O que um carro revela sobre a cabeça de seu dono?

Não é de hoje a piadinha sobre a suposta relação entre tamanho e/ou preço do automóvel e a virilidade, para usar um eufemismo, do seu dono (no caso de ele ser homem): “Ah, fulano comprou um daqueles SUVs gigantes? Deve ser pra compensar alguma coisa, né?”

Mais ou menos o mesmo vale para o sujeito grisalho que encomenda um esportivo de 500 cavalos, põe um rayban aviador e sai guiando por São Paulo: “Esse aí tá na crise dos 50”, certamente comentarão alguns, entre maldosos e invejosos.

Pensando bem, nem precisa ser um carrão, na dimensão ou no preço, para fazer graça com isso. Até o Chery Celer usou esse argumento, num anúncio de TV memorável pela ruindade. Vale a pena ver (ou rever):

Mas esse assunto pode ser muito mais sério que isso. Em 2005, um artigo científico que hoje pode ser considerado clássico, escrito por Josh Lauer e apresentado à Pennsylvania University, nos Estados Unidos, analisou a obsessão dos americanos por SUVs.

Na ocasião, ainda era recente o lançamento do H2 (foto abaixo), versão mais acessível do Hummer, adaptação do veículo militar Humvee usado na Guerra do Golfo (1990-1) e que foi inicialmente fabricado para civis pela AMC (a General Motors assumiu a Hummer logo depois, mas teve de descartá-la na crise de 2008-9).

O H2 e sua ampla aceitação como símbolo de status, escreve Lauer, seria principalmente uma reiteração (ainda que inconsciente) do ideal americano de individualização e de autoproteção. Um executivo do setor automotivo chegou a afirmar que o carro (ou o tanque) seria perfeito se tivesse um par de metralhadoras acoplados ao teto.

Quando uma onda de crimes violentos assolou os centros urbanos dos EUA nos anos 1990, cresceram as vendas de armas, de spray de pimenta, de sistemas de alarme – e de SUVs.

O desejo de se isolar numa fortaleza sobre rodas e se proteger da barbárie das cidades, obviamente, não é exclusivo dos americanos. No Brasil, a onda dos aventureiros urbanos do começo dos anos 2000 (do tipo Idea Adventure e CrossFox) foi um mero ensaio para a atual predominância do SUVs como carro aspiracional das classes média e alta urbanas.

Pois nesta semana uma nova pesquisa nos EUA, desta vez em Stanford, na Califórnia, afirma que o tipo de carro também é indicador da opção política de seu dono.

Os autores usaram um algoritmo para analisar mais de 50 milhões de imagens captadas pelo Google Street View em 200 cidades americanas, e identificar nelas todos os carros (marca, modelo e ano) com fabricação a partir de 1990.

Esses dados foram cruzados com a performance dos partidos Democrata e Republicano nos distritos eleitorais que aparecem nas imagens.

A conclusão: áreas predominantemente republicanas, com moradores de direita e conservadores, têm muito mais SUVs e picapes. Onde os democratas – liberais, de centro-esquerda – costumam ganhar eleições, há muito mais sedãs.

Adaptar o resultado para o Brasil significaria, basicamente, dizer que SUV é “coxinha”, sedã é “mortadela”, se usarmos o dialeto da atual polarização política no país.

Será verdade? Fato é que, no Brasil, os SUVs são mais caros que os sedãs. Portanto, quem acha que ter dinheiro é ser coxinha vai concordar – porque a opção por um SUV seria diretamente relacionada ao poder aquisitivo.

Mas aqui nos EUA a diferença de preço entre as categorias acaba diluída nas modalidades de financiamento e leasing oferecidas pelas concessionárias. Escolher entre um SUV e um sedã é mais questão de gosto e/ou ideologia.

O que pude fazer para contribuir com Stanford, modestamente, foi passear pelo estacionamento do condomínio em que moro e reparar nos carros. Grosso modo, a proporção aqui é de três sedãs para cada SUV.

Casa perfeitamente com a tradição política dessa cidade, em que Hillary bateu Trump em 2016, o prefeito é democrata e a decoração das ruas homenageia a comunidade LGBTQ.

Claudio de Souza é jornalista desde 1994 e atua no setor automotivo há mais de dez anos. Ex-editor de UOL Carros e Carro Online, ele recebeu o prêmio SAE de jornalismo online em 2011.
Em sua visão, carro tem de ser bom, e não apaixonante. Nesta coluna, discute semanalmente assuntos globais do setor automotivo.
claudiodesouza.colunista@gmail.com