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 Mário Araripe26/06/2006 

 Presidente da Troller Veículos Especiais
Texto: Rafaela Borges
Fotos: Divulgação e arquivo pessoal

Mário Araripe, presidente e fundador da Troller Veículos Especiais, gosta de falar utilizando metáforas. Ele cita uma planta, o bambu-chinês, para definir sua empresa, uma fabricante de veículos com 100% de capital nacional. “Nos cinco primeiros anos, a planta cresce dois centímetros. No sexto, estica 22 metros”, explica o empresário, referindo-se às esperanças depositadas em 2007, ano de lançamento de um novo produto, sobre o qual ele não revela detalhes. Em princípio, Araripe afirmou que a recente ampliação da fábrica da Troller em Horizonte (CE) nada tem a ver com a novidade.

Todavia, logo em seguida, ele revelou que a fábrica foi ampliada para que sua capacidade produtiva, de 42 carros diários (em três turnos) seja absorvida com a chegada do novo produto. Este projeto é confidencial, mas Araripe antecipou outra novidade da Troller. Trata-se da versão cabine dupla da picape Pantanal, que será revelada no Salão do Automóvel, em São Paulo (SP), entre os dias 19 e 29 de outubro. O empresário recebeu nossa reportagem na sede administrativa da empresa, na capital paulista.

Lá, ele falou sobre o surgimento e a consolidação da Troller no mercado. Contou também algumas estratégias para o crescimento, que incluem a abertura do capital da empresa. Mário Araripe, 51 anos, graduou-se em engenharia mecânica pelo ITA, em São Paulo. Ele tem dois cursos de pós-graduação, um deles pela Harvard Extension School, em Boston (EUA). Casado, pai de quatro filhos, Araripe, junto com Rogério Faria, - hoje fora da empresa – fundou a Troller em 1997.

O empresário tem fala mansa e gosta de contar histórias. Talvez por isso, esteja lendo três livros no momento, ‘3.000 dias no Bunker’, de Guilherme Fiuza, ‘Rompendo o Marasmo’ e ‘Mercado, Leis e Economia’, ambos de Armando Pinheiro. Fora da empresa que preside, Araripe aprecia o contato com a natureza, freqüentando praias e expedições “off-road”.

Como surgiu a marca Troller?
Mário Araripe – Fui convidado atuar na empresa por um amigo, o Rogério Faria. Ele tinha uma fábrica de buggies em sociedade com o irmão, mas saiu em 1994, para produzir o jipe. Passou dois anos trabalhando no projeto, e insistia para que eu fosse seu sócio. Então, em 1997, quando voltava dos Estados Unidos, fui até a fábrica dele, a Troler, naquela época ainda com um L. Era uma área de 1.200 metros quadrados, sem piso, com 12 funcionários, sete deles com carteira assinada. Mas, mesmo assim, achei o projeto interessante, e resolvi embarcar nele.

Depois que você tomou a decisão, qual era o caminho a ser percorrido?
MA – Fazer um carro no Brasil, para condições especificamente brasileiras. A partir dali, o grande desafio era a construção da marca, porque o mercado de carros não é como o de bebidas e alimentos. Optamos por uma família focada em veículos especiais; só faríamos se a escala nos tornasse competitivos. Essa é a maior diferença para uma montadora multinacional. Eles fazem por dia o que fazemos em um ano.

Por que a escolha de um jipe para identificar a marca?
MA – Escolhemos um segmento exclusivo. A Fiat, por exemplo, não se interessa em fazer um carro para transporte em minas (de extração de minérios). Nós fizemos isso, assim como para bombeiros e polícia. Durante o processo, conversei com o Amaral Gurgel (da extinta Gurgel) e os donos da Engesa. A idéia era fazer uma análise crítica para descobrir porque eles não obtiveram o sucesso que certamente mereciam.

Como o senhor define a Troller hoje?
MA – A Troller é um bambu-chinês, uma plantinha que você rega todos os dias durante os primeiros cinco anos, quando ela cresce apenas dois centímetros. Mas, no sexto, ela cresce 22 metros. Nós ainda estamos esperando nosso sexto ano para 2007.

Quais eram os objetivos na época da criação da marca? Eles foram alcançados?
MA – Estamos inseridos no objetivo inicial, que era catalisar a indústria automobilística nacional. Mas eu sou uma limitação para a empresa; as demandas por investimentos são maiores do que as que tenho capacidade de oferecer. O que deve acontecer nos próximos dois ou três anos é uma mudança no sistema de capital, permitindo a Troller passar para uma nova fase.

Qual é a capacidade produtiva atual da fábrica da Troller?
MA – Um carro a cada 27 minutos. Mas hoje temos apenas um turno de produção, com oito unidades por dia. A fábrica foi ampliada, e por isso poderíamos fazer 14 carros por turno, ou 42 em três turnos diários.

Qual é o mix de produção e a porcentagem destinada ao mercado externo?
MA – 25% para o Pantanal e 75% para o T4. 20% do total da produção é vendida lá fora, principalmente para Angola, para uso da polícia local.

Com qual objetivo a Troller ampliou a fábrica de Horizonte?
MA – A ampliação está em sua fase final. Depois disso, iniciaremos a produção de uma nova versão da Pantanal.

A ampliação resultará na produção de um novo produto, diferente de T4 e Pantanal?
MA – Não. A capacidade extra será, provavelmente, ocupada por estes dois produtos. Mas já trabalhamos no desenvolvimento de um novo veículo, que deve chegar no ano que vem.

E que tipo de veículo será este?
MA – O projeto é confidencial. Eu só citei para explicar a ampliação da capacidade produtiva da fábrica de Horizonte.

Então, o objetivo da ampliação da fábrica é mesmo a produção de um novo veículo?
MA – É. O novo veículo é aquela história do bambu-chinês. Esperamos crescer os 22 metros quando o produto chegar ao mercado.

Como ficou o resultado financeiro da Troller em 2005?
MA – Faturamos cerca de R$ 100 milhões e tivemos resultado na grandeza de R$ 4 milhões negativos. É prejuízo.

Qual é a porcentagem do faturamento que vocês aplicam em investimento?
MA – Cerca de 20%. Eu acho que investimos mais de R$ 20 milhões no ano passado.

Araripe e a esposa Mônica no Chile
Quantos veículos foram vendidos no Brasil em 2005 e qual é a projeção para este ano?
MA – Vendemos cerca de 300 veículos no mercado interno, e esperamos crescimento de 15% para 2006.

O Real valorizado prejudica as exportações da Troller?
MA – Sim, e teve papel principal no prejuízo registrado em 2005. Mas, este ano, a expectativa é de que o volume de exportações fique estável.

Qual é o índice de nacionalização dos veículos da Troller?
MA – Temos 95% de índice de nacionalização.

A Troller já estudou a possibilidade de atuar no segmento de carros de passeio, com aptidão exclusivamente urbana?
MA – O segmento de carros de passeio não interessa, pois não teremos vantagem competitiva.

Quem é o público alvo e quais são os concorrentes da Pantanal?
MA – A Pantanal é uma picape “full size”, que tem como principal concorrente a Ford F-250. O público alvo consiste de mineradoras, companhias de eletricidade e agrobusiness. É o antigo consumidor do (Toyota) Bandeirante.

Qual a expectativa de vendas para a Pantanal?
MA – Cerca 500 picapes por ano. As exportações são basicamente para a Angola, mas não temos nenhum contrato fechado.

Podemos esperar novidades para a picape?
MA – Teremos o lançamento da versão cabine dupla no segundo semestre. A apresentação do modelo acontecerá no Salão do Automóvel, em outubro.

Você acha que as eleições podem influenciar as vendas de carros no Brasil?
MA – Eu acho que o resultado da eleição pode influenciar a indústria automobilística. Não o ano eleitoral.

Uma mudança no governo federal seria benéfica para a nossa indústria?
MA – É importante que o próximo governante exerça a sua obrigação: governar. É impossível o presidente fazer isso sem uma base aliada. Então, se a eleição gerar condição de governabilidade, eu acho que vai ser extremamente interessante para o Brasil. Caso contrário, vamos ter problemas.

E o atual governo federal está governando?
MA – Parte do governo sim. A grande vantagem da atual política econômica é que ela foi previsível... Mas, se houver um segundo governo Lula, acredito que a qualidade será inferior a do primeiro. A probabilidade de a oposição constituir maioria no Congresso é maior do que a da situação.

Por que a Troller não é associada à Anfavea?
MA –Nós vamos nos associar, e vai ser breve, provavelmente ainda este ano. Ainda não somos por uma questão estratégica.


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