27/04/2012 | 09:30
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Indústria de carros deve se reinventar até 2020

Veículos movidos a combustão montados na Europa já rodam até 30 km/litro e podem chegar aos 50 km/litro até o fim desta década. E no Brasil?

Autor: Ricardo Couto/Foto: Divulgação
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TECNOLOGIA 1

A poluição e os congestionamentos nas grandes metrópoles, associados aos altos preços dos combustíveis nos últimos anos, têm levado os grandes fabricantes globais na Ásia, Europa e Estados Unidos a desenvolverem veículos com motores a combustão cada vez mais econômicos e eficientes, com reduzido nível de emissões. A perspectiva de agravamento desse quadro, deve fazer com que invistam ainda mais em inovações na área automotiva. 

Estudo realizado recentemente pela Fundação Getúlio Vargas, em parceria com a Ernst & Young Terco, aponta que o preço dos combustíveis, como gasolina e diesel, deverá mais que dobrar até 2020, em função da defasagem entre o crescimento da demanda e a incorporação de novas reservas de petróleo. Já as consultorias internacionais, como o Boston Consulting Group, trabalham com projeções entre US$ 130 e US$ 180 o preço médio do barril no fim desta década - atualmente gira entre US$ 110 e US$ 120.

Até lá, os fabricantes europeus, que concentram os mais significativos avanços na tecnologia de motores compactos e econômicos, deverão melhorar ainda mais o rendimento energético de seus veículos, de forma a aumentar a sua autonomia em quilômetros e reduzir a emissões de poluentes. A marca de 30 km/litro já é alcançada hoje por alguns modelos movidos com motores turbodiesel na Europa e deverá se massificar por toda a indústria mundial. Até 2020, não seria demais supor esses carros alcançarem perto dos 50 km/litro, com a introdução de inovações no conjunto motor/transmissão e em outros componentes.

“Só na última década tivemos um ganho de 15% a 20% na autonomia dos veículos movidos com motores a combustão. Hoje, um motor de quatro cilindros produz quase tanta potência quanto um V8 dos anos 80, de 200 cv, que fazia de 5 km/l a 6 km/l. Comparado aos 10 a 12 km/l de um motor moderno atual a gasolina, com potência equivalente, esse ganho é de 100% nos últimos 20 a 30 anos”, afirma o colunista Pedro Kutney, especializado em indústria automotiva e colaborador do Carsale. 



Um exemplo europeu recente é o motor 1.0 EcoBoost da Ford (ilustração acima), de apenas três cilindros, que com ajuda de injeção direta, turboalimentação e bloco de alumínio produz de 100 cv a 125 cv, dependendo da configuração, o mesmo que muitos motores aspirados de 1,6 a 2,0 litros. Isso, sem falar, de uma variante 1.0 esportiva, que deverá atingir entre 170 cv e 180 cv, com turbo auxiliado por compressor elétrico. Essa é uma prova do que a tecnologia atual é capaz. O outro é o novo Fiesta ECOnectic, que acaba de ser lançado no mercado europeu. Equipado com motor turbodiesel, o carro é capaz de fazer uma média de 30,3 km/litro, de acordo com as normas do European Fuel Economy.

Entre as modificações que o hatch da Ford recebeu destacam-se alguns avanços da tecnologia, como calibragem fina do motor, reescalonamento das marchas, alterações na suspensão e modificações de alguns detalhes na carroceria para aumentar a eficiência aerodinâmica. Além disso, o modelo traz o start-stop (que desliga o motor quando o carro para em cruzamentos e volta a ligá-lo ao se tirar o pé do freio), sistema regenerativo que aproveita energia dos freios, indicador do momento ideal para troca de marchas e pneus de baixa resistência à rodagem (ou atrito com o piso), entre outros recursos.

A mesma preocupação com rendimento energético e redução de consumo de combustível está presente hoje nos Estados Unidos, um dos maiores consumidores do mundo de derivados de petróleo. Visando reduzir a dependência de fontes de energia externa, por exigência do governo federal os fabricantes americanos serão obrigados a produzir veículos com uma autonomia média de 23 km/litro até 2025, uma meta elevada considerando-se o padrão dos modelos vendidos naquele país. 

 “A frota de veículos nos Estados Unidos está mudando de perfil. Os motores V8 estão sendo banidos, dando lugar aos de quatro cilindros e os carros médios já respondem por 25% das vendas de novos. Há, no mundo, uma tendência muito grande de minimização dos motores”, afirma o engenheiro Francisco Satkunas, conselheiro da SAE Brasil (Sociedade dos Engenheiros da Mobilidade).

Fabricantes como Audi, BMW, Mercedes-Benz,Volkswagen e Ford têm liderado na Europa as inovações para motores a gasolina e a diesel, enquanto as francesas Peugeot e Citroën (agora associadas à General Motors) têm se destacado no desenvolvimento de tecnologia a diesel. Estados Unidos e Japão mostram que procuram recuperar terreno nessa área, haja visto o elevado número de patentes registradas por fabricantes e fornecedores de autopeças nos dois países entre 2000 e 2010, no que se refere a componentes voltados para a redução de emissões, turbocompressores, supercompressores  (para diesel e gasolina), sistemas de recirculação de gases do escapamento, sistema de comando de válvulas inteligentes e a redução de peso dos veículos, informa relatório do Boston Consulting Group. 

Com a atual massificação dos turbocompressores e a introdução de recursos tecnológicos como comandos variáveis de válvulas, injeção direta de combustível, entre outros itens, a potência dos motores deverá se manter elevada, mas os carros ficarão mais econômicos e terão menor nível de emissões de poluentes. “A utilização de motores a diesel, que já representa 50% das vendas de carros de passeio na Europa, também vai crescer no mercado americano. Até 2015, esses propulsores deverão chegar a 8% dos veículos por lá e atingir de 12% a 15% em 2020”, explica Satkunas.

Como fica no Brasil?

Hoje, enquanto os motoristas europeus e asiáticos rodam centenas de quilômetros sem precisar reabastecer, os brasileiros fazem contas para poder economizar alguns trocados na hora de escolher entre etanol ou gasolina nos carros flex (ver nos próximos artigos). 

Apesar do atraso tecnológico e do baixo rendimento energético dos motores bicombustíveis nacionais, a onda de motores eficientes deverá chegar ao Brasil a partir de 2014. Pelo menos duas montadoras já pesquisam a aplicação dessas novas tecnologias no país: a Ford com o motor EcoBoost e a Fiat com o MultiAir. Ambos poderão equipar os futuros compactos globais das duas marcas no país.

Segundo a Fiat, graças ao controle variável do tempo de abertura das válvulas de admissão de ar, o propulsor MultiAir oferece mais potência e disponibilidade de torque em todas as faixas de rotações, resultando em economia de combustível e baixa emissão de poluentes.

Por Ricardo Couto

Colaboraram Carlos Guimarães, Leonardo Faria e Larissa Florêncio

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