Aos 46 anos, o engenheiro Rogelio Golfarb acumula dois cargos que consomem boa parte do seu tempo. Além de diretor de Assuntos Corporativos e Comunicação da Ford, o executivo preside a Anfavea, a associação que representa os interesses das 17 montadoras instaladas hoje no Brasil. Uma de suas missões é levar aos governos as reivindicações do setor que, este ano, impulsionado principalmente pelas exportações, bateu recordes sucessivos.
Mas nem só de flores vive a indústria automobilística. Se as exportações alcançaram recordes em volume e faturamento, o mesmo não aconteceu com a lucratividade. Além disso, existe a constante preocupação em elevar as vendas internas para que o país se torne mais competitivo na captação de investimentos. “Não podemos ser passivos diante de países como a China, com enorme potencial de crescimento”, diz.
Golfarb conversou com Carsale como presidente da Anfavea, e, neste final de ano, fez análises dos mercados interno e global. Ele também falou sobre as perspectivas para o futuro de nossa indústria. Formado em engenharia de produção mecânica pela FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), em São Paulo, Golfarb atua na Ford desde 1981. Na empresa, passou pelas áreas de marketing e planejamento estratégico, até assumir, em 2001, a diretoria de assuntos corporativos.
Para se interar dos cenários nacionais e globais, o executivo devora diversos jornais e revistas internacionais. Mas um de seus projetos para 2006 é voltar a ler bons livros, lazer do qual tem que se privar pelas suas atribuições na Anfavea. Golfarb tem como hobby a prática de ginástica e corrida. “Quando as vendas começam a cair, tenho que correr mais ainda”, brinca.
Porque a Anfavea acredita que em 2006 o índice de crescimento da indústria automobilística será menor do que o de 2005?
Golfarb – Porque os indicativos econômicos, principalmente o PIB (Produto Interno Bruto) é que impulsionam o setor. No ano passado, tivemos uma indústria que cresceu 10,8%, com PIB de 4,9%. Em 2005 devemos fechar com PIB de aproximadamente 2,5%. Então, é natural que o crescimento industrial seja menor do que o do ano passado. A projeção para as vendas é alta: 7,7%, um número bom, mas não está no nível que nós gostaríamos. Imaginamos que em 2006 conseguiremos crescer ainda um pouco mais, na faixa dos 7,1%. Se considerarmos 2004, 2005 e 2006, percebemos que o índice de crescimento está acompanhando o aumento do PIB.
E quanto às exportações?
Golfarb - A grande incógnita para o ano que vem é o que vai acontecer com as exportações. O câmbio está muito valorizado e a lucratividade, caindo. Algumas empresas mantêm os embarques apenas para não sair de alguns mercados que, com muito custo, conseguiram entrar.
As exportações continuarão sendo um dos grandes suportes do setor?
Golfarb – Hoje as exportações representam 36% do total da produção da indústria automobilística nacional. Os embarques são fundamentais para manter a máquina da indústria funcionando, pois contribuem para a utilização de nossa capacidade produtiva. Entretanto, a lucratividade caiu substancialmente. As empresas têm contratos fechados há dois ou três anos, que hoje estão sendo cumpridos. Mas algumas montadoras já anunciaram cortes nas vendas externas. A tendência é tentar segurar o volume de embarques o máximo possível. Agora, vamos ver o que vai acontecer com o câmbio. Além disso, teremos que acompanhar as oscilações da taxa de juros. Tudo isso ainda vai ser combinado com o processo eleitoral, no ano que vem.
Você acha que o ano eleitoral vai interferir nas vendas internas de automóveis?
Golfarb – Tudo depende de como vai ser este processo eleitoral. Poderemos ter eleições mais complicadas, de maior risco, em que candidatos não esperados apareçam. Tudo isso cria um clima de insegurança que, com certeza, pode fazer o consumidor deixar de comprar um carro zero km. Este é um cenário que já experimentamos em outros anos eleitorais. Mas hoje, acredito também que temos um clima diferente, já que houve um descolamento de política e economia. Mesmo com a crise política, a economia se manteve com pernas próprias. Mas acredito que em 2006 não deverá haver uma grande volatilidade. Se tivermos os candidatos já esperados, tudo deve correr bem. Este é o cenário que estamos esperando.
A crise política criou um cenário tenso no país. Houve medo de que ela pudesse afetar a economia e, conseqüentemente, a venda de carros. Isto acabou não acontecendo. Por quê?
Golfarb – Por dois aspectos: o primeiro é que existe uma estabilidade na política econômica. Alguns acham que é necessário fazer ajustes no cenário, mas ele tem se mostrado consistente. A transparência e a manutenção da política econômica têm um papel importante para evitar surpresas. O outro aspecto é o cenário econômico mundial, que mostra um crescimento muito alto. A combinação destes dois fatores tirou o impacto que uma crise política poderia ter em nossa economia.
Em recente seminário automotivo, o senhor afirmou que o mundo tem muita liquidez, mas que este dinheiro não é encaminhado ao setor automotivo. Por quê não?
Golfarb – O setor automotivo global tem hoje mais capacidade produtiva do que clientes para comprar carros. A ociosidade é grande, em torno de 22%. Além disso, a tecnologia utilizada na produção de veículos é cara. De uma maneira geral, para gerar lucros, uma empresa precisa de cada vez mais clientes para seu produto. Em nosso setor, a oferta é maior do que demanda, fato agravado pela China, que leva o preço dos commodities para cima e deixa os custos de produção mais altos. Os valores do aço, do plástico e dos metais subiram. Por isso, o setor está caminhando na contramão; existe dinheiro no mercado internacional, mas não na indústria automobilística.
O mercado interno está adequado? Em caso negativo, o que é preciso fazer para alavancar as vendas?
Golfarb – O mercado interno tem mostrado crescimento, mas não está no nível que nós gostaríamos. Em 1997, tivemos 2 milhões de unidades comercializadas; no ano que vem, se tudo der certo, chegaremos a 1,82 milhão. Mas o importante é que vem crescendo, e precisamos reduzir custos para manter o índice de crescimento. A engenharia, por exemplo, é uma área que pode contribuir para a redução. Além disso, temos capacidade para exportá-la muito mais do que fazemos hoje. Nosso engenheiro é bom, pois sabe fazer modelos de qualidade com custo baixo. Precisamos utilizar mais nossas capacidades automobilísticas.
Em que pé estão os acordos bilaterais com blocos como a União Européia?
Golfarb – Tivemos recente reunião com a União Européia e vamos retomar as negociações agora. Com a ALCA não obtivemos progressos, mas vamos ver o que podemos fazer para reiniciar as negociações. Acordos com a Índia e África do Sul estão indo bem.
Um possível acordo que permita a redução de impostos para carros europeus não prejudicaria nossa indústria?
Golfarb – Eu não acredito nisso. Acho que existem ferramentas com as quais se desenham os acordos para que eles sejam complementares. Isto quer dizer que o objetivo é exportar o que a gente tem de melhor e, ao mesmo tempo, continuar importando veículos de alto luxo, que já não são fabricados por aqui.
China, México e Leste Europeu. Quais são os concorrentes e quais são os aliados do Brasil?
Golfarb – A China é um exemplo de política industrial bem estruturada, e ainda vai crescer muito. O Brasil tem competência e potencial para concorrer com os chineses, mas não podemos olhar para eles de maneira passiva. É preciso encarar a China como um competidor de respeito. O Leste Europeu tem recebido muitos investimentos e conta com grande vantagem geográfica. Mas acho que não são eles que vão fazer a diferença nos próximos dez ou quinze anos. China, Coréia e possivelmente Rússia deverão ser mais competitivos. O México ainda é um país de posição relevante, mas produz muito para os Estados Unidos. Temos que tratar o país como um grande parceiro, porque nós estamos exportando, e ele é nosso cliente.
E a Argentina?
Golfarb - A Argentina, para mim, é um aliado. O problema é que eles têm dificuldades que o Brasil já teve, e ainda tem. Gerar empregos é uma delas. Nós precisamos entender isso para exercitar nossa capacidade de negociar com a Argentina. É muito mais fácil atrair investimentos para o Mercosul do que para o Brasil, porque precisamos de volume.
Qual é a importância da indústria automobilística brasileira no contexto mundial?
Golfarb – Nós desenvolvemos competência em veículos compactos, com custo, qualidade e modernidade. Esse segmento é muito difícil quando se pensa em lucratividade, por causa do baixo preço dos modelos, e o Brasil conseguiu fazer isso. No universo dos países emergentes, nós contamos com a indústria mais madura, com engenharia, 17 montadoras instaladas e parque de autopeças capaz de produzir quase 100% da demanda de nossa indústria. Isso é um patrimônio, e por isso temos que manter nossa competitividade. Não dá para dormir no ponto, porque muitos países também querem ter uma indústria de automóveis consolidada.