O ex-piloto Bird Clemente, 71 anos, é um dos mais importantes nomes da história do automobilismo brasileiro. Nascido em São Paulo, em dezembro de 1937, Clemente ingressou no esporte aos 20 anos, quando disputou a terceira edição da Mil Milhas Brasileiras, em 1958, a bordo de um Fiat Millecento. Anos depois, passou a fazer parte da equipe de competições da Vemag, conquistando vitórias importantes em provas nacionais, e em 1963 foi convidado a integrar a equipe arqui-rival Willys. A proposta foi feita por Luiz Antonio Greco, que havia acabado de assumir a chefia da equipe Willys-Overland após a morte do piloto brasileiro Christian Bino Heins em um acidente na 24 Horas de Le Mans, na França.
Na Willys, Bird Clemente consagrou-se ao lado de companheiros como Luiz Pereira Bueno (Luizinho), Wilson Fittipaldi, José Carlos Pace e Chico Lameirão. Foi o primeiro piloto a vencer uma prova internacional a bordo do emblemático Berlinetta 22, durante as 200 milhas de El Pinar, no Uruguai, em 1964. Bird também participou do processo de profissionalização do esporte, já que foi o primeiro piloto assalariado da história do automobilismo brasileiro. De 1958 a 1974, ano em que encerrou a carreira, Bird disputou mais de 80 corridas.
Saudosista convicto, Bird Clemente tem verdadeira paixão pelo seu passado. Sente saudade dos tempos das corridas sem cronômetro, do volante sem botões, das ultrapassagens emocionantes. Na semana passada, o ex-piloto reencontrou amigos e contou parte de sua história no 1º Forum de Automobilismo Brasileiro, promovido pela FEI. Clemente fez questão de repetir que “participou das melhores equipes, guiou os melhores carros e cercou-se dos gênios que construíram a história do automóvel e do automobilismo brasileiro da época”, frase do prefácio de seu livro, ‘Entre Ases e Reis de Interlagos’, lançado no final do ano passado, pela editora Tempo e Memória. Numa conversa e outra com amigos, Bird concedeu uma rápida entrevista ao Carsale.
O que mudou no automobilismo?
Os tempos passaram. O mundo mudou. O automobilismo está na vitrine do desenvolvimento, da tecnologia. O brasileiro gosta muito de automobilismo. É uma coisa natural que ele se desdobrasse, que ele ficasse grandioso, importante. E isso aconteceu. Então, a nossa época foi muito mais romântica. Mas tudo na nossa época era mais simples. Ninguém ganhava tanto dinheiro como se ganha hoje. Não existia o satélite que transmite para o mundo inteiro, na mesma hora.

Esse romantismo ainda existe?
Quando eu comecei a palestra hoje, a primeira coisa que fiz foi pedir desculpas pelo amor que eu tenho pela minha geração, pela minha época, pelos anos dourados. Era muito mais romântico que hoje, não tenha dúvida. As pessoas tinham muito mais raízes, as coisas duravam mais, o tempo andava mais devagar. Você tem um celular e no ano que vem ele não presta mais. São coisas dos nossos tempos. A gente vivia algo muito mais romântico. Todo mundo fazia tudo com a mão. O engenheiro tinha que usar o compasso, a régua, o nanquim, o papel vegetal. Hoje ele senta no computador e faz tudo. E assim é a vida.
Como o sr. vê o automobilismo de hoje?
Acho as competições, como a Stock Car, fantásticas. Há investimento, é um espetáculo fantástico. Mas o espaço dos pilotos é cada vez menor. O piloto só consegue ultrapassar esfregando um carro no outro, é bem mais difícil. Os carros vão ficando mais modernos. Eu acho que no meu tempo era mais fácil que hoje. A gente simplesmente guiava o carro. A nossa grande malandragem era saber guiar o carro. Andar de ‘lado’, na nossa época, era um privilégio. Hoje o piloto tem que operar equipamentos sofisticados e, além de tudo, ter um preparo físico maravilhoso. É um piloto que tem poucas oportunidades, tem que saber matar um leão por dia.
E a Fórmula 1?
Olha, numa corrida de Fórmula 1, a gente torce para um determinado piloto. Durante toda a prova, vemos ele fazendo uma ou duas manobras que vão decidir alguma coisa. Antigamente, sabe, eram muito mais freqüentes os momentos de emoção. Agora o cara tem que ficar naquele ‘trenzinho’. E tem que ter muita competência para isso. Às vezes tenho medo de ser mal interpretado, porque eu respeito muito o trabalho dessa geração. É muito mais difícil que a minha época. Outra coisa, esses pilotos tiveram de começar com cinco anos de idade. A minha geração começou depois dos 18 anos, a maioria escondido do pai. É muito diferente, é outro mundo. A referência pitoresca desta história é maravilhosa, mas vamos olhar para tudo isso de uma forma romântica. Os pilotos jovens de hoje devem se virar, todo dia acontece alguma coisa. Se o jovem não se atualizar, está ‘frito’. (risos)
O que o sr. mudaria no automobilismo brasileiro?
Eu não conseguiria mudar nada. Porque as pessoas que organizam também tentam mudar. Existe uma evolução dos tempos e da tecnologia que não pode ser contida. Ela veio para ficar. Você não pode conceber que sua televisão não terá controle remoto. É outra vida. Todo mundo vive de outro jeito. Acho tudo isso muito bonito, muito bom. Mas, olha, sinceramente, eu não gosto do hoje não... Antigamente tudo tinha mais valor, a sociedade era mais disciplinada, os princípios eram diferentes.
Quais os momentos mais marcantes de sua carreira?
As vitórias com certeza são inesquecíveis. A que teve mais repercussão foi a Mil Milhas de El Pinar, no Uruguai (1964). Mas a prova mais difícil foi a de Almirante Tamandaré, no Rio de Janeiro, em 1967. Eu ganhei com o Bino Mark I, contra Lotus, Porsche e outros carros, debaixo de uma chuva terrível. Tem também a prova que fiz com meu irmão (Nilson Clemente), a Mil Milhas de 1973, considerada uma das mais importantes do automobilismo brasileiro.
Alguma vez o sr. sentiu medo de morrer?
Olha, o corredor de automóvel, quando sente medo, está na hora de parar. Porque a primeira coisa que ele tem que sentir é achar que é imortal. Se você sentir medo, não pode correr de automóvel. Não tem espaço para as duas coisas.

Como é ser parte tão importante da história?
Eu sinto uma obrigação, de cumprir esta missão, de cuidar da nossa memória. Eu fiz parte de um grupo muito importante no Brasil. Um grupo que construiu este automobilismo fantástico que nós temos hoje. Faço isso com muito amor, tenho muito prazer. Apesar da minha história ser pitoresca, eu tenho oportunidade de deixar uma lembrança para referência desses profissionais que estão surgindo hoje.
O sr. tem algum sonho não realizado?
Olha, eu sou um homem feliz. Eu adoro minha mulher, minha família. Puxa... Eu fiz tudo o que eu queria. Eu quando era garoto queria ser corredor de automóvel. Eu nunca podia imaginar que eu ia conseguir fazer tudo que eu fiz e com a minha idade, hoje, eu ainda ia cumprir essa missão. Nunca imaginei que iria me transformar em um símbolo. Fico muito honrado com tudo isso.