17/05/2012 | 17:36
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Automóvel brasileiro é defasado, dizem especialistas

Sistema flex precisa melhorar a sua eficiência energética com novas tecnologias. Mais de 70% de todas as inovações aplicadas aos veículos nacionais vêm prontas de fora

Autor: Ricardo Couto/Foto: Divulgação
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TECNOLOGIA 7

Enquanto Estados Unidos, Europa e Ásia, com destaque para a China, avançam no desenvolvimento de tecnologia automotiva de ponta, o Brasil caminha a passos lentos nessa área, se restringindo, atualmente com algumas exceções, à tropicalização (adaptação às condições locais) de modelos concebidos no exterior e a poucas evoluções em componentes periféricos de motores flex.

Em termos de tecnologia, os carros brasileiros são despojados e muito defasados. Só agora eles estão começando a receber airbags e sistema de freios ABS, isso porque as normas de segurança estabeleceram que esses equipamentos devem se tornar obrigatórios em todos os veículos novos a partir de 2014.

No início de abril, o governo federal anunciou o novo Regime Automotivo, que estabeleceu novas regras para a indústria de veículos, exigindo o cumprimento de etapas mínimas de processos produtivos, maior índice de nacionalização de conteúdo (componentes) e de investimentos em inovação para as montadoras já instaladas e empresas que pretendem se estabelecer no país.

Das quatro grandes montadoras atuantes no Brasil, Fiat e Ford são as que estão mais avançadas na aplicação de tecnologia de conectividade e interatividade a bordo e no desenvolvimento de novas gerações de motores, mais econômicos e evoluídos, com menor defasagem em relação ao que está sendo feito hoje pelas matrizes em termos globais.

“Para os próximos anos, podemos esperar carros mais verdes e inteligentes. Pneus com baixo atrito de rolamento, motores mais eficientes com tecnologias realmente palpáveis, ou seja, soluções que o consumidor pode pagar e carros mais conectados”, afirma Ricardo Dilser, assessor técnico da Fiat.



Um exemplo disso, segundo ele, são as versões Economy, que usam soluções simples e de baixo custo para o consumidor, como os pneus verdes, motor com variador de fase no comando de válvulas (Fire Evo), calibração de pedal de acelerador e gerenciamento de motor mais eficiente voltado para o baixo consumo de combustível e redução nas emissões. “No futuro próximo, esta tendência deverá se fortalecer no setor automotivo”, explica.

De acordo com Dilser, a conectividade a bordo deve se massificar cada vez mais. Hoje, os carros da Fiat trazem sistemas que permitem a conexão sem fio de smartphones e dispositivos móveis, como iPod, ao equipamento do som do carro, aceitando a transferência de contatos da agenda telefônica (sem fio, pelo sistema Bluetooth) e a discagem por meio de comando de voz, como já acontece nos modelos da Ford com os sistemas  Sync e My Connection. “A conectividade deverá se ampliar e chegar definitivamente aos carros de entrada”, afirma.

Os carros brasileiros, segundo ele, ficarão mais seguros, com adoção de airbags e sistemas de freio ABS de série em todas as versões a partir de 2014, e também mais confortáveis, já que equipamentos como ar condicionado, vidros elétricos e direção hidráulica (ou elétrica) deverão se tornar mais baratos e, portanto, mais acessíveis. “Em resumo, o consumidor poderá esperar por carros mais verdes, inteligentes, confortáveis, seguros e conectados.”

Defasagem tecnológica

Lançado com o pretexto de elevar o nível tecnológico do carro nacional, o novo Regime Automotivo deveria ter atrelado às suas regras a produção de veículos mais eficientes e de menor consumo energético, o que exigiria dos fabricantes a introdução de algumas tecnologias hoje já implantadas nos automóveis na Europa, mas acabou deixando essa exigência de lado.

Mesmo com alguns pequenos e recentes avanços na área mecânica e em itens de conforto, a realidade é que os carros compactos brasileiros vêm caindo em competitividade no exterior.  “O Brasil está perdendo mercado exportador, inclusive para países latino-americanos, como Chile e México, onde há veículos importados mais evoluídos, entre eles europeus, coreanos, japoneses e chineses, por conta de anos de defasagem tecnológica de nossos produtos. Estamos atrasados e numa competição desigual”, diz Pedro Kutney, especialista em mercado e indústria automotiva e colunista do site Automotive Business e do Carsale.



A grande novidade hoje do carro compacto brasileiro é ter airbag e freios ABS, equipamentos já consagrados há muitos anos no exterior, até mesmo em veículos pequenos. “O Brasil ainda é tratado como país emergente pelos fabricantes, que vendem aqui carros defasados. Alguns deles são originários de marcas do Leste Europeu”, afirma Nivaldo Nottoli, ex-executivo do setor automotivo.

Apesar do atraso em relação aos países mais desenvolvidos, o país deve avançar na tecnologia de veículos flex, que foi criada exclusivamente para o nosso mercado. “Atualmente, grande parte das inovações da indústria automotiva vem do exterior, trazida por grandes sistemistas globais. São eles que levam adiante a inovação. Alguns poucos itens são desenvolvidos aqui, como os sistemas flex. Do ponto de vista de eficiência energética, o carro bicombustível nacional ainda é ruim. Tem um campo enorme a ser percorrido. Nosso país precisa avançar na aplicação de injeção direta, turbocompressor, motores downsizing, sistemas eletrônicos mais eficientes, entre outros. Tudo isso pode significar um ganho de eficiência, que pode ser obtido nesta década”, explica Kutney.

Na sua opinião, o mercado brasileiro poderá introduzir inovações em automóveis compactos e se tornar especialista em carros do segmento B, “mas só conseguirá desenvolver 30% dos componentes aqui, já que os 70% restantes virão de fora.”

Segundo os especialistas, boa parte de nossa defasagem tecnológica é associada às características do mercado brasileiro, que praticamente está começando a se motorizar e ainda vende muito carro popular. “Enquanto o Brasil não motorizar a sua população, não vai investir em tecnologia, porque aqui se vende carros simples, do segmento de entrada, ao contrário dos europeus, coreanos e japoneses. Estes países fizeram grandes investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Aqui, o que vale é preço. A tendência é o Brasil perder mercado no exterior, porque não temos produtos evoluídos para exportar, e ficar atrasado em relação aos demais”, afirma Nottoli.

Em entrevista recente ao Carsale, Henning Dornbusch, presidente da BMW do Brasil, afirmou que o desenvolvimento de pesquisa e tecnologia no país ainda está num estágio embrionário. “Não temos universidades e centros técnicos de excelência, sendo que tudo que é novidade por aqui vem de fora. Tínhamos que ter mais intercâmbio e integração com os grandes centros de pesquisa das montadoras no exterior e pensar em montar uma estrutura semelhante.”

Segundo o executivo, o motorista brasileiro não se importa com equipamentos de segurança ou itens de conforto sofisticados. “O principal argumento de venda para o consumidor ainda é o preço, já que este despreza componentes mais importantes, principalmente de segurança”, afirma.

A tecnologia no Brasil segue com atraso o que as matrizes desenvolvem em seus centros de pesquisas no exterior, atualmente centralizados na Ásia, Europa e nos Estados Unidos, declara o engenheiro Francisco Satkunas, conselheiro da Sociedade dos Engenheiros da Mobilidade (SAE). “Nosso país vai ser sempre um seguidor de tendências, porque as montadoras locais são apenas braços de multinacionais. Aqui, não existe pesquisa pura”, explica.



Para o engenheiro, o país deveria aproveitar melhor as inovações que já estão disponíveis nas matrizes. “Não devemos esperar que o Brasil tenha algum dia uma tecnologia excepcional”, afirma.  Mesmo assim, segundo Satkunas, o país deveria se concentrar na otimização dos carros flex, buscando maior eficiência energética, e na exploração de fibras naturais para aplicação em revestimentos de veículos, que é sua vocação natural.

De acordo com Gerson Fini, vice-presidente da divisão Gasoline Systems da Bosch, apesar de ainda pouco explorado pelas montadoras, os sistemas de partida a frio Flex Start, que pré-aquecem o combustível (no caso, o etanol) e dispensam o reservatório extra de gasolina, são uma grande tendência para os próximos anos. “Em 2015, teremos 50% dos veículos sem tanquinho. Em 2018, pode chegar a 90%”, afirma o executivo.

Por Ricardo Couto

Com colaboração de Carlos Guimarães, Leonardo Faria e Larissa Florêncio

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