O Renault Kwid é um dos lançamentos mais comentados do mercado brasileiro nos últimos anos. Cercado de expectativa por parte da imprensa, do público e da concorrência, o carrinho estreou no começo do mês com a ousada proposta de entregar o estilo e a altura livre do solo de um SUV em um subcompacto com preços agressivos. Ainda é cedo para dizer até quando a Renault manterá esses valores, mas a estratégia adotada já fez as marcas rivais reajustarem as tabelas de preços de alguns modelos.

Considerado um dos principais concorrentes (senão o principal) do Kwid por conta do tamanho e da proposta urbana, o Fiat Mobi chegou a ser visto como carta fora do baralho em um comparativo por ficar distante do Renault em termos de preços – cerca de R$ 4 mil a mais com pacotes de equipamentos de série equivalentes. Percebendo que o novato não está para brincadeira, a Fiat tenta equilibrar a disputa baixando o preço do Mobi Like de R$ 39.780 para R$ 35.990 (pelo menos até 31 de agosto).

Devido a indisponibilidade do Mobi Like para as fotos, utilizamos uma unidade da versão Drive para mostrar as diferenças de estilo e proporções em relação ao Renault Kwid.

Nesta disputa confrontamos o Mobi Like com o Kwid Zen, versão intermediária de R$ 34.990 vista pela própria Renault como a de melhor custo-benefício. Ambos são equipados de série com ar-condicionado, vidros dianteiros e travas com acionamento elétrico, rodas de aço de 14 polegadas com calotas, direção assistida (elétrica no Kwid e hidráulica no Mobi), freios com ABS e airbags frontais. Na parte de segurança o Renault ainda traz airbags laterais, dois pontos Isofix para a ancoragem de cadeirinhas infantis e três encostos de cabeça no banco traseiro (o Fiat tem só dois).

Em contrapartida o Mobi Like possui painel com conta-giros, banco traseiro bipartido e volante com regulagem de altura, mas o só o Kwid Zen tem de série a abertura interna do porta-malas.Nenhum dos dois sai de fábrica com rádio. Quem quiser escutar música no Kwid terá de pagar R$ 400 a mais pelo equipamento que traz o básico: recepção AM/FM, portas AUX e USB e Bluetooth. A central multimídia Media Nav com câmera de ré está disponível apenas na versão Intense (R$ 39.990). Já o Mobi oferece por R$ 2.511 o sistema de conectividade Live On, que conta com os mesmos recursos do rádio do Kwid, além do suporte para smartphones no painel e a tela de TFT no quadro de instrumentos. Há também o kit Connect (R$ 2.194) com rádio e quatro-alto falantes. Os dois pacotes incluem limpador, lavador e desembaçador do vidro traseiro, que são itens de série no Renault.

Já contamos que o Kwid é um projeto para mercados emergentes, concebido com soluções para enxugar ao máximo os custos de produção. Mas o modelo fabricado no Brasil recebeu diversas mudanças estruturais (aproximadamente 140 kg de reforços) e equipamentos para deixá-lo mais seguro e menos espartano que o Kwid indiano. Para carregar o peso extra, a Renault trocou o motor de 0.8 litro de 54 cv pelo novo SCe 1.0 12V de três cilindros, que gera até 70 cv com etanol. O propulsor é uma versão simplificada do que equipa Sandero e Logan (82 cv).O Mobi é construído sobre uma versão encurtada da plataforma do Uno, com o qual compartilha uma série de componentes e o novo motor Firefly 1.0 de três cilindros na versão Drive (parte de R$ 41.260). Na configuração Like o subcompacto é movido pelo veterano Fire 1.0 8V de quatro cilindros de 75 cv.

Por serem modelos de entrada, Kwid e Mobi têm acabamento simples todo em plástico rígido, mas a qualidade das peças e da montagem do Renault é superior. No Mobi ainda é possível notar algumas rebarbas. Embora utilizem bancos dianteiros com encosto inteiriço, a densidade do estofamento do Kwid é mais firme, garantindo maior conforto em trajetos longos.Pequeninos, os dois modelos têm suas limitações na hora de acomodar passageiros. Eles se equivalem no espaço para as pernas dos ocupantes da frente, com pequena vantagem lateral para o Mobi. Na cabine estreita do Kwid o motorista dirige praticamente encostado na porta e muito próximo do passageiro. No banco traseiro, porém, o Renault dispõe de maior folga para as pernas de até dois ocupantes por conta do entre-eixos maior. Já o porta-malas de 290 litros do Kwid parece um latifúndio diante do compartimento de 215 litros do Mobi.

A posição de dirigir ideal é encontrada mais facilmente no Mobi devido a coluna de direção com ajuste de altura. O Kwid compensa esse deslize de ergonomia com comandos melhor posicionados, câmbio com engates mais precisos, além da direção elétrica levinha e com volante pequeno de ótima empunhadura.Por ser mais leve que o rival, o Kwid é mais esperto que o Mobi no trânsito urbano, embalando com maior desenvoltura e exigindo menos reduções de marchas na hora de encarar subidas. Essa vantagem também é percebida em acelerações e retomadas na estrada. Já o Mobi Like carece do motor Firefly da versão Drive para entregar desempenho parecido com o do Kwid (veja os números dos testes abaixo).

A combinação do baixo peso aliado a um propulsor mais moderno também fez a diferença nas provas de consumo, vencidas pelo Kwid, que atingiu médias parecidas com as do Mobi Drive, o carro mais econômico testado pelo Carsale e o Instituto Mauá de Tecnologia em 2016.

Um dos chamarizes do Kwid, o slogan “o SUV dos compactos” faz referência aos generosos 18 centímetros de altura livre do solo (quase 4 cm a mais que o Mobi) e dos ângulos de ataque e saída que garantem a classificação de utilitário esportivo compacto nos critérios do Inmetro. Essas características favorecem o Renault nas tarefas cotidianas, como superar a buracos e lombadas na cidade, em contrapartida expõem as limitações do subcompacto quando é preciso pegar estrada. Acima dos 100 km/h, condição em que começa a faltar potência para manter velocidades de cruzeiro, a frente do carro flutua e a direção passa a sensação de que as rodas estão perdendo contato com o chão. Para piorar essa impressão, o pedal de freio é um tanto borrachudo nas frenagens – quesito no qual o Kwid perdeu para o Mobi por quase um carro de diferença.Apesar de mais lento e com acerto de suspensão menos firme que o Kwid, o Mobi transmite maior confiança ao motorista em velocidades mais altas.

O Kwid Zen vence o comparativo por superar o Mobi Like em praticamente todos os quesitos. Mais barato e equipado que o rival, ele ainda foi melhor nos testes de consumo e desempenho. Mas fica a ressalva para o seu comportamento na estrada. Embora seja um veículo de proposta urbana, vale considerar que ele será o único carro de muitas famílias brasileiras, portanto será utilizado em diversas condições. Já o Mobi Like, além de dever equipamentos (apesar de mais caro), prova que já passou da hora da Fiat aposentar o motor Fire 1.0.

Veja também:Mais barato do Brasil, Chery QQ enfrenta Fiat Mobi à espera do Renault Kwid

Teste Carsale-Mauá

 
Renault Kwid Zen
Fiat Mobi Like
Consumo cidade12,2 km/l (e)
14,9 km/l (g)
9,6 km/l (e)
13,3 km/l (g)
Consumo estrada14,6 km/l (e)
20,8 km/l (g)
12,9 km/l (e)
17,2 km/l (g)
0 a 60 km/h5,41 segundos (e)
5,88 segundos (g)
6,15 segundos (e)
6,50 segundos (g)
0 a 100 km/h13,53 segundos (e)
14,47 segundos (g)
16,63 segundos (e)
17,76 segundos (g)
0 a 120 km/h20,78 segundos (e)
22,90 segundos (g)
26,28 segundos (e)
29,22 segundos(g)
Retomada 40 a 100 km/h13,09 segundos (e)
13,95 segundos (g)
16,47 segundos (e)
17,55 segundos (g)
Retomada 80 a 120 km/h15,47 segundos (e)
17,30 segundos (g)
21,95 segundos (e)
23,63 segundos (g)
Aceleração em 400 metros18,91 segundos - 115,75 km/h (e)
19,32 segundos - 112,87 km/h (g)
20 segundos - 109,28 km/h (e)
20,43 segundos - 106,36 km/h (g)
Aceleração em 1000 metros35,36 segundos - 143,61 km/h (e)
35,78 segundos - 140,70 km/h (g)
37,59 segundos - 134,33 km/h (e)
38,61 segundos - 130,51 km/h (g)
Frenagem 100 a 0 km/h53,4 metros50,3 metros

Ficha técnica

Renault Kwid ZenFiat Mobi Like
CarroceriaMonobloco em aço, cinco portas, cinco lugaresMonobloco em aço, cinco portas, cinco lugares
MotorDianteiro, transversal, injeção multiponto, comando de válvulas no cabeçote acionado por corrente, a gasolina e/ou etanolDianteiro, transversal, injeção multiponto, comando de válvulas no cabeçote acionado por correia dentada, a gasolina e/ou etanol
Número de cilindros3 em linha4 em linha
Número de válvulas12 (quatro por cilindro)8 (duas por cilindro)
Taxa de compressão12:112,15:1
Cilindrada999 cm³999 cm³
Potência (gasolina/etanol)66/70 cv a 5.500 rpm73/75 cv a 6.250 rpm
Torque (gasolina/etanol)9,4/9,8 kgfm a 4.250 rpm9,5/9,9 kgfm a 3.850 rpm
TransmissãoManual de cinco marchasManual de cinco marchas
TraçãoDianteiraDianteira
DireçãoElétricaHidráulica
Suspensão dianteiraIndependente McPhersonIndependente McPherson
Suspensão traseiraEixo de torçãoEixo de torção
Pneus e rodas165/70 R14, de aço com calotas165/70 R13, de aço com calotas
Freios dianteirosDiscos sólidos com ABS e EBDDiscos sólidos com ABS e EBD
Freios traseirosTambores com ABS e EBDTambores com ABS e EBD
Tanque de combustível38 litros47 litros
Volume do porta-malas290 litros215 litros
Altura1,47 m1,49 m
Comprimento3,68 m3,56 m
Largura1,58 m1,63
Entre-eixos2,42 m2,30 m
Peso em ordem de marcha798 kg907 kg
Carga útil375 kg400 kg
Ângulo de entrada24ºn/d
Ângulo de saída40ºn/d
Altura livre do solo180 mm146 mm

Fotos: Guilherme Silva e Divulgação..