Carro com nome de Trump pode ser chinês pioneiro nos EUA

Marcas do maior mercado mundial de carros, a China, não operam nos Estados Unidos, enquanto marcas do segundo maior mercado mundial de carros, os EUA, operam na China e fazem muito sucesso — a Buick, divisão da General Motors, é muito maior no país asiático do que em casa, por exemplo.

A GAC, montadora chinesa até agora fora do radar da imprensa automotiva brasileira, pode ser a primeira a romper essa barreira comercial, geopolítica e cultural.

O nome significa Guangzhou Automobile Group, sendo Guangzhou sua cidade-sede – que também é palco de um dos três grandes salões automotivos chineses (os outros são em Pequim e Xangai). O evento abriu ao público nesta sexta-feira (17), e obviamente tem os modelos da GAC como grande destaque.

A estreia da marca nos EUA deve ocorrer no final de 2019, penúltimo ano do mandato de Donald Trump na Casa Branca. A aposta para o primeiro lançamento é o SUV GS8.

Trumpchi GS8: carro que une o nome do presidente americano e parece juntá-lo a parte do nome do país asiático.

O encantamento do presidente americano pelo líder chinês Xi Jinping, escancarado na recente viagem que fez pela Ásia – na qual esqueceu as bravatas de campanha e fez questão de enaltecer seus laços pessoais com o presidente comunista – pode até ajudar a GAC na conquista de um espaço no mercado dos EUA.

Há, no entanto, um primeiro obstáculo a ser resolvido: a marca de carros de passeio da GAC chama-se… Trumpchi.

Ou seja, não só contém o nome completo do presidente americano, como parece juntá-lo a parte do nome do país asiático.

“Pode ser confuso para o consumidor americano ter um carro chamado Trumpchi”, disse ao jornal The New York Times um consultor automotivo que trabalha para a GAC, aproveitando para lembrar que não existem marcas com Obama ou Clinton no nome.

A montadora chinesa garante que o nome em escrita ocidental é uma coincidência fonética, mas parece já estar avaliando uma nova identidade para entrar no mercado dos EUA – algo que, quando participou do Salão de Detroit este ano, disse que jamais faria.

Mudar o nome pode ser uma medida necessária, se considerarmos que menos de 4 em cada 10 americanos aprovam o governo de Trump atualmente. Mas é bom notar que, entre esses menos de 4, muitos transformaram aprovação em culto. Talvez adorassem comprar um carro, qualquer carro, que pareça homenagear seu ídolo.

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PASSADO
“Quanto? Dez mil dólares? Eu queria saber o preço de um só, não de dois!” A frase, cruel, foi dita por um norte-americano ao saber do preço do Kylin, um monovolume da Chang Feng que lembra o Renault Scénic. Dentro do carro, comentava-se o quanto o plástico do painel e outras partes internas é “cheap” (em português claro, vagabundo). “Just another piece of junk”, disse outro ianque, agora referindo-se ao hatch F3R, da BYD. Tradução aproximada: o carro é uma porcaria.

SONHO ADIADO
O trecho acima foi extraído de minha reportagem sobre o Salão de Detroit de 2008, quando carros chineses ocuparam um andar inteiro do centro de eventos daquela cidade americana. Marcas como Geely e BYD já sonhavam em entrar no mercado dos EUA – mas depois acabaram barradas por, entre outras coisas, deficiências na segurança.

SIGAM A COREIA
Quase dez anos depois, na edição 2017 de Detroit, em janeiro, a GAC montou um estande para testar a aprovação dos americanos. A opinião publicada pela Motor Trend é quase consensual: “A GAC parece ter atingido o nível de qualidade obtido por marcas coreanas em carros de duas gerações atrás”. O comentário atribui ao desenvolvimento da chinesa um atraso entre 12 e 16 anos em relação a Hyundai e Kia. No entanto, ressalva que seus carros não serão “motivo de piada” quando chegarem, pelo menos não por muito tempo.

ESTADO EMPRESÁRIO
A GAC é uma empresa estatal. Como outras montadoras chinesas, têm acordos para a fabricação local de modelos de grupos globais: no caso, Toyota, Honda e Fiat Chrysler Automobiles (FCA), esta já considerada uma potencial prateleira da Trumpchi nos EUA, devido à rede de concessionárias. Vale notar que a chinesa tem apenas sete anos e já vendeu cerca de 800 mil carros em seu país. Segundo executivos, caso passe de 200 mil unidades exportadas e vendidas nos EUA, estudaria iniciar produção local. Trump vai gostar de saber disso.

Claudio de Souza é jornalista desde 1994 e atua no setor automotivo há mais de dez anos. Ex-editor de UOL Carros e Carro Online, ele recebeu o prêmio SAE de jornalismo online em 2011.
Em sua visão, carro tem de ser bom, e não apaixonante. Nesta coluna, discute semanalmente assuntos globais do setor automotivo.
claudiodesouza.colunista@gmail.com

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