A Fiat anunciou nessa semana que o Palio deixará de ser oferecido no Brasil, depois de 22 anos e mais de 3 milhões de carros vendidos. São números de respeito, portanto o mínimo que eu posso fazer é essa coluna em homenagem ao simpático hatch nacional com sangue italiano.

Eu tinha 13 para 14 anos quando o “projeto 178” foi apresentado. Lembro-me como se fosse hoje desse grande lançamento. Em poucos dias, as ruas foram tomadas pelas duas únicas versões, EL e 16v. As configurações de entrada (ED e EDX) só viriam alguns meses depois. Tudo indicava que o Uno, já com mais de 10 anos de mercado sairia de linha, mas as boas vendas da “botinha ortopédica” a mantiveram no mercado até 2013. Por longos 17 anos, Palio e Uno dividiram espaço nas concessionárias Fiat.

Seguindo a tradição, o Palio tinha ótimo aproveitamento de espaço interno. É certo que hoje temos projetos mais modernos, mas em 1996 ele se mostrava superior aos concorrentes Gol, Fiesta e Corsa. E a Fiat mandou muito bem no design do carrinho, que tinha cantos arredondados por todos os lados. Eu confesso que não curti no início, mas não demorou para eu entender a sua beleza.

Tenho um carinho bem especial por toda linha Palio, afinal, me pegou bem na época que estava aprendendo a dirigir. Guiei muitas vezes a agradável Palio Weekend Stile 97 que meu pai teve, assim como o Siena ELX 2001 da minha mãe e um Palio Fire 2004 da minha irmã. Mas eu quero mesmo é registrar aqueles que considero os Palios mais inesquecíveis. Veja que não necessariamente foram os melhores, mas sim aqueles que considero mais marcantes.

  • Palio 16v

Não tem como não começar com o Palio 16V. Ele teve a dura missão de substituir os ótimos Uno 1.6 MPI e Uno Turbo. Com críticas positivas da imprensa, o Palio 16v fez bonito logo de cara. Eram apenas 1.020 kg para o ágil motor Torque 1.6 16v empurrar. Com 106 cv a 5750 rpm e 15,1 kgfm a 4500 rpm, o hatch chegava próximo dos 190 km/h e levava cerca de 10 segundos para cumprir a aceleração de 0 a 100 km/h. Mas deixando a ficha técnica de lado, o Palio também se destacava em itens de segurança ativa e passiva, oferecendo freios ABS e duplo airbag como opcionais. Além disso, tinha no catálogo um volante com aro de madeira, algo que nunca vi em nenhum Palio, assim como o raro teto solar, que me lembro ter visto apenas em unidades exibidas no Salão do Automóvel. O acabamento também era um destaque, com plástico de qualidade e tecido nas laterais de porta. Para completar, mostradores com fundo branco e rádio toca-fitas integrado ao painel. O interior do Palio era bem charmoso e fazia o Uno parecer um carro velho. Infelizmente, é quase impossível ver um exemplar em bom estado. O brasileiro, que tanto fala que é apaixonado por carros, gosta mesmo é de negligenciar a manutenção. Anotem aí, esse primeiro Palio nessa versão 16v tem tudo para se tornar item de colecionador. Eu gostaria de ter um exemplar na minha garagem, de preferência com o opcional das belas rodas de 14 pol.

  • Palio Fire 1.3 16v

Os Palios com motor 1.0 até vendiam bem, mas não eram bem vistos pelos donos. Fraco em desempenho e forte no consumo de combustível, o velho Fiasa ia bem nos mais leves Fiat 147 e Uno Mille, mas não combinava com a carroceria mais pesada do Palio. Para arrumar a casa, no ano 2000 a Fiat começou a oferecer a linha de motores Fire. De início, ofereceu apenas o mais forte, com 1.242 cm³ e 16 válvulas – é dele que vou falar. Como podem perceber, está mais perto de ser 1.2 do que 1.3, mas a Fiat optou pelo otimismo no arredondamento e comercialmente chamou o motor de 1.3 16v. Isso é só um detalhe, porque o que importa é registrar o quão fantástico foi esse motor em sua época. Graças ao emprego de alumínio, esse motor era 20% mais leve que o Fiasa. Foi o primeiro nacional à gasolina com acelerador eletrônico, algo que levou um tempo para se difundir por aqui. A taxa de compressão era das mais altas num motor à gasolina, e com isso conseguia ótimo rendimento, com bastante torque mesmo em baixas rotações. O interior tinha acabamento exclusivo, com partes do painel pintadas de prata, algo que me causou certa estranheza no início, mas fez escola e hoje esse tipo painel é visto em vários carros. Muito mais esperto e econômico que os Palios 1.0, só não vendia mais por conta da diferença de preço entre eles.

  • Palio ELX 25 anos

Para comemorar os 25 anos de Brasil, a Fiat caprichou no acabamento da versão intermediária ELX do Palio, já na sua primeira reestilização. Quando eu digo que caprichou, foi porque jamais veríamos outro Palio assim. Predominava o veludo nos bancos e nas laterais de porta, além do painel bem desenhado (melhor do que o que veríamos anos depois na segunda reestilização do modelo). O mesmo não posso dizer do volante, que se desgastava com pouco tempo de uso. Mas vamos esquecer essa parte pois não é legal falar mal de “defunto”. Na verdade, o acabamento era o mesmo da versão Stile, a mais cara da linha, mas com vendas quase nulas (pois é, teve Palio Stile com carroceria hatch e eu aposto que você nem lembrava disso). O ELX 25 anos foi mais representativo e marcante. O motor 1.0, já da família Fire, tinha 16v e bons 70 cv. A tocada era das melhores, pois o giro do motor subia rápido e era possível deixar alguns carros com motores maiores para trás.

  • Palio 1.8R

O Palio ficava mais bonito no modelo 2004, principalmente quando visto de frente, mas perdera um dos seus melhores motores, o Torque 1.6 16v. Numa época de parceria com a Chevrolet, coube aos motores da Família I da GM equipar as versões de topo da família Palio. Um ano depois, era a vez de ressuscitar a linha “R” que fez a sua fama nos Unos do final dos anos 80 e início dos 90. Acompanhei com entusiasmo o lançamento do modelo. Estavam lá os cintos de segurança vermelhos e as faixas decorativas, mas esqueceram de pintar a tampa do porta malas de preto, tal como era no Uno. De qualquer forma, fizeram um bom trabalho na estética do “esportivo”. Com cores vibrantes, a que mais chamou atenção foi a amarela, em um tom similar ao da Ferrari. Fez relativo sucesso e passou a ser comum ver o Palio 1.8R nas ruas. Tenho certeza de que será item de colecionador no futuro, mesmo tendo o 1.8 da GM embaixo do capô.

  • Palio Sporting

O Palio teve uma terceira reestilização, que foi tão mal sucedida que saiu de linha sem renovar o visual do Palio Fire, que continuou até pouco tempo atrás com o mesmo desenho de 2004. Se até a Fiat descartou esse visual, vou pular essa fase para ir direto para a segunda geração do Palio, apresentada como modelo 2012. Mais uma vez os italianos mandaram bem no design do Palio, que ficou bem mais moderno sem perder seu DNA de carro pequeno por fora e relativamente espaçoso por dentro. A Sporting será a versão mais memorável, sem dúvidas, pois os apliques esportivos de bom gosto fizeram do Palio um carro bonito de se ver. O motor já não era mais da GM, mas sim da família Tritec, desenvolvido numa antiga parceria entre BMW e Daimler/Chrysler. O 1.6 16v com 117 cv quando abastecido com álcool foi o mais potente nos 22 anos do Palio – é curioso ver que são apenas 11 cv a mais que o do primeirão da lista. Seria interessante colocar os dois numa pista para vermos quem se sairia melhor.

  • Palio Turbo

O leitor deve estar achando que estou louco, já que nunca tivemos motor turbo nos Palios. Mas teve na cabeça de um jovem, que na época do lançamento do Palio, criou a versão Turbo que infelizmente não saiu do papel. Sim, eu era esse jovem! Para escrever essa coluna, fui atrás desse desenho antigo que fiz para poder digitalizar e compartilhar com você (confira na galeria de fotos no início da matéria). Repare que, na minha interpretação, o Palio Turbo teria saias dianteiras, laterais e traseiras. Além disso, contava com um enorme aerofólio e teto solar. As rodas eu devo ter me inspirado em bananas, não lembro… Mas ficaram bonitas, ainda mais com os improváveis freios à disco perfurados nas 4 rodas. Se você for detalhista, vai reparar que trabalhei o assoalho num túnel de vento para deixar o carro mais aerodinâmico. Ah, e a grafia Turbo eu roubei do clássico Uno.

E você, meu caro leitor, tem alguma história para contar com o Palio? Fique à vontade para deixar nos comentários.

Felipe Carvalho é o primeiro caçador profissional de carros do Brasil. Acesse o site www.cacadordecarros.com.br e saiba mais. Inscreva-se no canal do Caçador de Carros no YouTube e curta a página de Felipe no Facebook.