Caçador de Carros responde: Nissan Sentra ainda é uma boa compra?

Lá se vão mais de duas décadas em nosso mercado e ainda ouço algum preconceito com o Nissan Sentra. Todos os dias recebo dúvidas de interessados que estão considerando a compra desse sedã, mas ouviram do primo do amigo ou do vizinho que o câmbio é ruim, que o consumo de combustível é alto e que as peças de reposição são caras.

Já falei muito sobre o meu Sentra 2008 em vídeos e colunas, um modelo com câmbio automático do tipo CVT (de relações infinitas) que está prestes a completar 200.000 quilômetros rodados. Deixo bem claro que o carro não é perfeito, mas tem muitas qualidades e está longe de ter os principais problemas relatados. O câmbio CVT não é ruim e dificilmente vai apresentar problemas se a troca de óleo for realizada periodicamente, conforme a orientação da fabricante, assim como em qualquer outro carro. As peças de reposição são tão caras como as de qualquer outro sedã importado, mas felizmente a robustez mecânica do sedã faz com que a maioria das revisões sejam basicamente troca de fluidos e filtros.

Porém, restava a dúvida sobre o consumo de combustível, outro ponto que assombra a vida do Sentra no Brasil. Tomando como base o meu Sentra 2008, tenho conseguido ótimas médias, mesmo rodando a maior parte do tempo em ciclo urbano e com o ar-condicionado ligado. Da maneira que dirijo, as médias de 8 km/l e 9 km/l na cidade e até 14,5 km/l na estrada estão de bom tamanho para um motor de 2.0 litros com alta quilometragem. Como o meu carro é monocombustível, ou seja, só pode ser abastecido com gasolina, pensei que o problema poderia ser nos modelos mais novos com motores flex. Para responder essa questão, fiquei uma semana com um modelo 10 anos mais novo, um belo Sentra SL 2018 (o preço sugerido parte de R$ 106.350), na cor Branco Diamond, que compartilha praticamente o mesmo conjunto de motor e câmbio, porém com a possibilidade de ser abastecido com álcool. 

Mas antes de dar o spoiler do teste, os sete dias que fiquei com o carro levantaram outra questão: vale a pena comprar o Nissan Sentra? Isso porque há rivais competentes, com motores modernos e preços atrativos, e a Nissan parece não estar dando muita atenção ao seu sedã médio.

Em 2011, um grande amigo estava prestes a pagar cerca de R$ 55 mil por um Honda Fit LX 0km. Naquela ocasião, a Nissan oferecia a versão intermediária do Sentra pelo mesmo valor. Não foi difícil convencer esse amigo a desistir do caro e pelado Fit para levar o “barato” Sentra para casa.

Essa excelente relação custo-benefício foi o que sempre destaquei como a principal vantagem do Sentra. Na geração seguinte, pós-modelo 2014, o desenho mais equilibrado fez com que as vendas disparassem, mas aos poucos o apelo do preço baixo foi ficando para trás. De lá para cá, pouco foi agregado ao carro que já não consegue mais sustentar as boas vendas do passado.

Custando mais de R$ 106 mil, a versão testada é a topo de linha e vem recheada de equipamentos. Basta fazer uma consulta rápida para ver que a concorrência é melhor nessa faixa de preço. O Citroën C4 Lounge está na casa dos R$ 104 mil; Chevrolet Cruze LTZ dos R$ 110 mil; Volkswagen Jetta 2.0 TSI dos R$ 111 mil. Todos eles estão equiparados ao Sentra em termos de segurança e conforto, mas deixam o Nissan comendo poeira com seus modernos motores turbo. São respectivamente 173 cv de potência, 153 cv e 211 cv, contra os modestos 140 cv do Sentra. Vale dizer que, no mercado norte-americano, o Sentra é oferecido com motor turbo de 190 cv, algo que o tornaria bem mais interessante por aqui.

Mas se no mercado de modelos zero quilômetro o sedã da Nissan perdeu prestígio e apenas sobrevive frente à concorrência, no segmento de usados a relação custo-benefício do Sentra permanece inalterada. Pegarei como exemplo o modelo 2016, o primeiro a ser oferecido com controle de estabilidade e tração na versão SL. Por cerca de R$ 60 mil é possível levar um exemplar da versão citada para a casa – opção bem mais interessante que os campeões de venda Toyota Corolla e Honda Civic do mesmo ano, que ficam entre R$ 80 mil e R$ 90 mil nas versões mais completas.

Acredito que isso deverá acontecer futuramente com o exemplar 2018 que avaliei. Certamente, o sedã desvalorizará mais que a concorrência nos primeiros anos e continuará sendo uma boa opção de carro seminovo. Como já disse em outras colunas, o mercado de carros usados é mais justo, pois o consumidor paga a quantia que o mercado “entende” como sendo o valor real do carro e não um preço sugerido pela fabricante.

Mas, enfim, o Sentra flex é ou não é um carro gastão? Comigo não foi. Na verdade, se mostrou um carro bem acertado que faria com que eu economizasse uns bons trocados no final do mês quando comparado com o meu Sentra movido apenas a gasolina – afinal o álcool está bem mais barato que a gasolina na minha região (Grande São Paulo). Rodei cerca de 600 quilômetros, sendo metade disso numa pequena viagem até Tatuí, no interior paulista. A média final de 8,3 km/l com álcool surpreendeu e deixou claro que o problema está nos motoristas que não estão habituados a guiar de forma mais econômica. Talvez esse número fosse até melhor se a Nissan não fosse tão conservadora e aumentasse um pouco a taxa de compressão do motor, que ainda é a mesma de quando esse motor não era flex.

Concluo essa experiência com a certeza de que o Sentra precisa de melhorias para se manter competitivo, caso contrário cairá no esquecimento tal como aconteceu com o seu “primo” Renault Fluence, o qual compartilha a mesma mecânica. Enquanto isso não acontece, barganhe bem por um Sentra usado que eu tenho certeza que você não vai se arrepender.

Felipe Carvalho é o primeiro caçador profissional de carros do Brasil. Acesse o site www.cacadordecarros.com.br e saiba mais. Inscreva-se no canal do Caçador de Carros no YouTube e curta a página de Felipe no Facebook.

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