A mais nova polêmica do governo de Donald Trump envolve o fim da chamada neutralidade da rede, aprovado esta semana pela FCC, comissão federal que é o equivalente americano da Anatel.

Estabelecida por Barack Obama em 2015, a neutralidade é o princípio de que os ISP (provedores de internet) — aqui nos Estados Unidos, megacorporações como AT&T, Verizon e Comcast; no Brasil, Vivo e Net, principalmente — devem tratar todos os dados transmitidos pela rede de forma igual, sem discriminação de nenhum tipo.

Ou seja: os provedores não podem alterar a qualidade (leia-se, velocidade e capacidade) de seus serviços de acordo com quem o está usando e/ou o conteúdo difundido.

O pacote mensal de internet que eu pago aqui para a AT&T tem de funcionar do mesmo jeito se eu uso, ou não, o streaming do Netflix; se eu roteio o sinal para um ou 20 smartphones; se eu falo bem ou mal do Trump no Facebook — e por aí vai.

O fim da neutralidade da rede, portanto, dá (ainda) mais poder às empresas de telecomunicações. Num exemplo estritamente comercial, sem a neutralidade a AT&T poderá criar pacotes de acesso a sites e aplicativos específicos, que serão privilegiados na distribuição de banda e funcionarão melhor para seus assinantes exclusivos – cujo papel será, basicamente, pagar mais para ter o mesmo que têm hoje.

Provedores poderão cobrar um valor extra pelo acesso ao Whatsapp, a sites adultos, a vídeos com os gols da rodada (é a lógica atualmente aplicada na TV por assinatura, inclusive no Brasil). Poderão também penalizar sites, portais e lojas virtuais que paguem ao ISP menos que os concorrentes.

Chevrolet Bolt é o primeiro passo da GM na direção do carro autônomo

Num exemplo extremo, abre-se caminho para o controle ideológico do conteúdo. Ao menos em tese, telefonemas do presidente a três ou quatro magnatas da internet podem resultar na derrubada de todos os sites de oposição; ou no desligamento da rede de dados numa região hostil ao governo, dificultando a organização rápida de protestos.

E o que isso tem a ver com carros?

Por ora, quase nada. Mas a indústria automotiva acompanha o assunto com atenção e, em pelo menos um caso, interveio diretamente junto à FCC defendendo o fim da neutralidade da rede.

“Do nosso ponto de vista, o uso de banda larga móvel num carro a 120 km/h numa estrada, ou parado em um gigantesco engarrafamento de trânsito, é um fenômeno fundamentalmente diferente de uma conexão de banda larga com fio na casa do consumidor, e por isso merece consideração sob um conjunto de regras que levem isso em conta”, disse a General Motors em uma recente carta enviada à comissão.

A Comcast também usou os carros autônomos em sua carta à FCC: “A comissão deve considerar que um tratamento mais flexível à priorização [de banda, eufemismo usado pelos ISP] pode ser oferecido e tornar-se benéfico ao público. Para carros autônomos, que podem precisar de transmissão instantânea de dados, proibir a priorização paga resultaria em obstáculo para inovações, em vez de incentivo a elas”.

O curioso (ou suspeito, dependendo de quem lê) é que, atualmente, não se prevê nenhuma utilização da rede móvel de dados para funções essenciais do carro autônomo – todos os sistemas necessários à autocondução, ou seja, que gerenciam a interação eficiente e segura entre os próprios veículos (V2V), entre os veículos e a infraestrutura (V2I) e entre os veículos e os pedestres (V2P), vão operar numa banda de frequência específica para uso em distâncias curtas, não provida pela Comcast e demais ISPs

Conclui-se que uma alta qualidade de conexão dentro do carro em movimento, esta sim dependente de priorização de banda, será apenas um item mercadológico para complementar o carro autônomo – um opcional que, por exemplo, permitirá aos ocupantes assistirem a séries em streaming enquanto são levados ao destino.

Isso explica o interesse da GM (e de todas as outras montadoras que não se manifestaram): motivos para cobrar mais do cliente sempre serão bem-vindos.

Claudio de Souza é jornalista desde 1994 e atua no setor automotivo há mais de dez anos. Ex-editor de UOL Carros e Carro Online, ele recebeu o prêmio SAE de jornalismo online em 2011.
Em sua visão, carro tem de ser bom, e não apaixonante. Nesta coluna, discute semanalmente assuntos globais do setor automotivo.
claudiodesouza.colunista@gmail.com