Montadora responsável pela produção do carro mais vendido no Brasil há quase 20 anos, o Gol, a Volkswagen há tempos não sente o gosto da liderança do ranking geral de vendas do país. Há cinco anos, a Fiat é líder, com exceção de 2004, quando a General Motors obteve e desejada posição. Mas o fato não parece gerar grande dor de cabeça para o Departamento de Vendas da VW. O diretor de Marketing e Vendas da subsidiária brasileira da empresa, Paulo Sérgio Kakinoff, acredita que, no momento, a montadora deve focar a retomada da rentabilidade.
No ano passado, embora a VW tenha registrado lucro no mercado interno, este foi anulado pelas exportações, prejudicadas pela valorização do Real. “O resultado é negativo e 2005 foi um dos anos mais difíceis da história da Volkswagen no Brasil”, diz Kakinoff. Com 350.520 unidades emplacadas, a montadora fechou 2005 na terceira posição no ranking. Mesmo assim, ficou satisfeita com o desempenho, embora acredite que o resultado ainda não seja o ideal.
Apesar dos prejuízos registrados, 2006 promete ser um ano de lançamentos de produtos no Brasil, como o Jetta, que chega para disputar o segmento de sedãs. Em entrevista concedida ao Carsale, Kakinoff falou sobre a atual linha de produtos da montadora, a longevidade deles e as estratégias da empresa para o mercado nacional. Além disso, esclareceu as especulações de que a produção do compacto Fox europeu, em São Bernardo do Campo (SP), possa ser transferida para outro país.
Paulo Sérgio Kakinoff, de 31 anos, iniciou sua carreira na Volkswagen do Brasil em 1993, como estagiário do Departamento de Treinamento da rede de concessionários. Foi contratado pela empresa nesse mesmo ano e, em 1998, aos 23 anos, já ocupava seu primeiro cargo executivo. Entre 1998 e 2002, Kakinoff foi gerente de dois departamentos distintos, até chegar à Diretoria de Marketing e Vendas, em 2003. Graduado em Administração de Empresas pela Universidade Mackenzie, o executivo tem pós-graduação em gestão empresarial.
Qual é a fórmula que garante a longevidade dos carros da VW do Brasil?
Kakinoff – A marca Volkswagen surgiu como uma estratégia quase militar, antes de se tornar o que é hoje. Por isso, os projetos iniciais eram marcados pela durabilidade, característica que é, atualmente, uma das grandes demandas do mercado. Com isso, a Volkswagen é um dos casos de marcas nas quais os produtos surgiram antes mesmo do posicionamento de marketing. Quando a demanda pelo carro durável e resistente foi descoberta, a Volkswagen percebeu um nicho para desenvolvimento de modelos para diferentes condições de uso e com esta aptidão. Assim, surgiu a Kombi, a Brasília, o 1.600. Naturalmente, as novas tecnologias começaram a tornar obsoletas as antigas formas de se construir automóveis. Porém, até hoje, o mercado continua desejando durabilidade e confiabilidade mecânica. A Volkswagen se especializou neste segmento e tornou isso o grande diferencial da sua marca. Estas são nossas especialidades. Assim como algumas montadoras se especializam em esportividade, outras, em alto luxo associado à tecnologia.
Algumas seguradoras afirmam que o fato dos veículos VW terem vida muito longa deixa seus seguros mais caros. O que a montadora tem a dizer sobre isso?
Kakinoff – É um efeito colateral indesejado, mas quase inevitável para quem tem uma história como a da Volkswagen. Quanto maior a durabilidade dos produtos, maior é a capacidade deles serem reutilizados depois de muito tempo. Além disso, o sucesso comercial também é levado em conta. Como as seguradoras trabalham com dados estatísticos de ocorrência, a probabilidade de um carro que circula em maior quantidade ser roubado é maior. Geralmente, isso acontece com os modelos mais consagrados, como Gol e Parati.
A Volkswagen criou dispositivos para combater os altos seguros de seus carros?
Kakinoff – Sim. Demorou, mas a Volkswagen conseguiu achar soluções práticas e viáveis para reverter a situação. Um dos exemplos é o seguro da Parati, que é extremo (chega a R$ 19 mil, em São Paulo). Hoje, você encontra no mercado seguro para a Parati dentro de percentuais considerados normais, com valores que variam entre 8% e 10% do preço do veículo. A mesma coisa vale para o Golf. E como é feito isso? Cada carro é uma aplicação. Na Saveiro, por exemplo, muitas partes da carroceria saem agora com número de chassi, que praticamente impede a utilização das mesmas de forma ilegal. O Golf passa a contar com opção de rastreador via satélite e a Parati, com um dispositivo antifurto criado em parceria com a seguradora. Assim, os três carros críticos da Volkswagen ficam com o seguro em um patamar normal de mercado.
Porque o tradicional slogan da Volkswagen, “você conhece, você confia”, foi modificado para “perfeito para a sua vida”?
Kakinoff – Um bom exemplo é o nosso mais recente lançamento, a Kombi com motor refrigerado a água. “Você conhece, você confia” no antigo propulsor a ar, porque ele tinha durabilidade, resistência e baixo custo de manutenção. Entretanto, apresentava alto consumo de combustível e nível de ruído, além de potência reduzida. Hoje, a Volkswagen desenvolveu capacidade tecnológica que a coloca entre as marcas líderes em tecnologia automobilística do mundo. É mais do que confiar e conhecer. É uma marca que está buscando a solução mais perfeita para a vida de cada pessoa. O motor 1.4 refrigerado a água é “perfeito para a sua vida”, pois têm 50% menos consumo de combustível e emissão de poluentes, e 20% a mais de potência. A obsessão da Volkswagen hoje é buscar a perfeição para cada uma de suas aplicações.
A Volkswagen está satisfeita com o mercado interno?
Kakinoff – Muito, comparado com o ano passado. Mas pouco, considerando o potencial de nossa indústria automobilística. O setor se preparou para ter uma capacidade instalada maior do que é a demanda atual. Para que a indústria se viabilize economicamente, exclusivamente com vendas domésticas, o mercado tem que crescer pelo menos 20%, ou até 25%, o que representa um ritmo de crescimento de 10% ao ano. Tivemos 9%, em 2004, e 10,7%, em 2005. Precisamos crescer cerca de 10% por ano até 2008 para ter um mercado adequado, mas isso é muito difícil. A maneira que encontramos para compensar as vendas inadequadas foi exportar. Porém, por falta de sorte, a valorização do Real fez boa parte dos contratos de exportação se tornar deficitária.
A liderança do mercado interno é importante para a Volkswagen?
Kakinoff – É. Mas não mais importante do que tornar a empresa rentável. Sem rentabilidade, a Volkswagen não vai lançar novos produtos. E, sem novidades, não dá para alcançar a liderança. A busca pela primeira posição do ranking, sem preocupação com o desempenho financeiro da empresa, causa um dano quase imediato, mas de duração longa e, geralmente, de difícil recuperação. Em um mercado com a elasticidade do nosso, é fácil chegar à liderança. O difícil é fazer isso de maneira sustentável.
A Volkswagen fechou 2005 com rentabilidade?
Kakinoff – Ainda não temos os números finais, mas já sabemos que conseguimos obter lucro no mercado doméstico. Mas o prejuízo com as exportações vai absorver o lucro obtido com as vendas internas e ainda deixar um buraco muito significativo. O resultado final da Volkswagen em 2005, economicamente falando, ficará negativo. Foi um dos anos mais difíceis da história da empresa no Brasil.
Além do contrato de exportação do Gol para a China, vocês devem perder mais algum? As exportações da Volkswagen vão diminuir em 2006?
Kakinoff – O encerramento das exportações para a China não se deu pela valorização do Real e o déficit econômico, e sim pela estratégia de marketing de oferecer carros de porte maior para o país. Os demais contratos deficitários, por enquanto, não serão cancelados porque não podemos deixar os mercados à mercê da política cambial brasileira. Mas o Brasil tem chance de perder contratos para outras plantas Volkswagen, sediadas em países com vantagens cambiais ou menor custo logístico de exportação. Aqui, a combinação destes dois fatores torna inviável a grande maioria dos negócios. Assim, é possível que a Volkswagen do Brasil precise cessar contratos com alguns países, mas ainda não se sabe quais, porque a decisão depende muito da estratégia a ser seguida pela matriz.
São verdadeiras as especulações de que a produção do Fox Europa pode migrar para o Leste Europeu?
Kakinoff – No mundo globalizado, os próprios sindicatos, e isso é legítimo, brigam para aumentar a capacidade de produção de suas plantas. Mas não há, em absoluto, qualquer tipo de definição nesse sentido. É possível que o Fox fabricado para outros mercados, inclusive o europeu, seja produzido em outra localidade? Sim. Como também é possível que o carro continue sempre sendo produzido pela Volkswagen do Brasil. Depende de diversos fatores: volume da demanda, capacidade produtiva, a taxa de câmbio. Há um jogo completamente aberto neste sentido.
O Crossfox será exportado para a Europa?
Kakinoff – O Crossfox está sendo demandado pela Europa. Os mercados do continente nos procuram, interessados no carro. Eu diria que há uma grande chance disto acontecer e já estamos quase na viabilização do projeto.
Quando devem começar as exportações?
Kakinoff – Este ano.
O presidente da VW, Hans-Christian Maergner, disse recentemente que existe um projeto para a produção de um modelo popular, denominado NF, em andamento. O que exatamente é este projeto?
Kakinoff – Os custos logísticos e a carga tributária no Brasil são muito altos. Mas fora isso, a engenharia dos nossos carros, especialmente no segmento de entrada, é uma das mais avançadas do mundo. Por isso, temos condições de fazer modelos competitivos para os mercados interno e externo. A Volkswagen tem interesse em produzir, para exportação, carros com o mesmo custo que o Gol tem hoje no Brasil. Isso é o que a gente chama de NF. É fazer o Gol, o nosso carro de entrada, ser exportado para todos os mercados do mundo. O que a gente precisa para isso? Oferecer componentes adequados às diferentes legislações existentes em cada país, sem fugir muito do valor de produção atual do modelo. NF é a sigla que diz respeito ao projeto de desenvolvimento de tecnologias necessárias para comercializar nossos carros em mercados internacionais. O Fox, por exemplo, é um NF.
Quando o Jetta chegará ao mercado nacional?
Kakinoff – Provavelmente no segundo semestre deste ano.
Ele vai conviver com o Bora?
Kakinoff – Sim, são carros totalmente diferentes. O Jetta ficará posicionado entre o Bora e o Passat.
Há planos para reestilização do Golf nacional?
Kakinoff – Ele vai ficar assim ainda por um bom tempo, pois aparece em pesquisas como um dos três carros mais desejados pelos brasileiros.
Não vai ganhar nem mesmo motor bicombustível?
Kakinoff – Isso sim, porque o objetivo da Volkswagen é tornar toda a linha bicombustível até o final do ano. Faltam apenas Santana e Golf.
O Polo receberá mudanças para se adequar ao novo estilo europeu e permitir a exportação da versão sedã para a Europa?
Kakinoff – Não, o Polo fica como está, porque tem ótima relação custo/benefício. E, com a atual taxa de câmbio, não vale a pena voltar a exportar o modelo sedã para a Europa. A única novidade será a introdução de motor bicombustível na versão 2.0, o que acontecerá até o final do ano.
São verdadeiras as especulações de que você vai para a Alemanha, atuar na matriz da Volkswagen?
Kakinoff – Tudo isso não passa de especulação. Por outro lado, a Volkswagen tem cada vez mais planos de carreira que incluem experiência internacional. Para mim, seria muito atraente conhecer outros mercados e culturas, e esse tipo de desenvolvimento é prática na empresa. A especulação vem mais por este fato, mas por enquanto não existe nem negociação sobre isso.