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 Horacio Pagani07/05/2008 

 Presidente da Pagani Automobili
Texto: Carina Mazarotto
Fotos: Divulgação (Joffre Oliveira)

Paixão não se explica. Talvez seja por isso que o argentino Horacio Pagani, 52 anos, criador do Pagani Zonda F, o carro mais caro já vendido no Brasil (R$ 4 milhões), não encontra muitas justificativas para definir sua admiração pelo automóvel. Nem é preciso. Se um gesto vale mais que mil palavras, o empresário conseguiu explicar, de A a Z, como nasceu seu amor pelas quatro rodas, durante sua visita ao País, na semana passada. Pagani participou da coletiva de imprensa de apresentação do Zonda F, trazido pela primeira vez ao mercado nacional pela Platinuss, importadora oficial da marca.

Bastou observá-lo. Peito empinado, olhos brilhantes, entonação de voz digna de um argentino orgulhoso de si - com todo direito. Aliás, uma definição no dicionário Aurélio para "paixão" chega muito perto dos gestos de Pagani: "entusiasmo vivo". Tão vivo que, com cerca de 1,60 metros de altura, ele se torna um gigante quando faz pose ao lado do Zonda F. E olha que o carro é imponente: tem motorzão Mercedes-Benz AMG V12 de 7.291 cm³, que lhe dá capacidade de produzir 659 cavalos de potência a 6150 rpm. É duro na queda ao frear em 4,4 segundos a partir dos 200 km/h, e leve no conjunto. Seus 1.230 quilos, alcançados principalmente pelo chassi construído de fibra de carbono - marca registrada de Pagani - ajudam o Zonda F a acelerar de 0 (zero) a 100 km/h em 3,5 segundos e alcançar velocidade máxima de 345 km/h. Mas não é só por isso que o simpático argentino tem todas as razões para ser, sim, feliz da vida.

Ainda menino, Horacio já se sentia apaixonado pelos automóveis e, aos 12 anos, começou a construir seus próprios modelos em madeira balsa e argila. E não parou mais. Quanto tinha 20, desenhou um F3 para o time oficial da Renault e, mais tarde, chegou à Modena, na Itália, terra dos grandes construtores, com a ajuda de Juan Manuel Fangio, cinco vezes campeão de Fórmula 1 e seu eterno ídolo. Iniciou sua trajetória como engenheiro de terceiro nível na Lamborghini, participando das primeiras idéias de projetos como o P140 e o cobiçado Gallardo. Não demorou muito e o "argentino-italiano" já dirigia um departamento de pesquisas na área de materiais compósitos, em 1987, que trouxe mais tecnologia aos carros da marca. Um exemplo foi o Lamborghini Countach Evoluzione, considerado o primeiro carro no mundo com chassi 100% de fibra de carbono, material que torna os automóveis muito mais leves e resistentes. Hoje, as inovações em materiais lhe rendem 15 patentes e afagos ao ego – a tecnologia está presente na maioria dos carrões de outras marcas, como Ferrari e Bugatti.

Idealista, Pagani queria mais. Em 1991, seguiu o sonho de construir seu próprio carro e abriu o estúdio Modena Design e, depois, a Pagani Automobili. Então apresentou o primeiro Zonda, modelo C12, em 1999, durante o Salão de Genebra, na Suíça, e depois seguiu para o Zonda S, Zonda F e o Zonda R. Atualmente sua empresa vale cerca de 100 milhões de euros e se dá ao luxo de produzir, no máximo, 20 unidades por ano. E não adianta insistir, diz ele, pelo menos por enquanto. Pagani parece não abrir mão do trabalho artesanal dedicado a cada modelo.

É tanta exclusividade que, durante a coletiva, mal pudemos chegar perto do Zonda F, já disputado por três compradores brasileiros munidos de R$ 4 milhões e mais alguns "trocados" para gastar com outras despesas da preciosidade. Mesmo assim, seu criador atendeu aos pedidos dos jornalistas, ligou o carrão e acelerou com gosto, até cobrir o ambiente com o som agudo do V12. Se admirar o "amarelinho" foi um colírio para os olhos, o que dizer sobre ouvi-lo? Aproveitamos a injeção de vibrações para ter uma conversa rápida e exclusiva com Horacio Pagani.

Carsale - Como nasceu sua paixão por carros?
Horacio Pagani - Em minha família não havia uma paixão pelo automóvel. Meu pai é padeiro e minha mãe era pintora, uma artista. Acredito que foi ela quem me transmitiu o gosto pelas coisas bonitas. Desde muito pequeno sentia esta paixão por automóveis. Não sei dizer como. Quando tinha 8 ou 10 anos, estava sempre procurando carros pelas ruas, principalmente os de motor traseiro. Sempre sonhei que iria chegar à Modena para fabricar meus carros, ainda com 10 ou 12 anos. Eu e um amigo argentino, que inclusive está aqui no Brasil para me visitar, começamos a construir nossos modelos, há 40 anos.

Carsale - Você imaginou que chegaria até aqui?
Horacio Pagani - Sim, absolutamente. Nunca tive dúvida. Sempre estive seguro que trabalhando seriamente, estudando, com bastante esforço, eu iria chegar. Nunca tive dúvida mesmo. E te digo mais. Hoje, com 52 anos, a minha relação com o automóvel representa a mesma paixão infantil de quando eu tinha 12 anos.

Carsale - Quais foram suas maiores dificuldades?
Horacio Pagani - As dificuldades... foram tantas! Eu cheguei à Europa com dinheiro apenas para comprar uma bicicleta e hoje minha companhia vale mais de 100 milhões de euros. Ninguém acreditava que um argentino chegaria à Itália para fabricar um automóvel, num lugar onde estão grandes marcas como Ferrari e Lamborghini. Isto parecia incrível! Mas tudo é possível quando se tem paixão, uma boa idéia, capacidade de criar um time de trabalho e de respeitar certos valores, como a moral e a ética. Eu tenho uma boa capacidade para trabalhar as pessoas, para criar um time. E meu time é muito, muito forte. Eu sozinho não poderia fazer nada. Mas com meu time, com certeza posso tudo.

Carsale - O que falta na indústria automotiva mundial?
Horacio Pagani - Reforço que é preciso trabalhar, sempre, para que os carros sejam menos agressivos ao meio ambiente, mas reconheço que já há um grande esforço dos construtores de todo mundo neste sentido. Algo que realmente falta nos carros é que eles transmitam emoção. Um carro deve transmitir emoção! As pessoas não compram um automóvel porque ele consome pouco ou porque tem espaço interno, compram porque gostam. Você elege um carro para ser seu porque ele te transmite emoção. É preciso continuar trabalhando para que o automóvel dê prazer aos seus compradores, mais que a preocupação com a parte técnica.

Carsale - Quais são suas inspirações?
Horacio Pagani - São muitas. A forma deste carro (Zonda F) se inspira em uma mulher, é muito sensual. Inspira-se também nos automóveis da Le Mans. Em um relógio Patek Philippe. Num barco de madeira. É inspirado no Renascimento, porque a chave do Renascimento era a intelectualidade manual. E eu acredito que, neste carro, é possível ver o trabalho de pessoas, como o meu e de meus colegas. Transmitimos a arte por nossas mãos.

Carsale - O Brasil é um país em potencial para a Pagani?
Horacio Pagani - A diferença de hoje para os anos 80 é muito grande. Antigamente a riqueza estava concentrada apenas em alguns lugares, como Arábia, Estados Unidos ou Europa. Hoje há gente rica, muito rica em todo o mundo, em todos os lados. Poucas, mas com muito dinheiro. Claro, não vamos fabricar 120 carros, mas talvez um deles não seja problema em países como o Brasil. Vemos que há muitos pedidos de todos os lados, independente do país. O mercado ampliou muito.

Carsale - Por que o Zonda F é tão especial? E caro?
Horacio Pagani - Porque foi feito com o máximo da tecnologia disponível, como você pode observar, com os mesmos materiais utilizados em um carro de Fórmula 1. Quando fabricamos, não pensamos em quanto custa. Queremos saber: esta é a melhor tecnologia, o melhor material? Ok, então vamos usá-los. É por isso que este carro vale muito. E, claro, porque é todo feito à mão e o trabalho manual na Europa é muito caro.



Carsale - Assim como uma obra de arte?
Horacio Pagani -Este carro é uma obra de arte.

Carsale - Quais são seus planos para o futuro?
Horacio Pagani - Para futuro temos sonhos, outras idéias, outros projetos, outros saltos. O que posso adiantar é que nossa fábrica é um fermento contínuo.

Carsale - Quem era Horacio Pagani com 22 anos, quando chegou à Itália?
Horacio Pagani - O mesmo de agora. O mesmo. Um garoto, com os mesmos sonhos. Atualmente, me sinto como no momento que comprei a bicicleta logo que cheguei à Europa. A vida deve ser vivida. Devemos estar conscientes de que o amanhã é incerto. Portanto sou uma pessoa muito feliz, que vivo intensamente cada minuto, os momentos tristes e felizes. E tudo o que fiz até chegar aqui, fiz gostando de cada coisa. E sigo desfrutando muito de cada momento, principalmente as coisas simples. Hoje, por exemplo, ganhei de presente a visita de um amigo de infância, aqui na apresentação do Zonda F para o mercado brasileiro. Estou muito, muito feliz.


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