Nos últimos três anos, a Nissan realizou uma série de ações para “aprofundar as suas raízes” em solo brasileiro. Depois de inaugurar a fábrica de Resende (RJ) para nacionalizar os compactos March e Versa, em 2014, a marca japonesa patrocinou a escola de samba carioca Acadêmicos do Salgueiro e os Jogos Olímpicos Rio 2016, além de lançar o SUV Kicks em primeira mão no Brasil. Agora, a Nissan promove expedições para mostrar a história dos primeiros habitantes brasileiros, percorrendo sítios arqueológicos no interior do país a bordo da picape Frontier.

A primeira etapa da Expedição Nissan começou em setembro visitando sítios de arte rupestre em Minas Gerais. Já a segunda etapa, realizada entre os dias 21 e 24 de novembro, no interior dos estados da Bahia, Pernambuco e Piauí, serviu também para colocar à prova a recém-lançada Frontier SE 4×4. A versão intermediária chega importada do México por R$ 150.990 para impulsionar as vendas da terceira geração da picape, até então oferecida apenas na variante topo de linha LE 4×4 (R$ 166.700).

Para justificar o preço menor, a Frontier SE deixa de contar com o ar-condicionado digital de duas zonas, os faróis com acendimento automático, os bancos revestidos em couro (e a regulagem elétrica para o motorista) e o sensor de estacionamento traseiro. A central multimídia dá lugar a um rádio com tocador de CD/MP3 e entrada USB. Externamente, a picape perde os racks no teto, os estribos laterais e os ganchos de fixação deslizantes na caçamba.

Apesar da lista de equipamentos mais enxuta, a Frontier SE leva sob o capô o mesmo conjunto mecânico da versão mais cara: motor 2.3 biturbo a diesel de 190 cv de potência e 45,9 kgfm de torque, câmbio automático de sete marchas e tração 4×4 com reduzida.A expedição partiu de Petrolina, Pernambuco, cruzando a ponte Presidente Dutra sobre o Rio São Francisco, entrando no estado da Bahia pela cidade de Juazeiro. Depois de rodarmos por rodovias asfaltadas e estradas de cascalho, seguimos em direção ao antigo município baiano de Casa Nova, inundado na década de 1970 com a construção da barragem de Sobradinho. Para chegar às ruínas da cidade, é preciso atravessar dunas de areia fofa, terreno que exige o uso da tração 4×4. Bastou acionar o botão giratório no console, desligar o controle de tração (para evitar que o motor deixe de enviar potência às rodas ao detectar perda de aderência) e cravar o pé no acelerador para a picape chegar facilmente às margens do lago formado pelas águas do “Velho Chico”.

O novo motor com dois turbos (um pequeno para baixos giros e outro maior para altas rotações) tem entrega de torque linear, que fica mais evidente no uso fora-de-estrada. A picape mostrou boa disposição nos trechos mais complicados, como subidas em trilhas, pequenos lamaçais e até mesmo na hora de transpor o leito pedregoso de um rio seco pela estiagem do sertão nordestino.No asfalto, a Frontier é contida nas acelerações, mas depois que embala é preciso ficar atento ao velocímetro para não exceder os limites legais de velocidade – por isso o uso constante do controle de cruzeiro nas rodovias durante a viagem. O desempenho da picape é parecido com o das concorrentes, mas poderia ser melhor se o câmbio fosse mais esperto nas reduções de marcha. Em alguns momentos optamos pelas trocas manuais na alavanca para ultrapassar veículos lentos com uma margem maior de segurança.

Ainda na Bahia, seguimos até a divisa com o Piauí por uma estrada de terra repleta de buracos e valetas. Apesar das condições críticas, a suspensão traseira da Frontier fez a diferença em termos de conforto e dirigibilidade. Diferentemente do sistema de feixes de molas presente na maioria das picapes, o conjunto da nova Frontier é composto por um eixo rígido com molas helicoidais, fixado em cinco pontos de apoio no chassi. A suspensão proporciona um rodar mais firme, deixando a picape mais assentada em curvas e reduzindo os incômodos pulos da caçamba vazia em terreno acidentado.

Depois de rodarmos cerca de 100 quilômetros por rodovias com retas intermináveis, chegamos à cidade piauiense de Coronel José Dias, na região de São Raimundo Nonato, bem próxima dos sítios arqueológicos do Parque Nacional da Serra da Capivara. De Petrolina ao interior do Piauí foram percorridos aproximadamente 440 quilômetros no primeiro dia de expedição.

O segundo dia começou com um trecho off-road na Trilha da Energia, assim batizada pela fama de transmitir boas energias da natureza do sertão aos visitantes. O percurso fica dentro do Parque Nacional da Serra da Capivara, considerado pela Unesco um dos patrimônios da humanidade. No local há mais de 900 sítios arqueológicos com os primeiros vestígios do homem na América do Sul, como restos de fogueiras feitas há 50 mil anos e pinturas rupestres de até 29 mil anos.

Devido o tamanho da picape (5,25 metros de comprimento), eram frequentes as manobras para acessar os trechos mais estreitos das trilhas. Uma direção hidràulica mais leve e a presença do sensor de estacionamento traseiro (que deve ser vendido como acessório em concessionárias) deixariam a tarefa mais cômoda.Após a trilha, uma visita ao Museu do Homem Americano, em São Raimundo Nonato (PI), para conhecer de perto os vestígios do homem pré-histórico (utensílios, urnas funerárias, restos de esqueletos humanos) encontrados na região. O museu é dirigido pela arqueóloga Niède Guidon, que se dedica à preservação dos sítios arqueológicos do Piauí desde a década de 1970. Do alto dos seus 84 anos, Niède esbanja garra e entusiasmo para defender a causa, apesar da escassez de recursos e falta de apoio das autoridades.

De acordo com a arqueóloga, atrações como o Parque Nacional da Serra da Capivara em outras partes do Brasil recebem até 5 milhões de turistas por ano, mas a estrutura precária da região limita o acesso aos sítios arqueológicos do Piauí (foram apenas 25 mil visitantes em 2016). O Aeroporto Internacional de São Raimundo Nonato, por exemplo, contribui para essa limitação. Inaugurado no ano passado, o local que custou R$ 17 milhões aos cofres públicos não recebe potenciais turistas do parque por não ter estrutura para atender aeronaves de grande porte.Voltamos a Petrolina pelo mesmo trajeto da ida, exceto pela parada nas dunas das ruínas de Casa Nova. Depois de rodarmos mais de 900 quilômetros em rodovias, trilhas de grau médio de dificuldade e estradas de areia e terra, registramos um consumo médio combinado de 10,3 km/l de diesel. A Frontier SE até parece despojada em alguns aspectos, mas manteve o essencial para uma picape: a robustez. Segundo a Nissan, o modelo ganhará versões mais baratas no segundo semestre do ano que vem, quando será fabricada na Argentina com as “primas” de plataforma Renault Alaskan e Mercedes-Benz Classe X.

Viagem a convite da Nissan
Fotos: Divulgação

Ficha técnica

CarroceriaEm aço, quatro portas, cinco lugares, montada sobre chassi de aço
MotorDianteiro, longitudinal, injeção direta, turbo, intercooler, duplo comando de válvulas no cabeçote acionado por corrente, a diesel
Número de cilindros4 em linha
Número de válvulas16 (quatro por cilindro)
Taxa de compressão15,4:1
Cilindrada2.298 cm³
Potência190 cv a 3.750 rpm
Torque45,9 kgfm a 2.500 rpm
TransmissãoAutomática de sete marchas
Traçãotraseira, 4x4 e 4x4 reduzida
DireçãoHidráulica
Suspensão dianteiraIndependente, braços sobrepostos
Suspensão traseiraEixo rígido com molas helicoidais
Pneus e rodas255/70 R16
Freios dianteirosDiscos ventilados com ABS e EBD
Freios traseirosTambores com ABS e EBD
Tanque de combustível80 litros
Volume da caçamba1.054 litros
Altura1,85 m
Comprimento5,25 m
Largura1,85 m
Entre-eixos3,15 m
Peso em ordem de marcha1.985 kg
Carga útil1.050 kg
Ângulo de entrada31,6º
Ângulo de saída27,2º
inclinação máxima39º
Altura livre do solo292 mm
Diâmetro de giro12,4 m
Aceleração 0 a 100 km/h12,5 segundos
Velocidade máxima180 km/h