senhor acredita que o A3 vai vender mais que a concorrência?
DB – Primeiro, porque é um produto atraente, bonito e líder de vendas na Europa, em seu segmento. Pela tecnologia que ele tem, pela tradição que o A3 tem no Brasil, com mais de 60 mil unidades já rodando pelas ruas do país. E acredito que temos clientes fiéis à marca, que estejam dispostos a trocar seu A3 nacional pela versão importada do modelo.
A Audi hoje é líder entre as três marcas premium alemãs porque tem o A3 nacional. O importado então, será a peça chave para a empresa manter sua posição no Brasil?
DB – Dois segmentos de carros importados de luxo fazem quase 90% das vendas como um todo. Estes são A e B, ou seja, A3 e A4. O sedã vende bem, oscilando entre segunda e terceira posição em sua categoria. Mas, com o Q7, vamos passar a atuar em outro segmento, o dos utilitários esportivos. Não tínhamos este produto antes, e vamos ter que tirar clientes de BMW, Mercedes-Benz, Porsche, Volvo. Tudo isso vai contribuir para a Audi manter a liderança no segmento premium, mesmo sem o A3 nacional.
A BMW, quando trouxe o Série 1, esperava que o carro vendesse mais que o Série 3, o que não aconteceu. O senhor acha que isso pode acontecer com o A3?
DB – Sim, a análise está correta, porque a preferência do brasileiro é por sedã. Acontece que nossos preços serão mais competitivos que os do Série 1. Não posso falar pelo concorrente, mas acredito que a estratégia da BMW nunca foi vender mais unidades do Série 1. Isto porque o sedã já é estabelecido no Brasil e fica difícil convencer o cliente a migrar para um hatch médio. A nossa aposta é diferente: queremos o cliente do A3 nacional.
Qual será o preço do A3?
DB – Vai variar de R$ 110 mil a R$ 150 mil.
Qual é a estratégia da Audi para o período de convivência entre os dois carros?
DB – Adiantamos em seis meses a chegada do A3 nacional, porque detectamos muitos clientes interessados no produto. Isso gerou o fator convivência. Mas como são produtos diferentes, com preços diferentes, acreditamos que eles vão conviver tranqüilamente.
Com o fim do A3 nacional, qual é a expectativa de queda de vendas para a Audi no Brasil?
DB – Já este ano, devemos fechar com 3,5 mil unidades comercializadas, ante 4,3 mil em 2005. Em 2007, esta queda será ainda maior. A projeção é voltar a registrar crescimento em 2008.
Como será feita a transição de fabricante para importadora?
DB – A distribuidora, antes controlada pelo grupo Senna, sempre foi responsável pelas vendas dos carros. A fabricação é feita por uma empresa denominada Audi do Brasil, que vai deixar de existir. Então, nada mudará em nosso cotidiano. As mudanças já aconteceram no ano passado, quando o grupo Senna saiu da sociedade e a distribuidora passou a ser controlada pela Audi AG (a matriz da montadora). Mesmo assim, procuramos manter o que de bom foi implantado pela empresa brasileira.
Depois da aquisição de 100% da distribuidora pela Audi AG, houve aproximação entre a marca e a Volkswagen do Brasil?
DB – Continuamos sendo duas empresas totalmente separadas. O que conseguimos fazer, hoje, é 'trocar bastante figurinha' com a Volkswagen do Brasil para administração de empresa. Incorporamos algumas políticas utilizadas pela VW, que acredito serem melhores para a administração da Audi. Utilizamos também alguns serviços terceirizados comuns, como transporte. Mas não há planos para parcerias, e sim sinergias na parte administrativa.
A Audi vai manter estratégias de marketing ousadas implementadas pelo grupo Senna, especialmente para o Salão do Automóvel?
DB – Sim. Não fizemos nada ainda este ano porque não tivemos lançamentos. Mas preparamos uma ação ousada para o A3 Sportback, da qual eu prefiro não antecipar detalhes. E prometemos superar o ano de 2004 na edição 2006 do Salão do Automóvel.