Comercializado no Brasil em regime de pré-venda desde junho, o Renault Kwid foi oficialmente lançado no Brasil nesta quinta-feira (3) com o preço inicial de R$ 29.990 como principal motivo de compra. Além disso, a Renault aposta na crescente demanda por utilitários esportivos no País, aproveitando alguns predicados técnicos, para classificá-lo como o “SUV dos compactos” e atrair potenciais clientes de modelos de entrada de outras marcas.

O Kwid estreia como o segundo carro mais barato do Brasil, atrás apenas do novo Chery QQ Smile (R$ 25.990), mas custando cerca de R$ 4 mil a menos que o Fiat Mobi Easy (R$ 34.210). As configurações de entrada dos três compactos não possuem direção assistida e nem ar-condicionado, trazendo apenas os obrigatórios freios com ABS e airbags frontais. No entanto, o Kwid é o primeiro modelo de entrada nacional a contar com os airbags laterais de série.

Veja abaixo os principais equipamentos de série de cada versão:– Kwid Life (R$ 29.990): dois airbags frontais, dois airbags laterais, freios com ABS, dois pontos de ancoragem Isofix, predisposição para rádio, indicadores de troca de marchas e de condução no painel, rodas de aço de 14 polegadas com calotas.– Kwid Zen (R$ 34.990): adiciona direção elétrica, ar-condicionado, vidros dianteiros e travas com acionamento elétrico, retrovisor interno com função dia/noite, revestimento do porta-malas, tomada 12 Volts, limpador do vidro traseiro, adesivo lateral. Opcional: rádio com Bluetooth e entradas USB e AUX e dois alto-falantes (R$ 400).– Kwid Intense (R$ 39.990): itens da Zen, mais maçanetas na cor da carroceria, retrovisores elétricos, apoio de cabeça para o terceiro passageiro do banco traseiro, computador de bordo, desembaçador do vidro traseiro, faróis de neblina com moldura cromada, abertura elétrica do porta-malas, rodas com calotas Flexwheel, chave canivete e central multimídia Media Nav 2.0 com câmera de ré e GPS.

Em tempos de carros cada vez mais caros no Brasil, como a Renault conseguiu posicionar um modelo inédito abaixo dos R$ 30 mil? Resposta: enxugando os custos em praticamente quase todas as etapas de produção. Apesar de o Kwid fabricado em São José dos Pinhais (PR) ter recebido severas mudanças estruturais em relação ao modelo indiano, ele utiliza 40% de componentes importados do país asiático. De acordo com a Renault, sai mais barato trazer lotes de peças da Índia, mesmo com os custos de transporte, logística, imposto aduaneiro de 30% e cotação do dólar desfavorável.A marca francesa destaca também o fato de o Kwid ser um carro “pensado do zero” para custar pouco. “Simplificar um modelo que já existe para custar menos acaba saindo mais caro do que criar um carro novo”, explica Manuel Tavares, chefe de engenharia do Kwid para a América Latina. Por fazer parte do projeto 2ASDU, cuja plataforma de carros de baixo custo é compartilhada com o Datsun Redi-Go vendido na Ásia e originará outros quatro modelos, o Kwid não utiliza peças de nenhum outro carro da Renault.

Além disso, o compacto utiliza uma série de soluções para baratear a sua fabricação. Começando pela cabine, ele segue o exemplo do Fiat Mobi e do Volkswagen up! para utilizar bancos dianteiros inteiriços, dispensando a produção dos encostos de cabeça. Na versão de entrada, o espelho interno não possui o botão dia/noite para evitar ofuscamento e nem conta-giros no painel. Para continuar economizando na parte de dentro, a Renault dispensou a forração nas laterais do porta-malas e a preparação para som permite apenas a instalação de dois alto-falantes.

Olhando o Kwid por fora, ele remete ao saudoso Fiat Uno Mille por trazer somente um limpador de para-brisas – solução também adotada pela Toyota no Etios. As rodas com apenas três parafusos (que não interferem na dinâmica do carro) também fazem parte da estratégia para economizar.

Sob o capô, o Kwid leva uma versão simplificada do novo motor SCE 1.0 12V de três cilindros, que estreou no Logan e no Sandero. Os comandos variáveis de válvulas para admissão e escape foram substituídos por um comando simples. Enquanto nos modelos maiores o propulsor desenvolve 79/82 cv de potência e 10,2/10,5 kgfm de torque (gasolina/etanol), no Kwid esses números caíram para 66/70 cv e 9,4/9,8 kgfm, respectivamente – ainda assim são melhores que os 54 cv e 7,3 kgfm do motor de 0.8 litro do Kwid indiano.

Além de ser fabricado no Brasil, o motor SCE 1.0 também foi escolhido para compensar o peso que o Kwid nacional ganhou com os reforços estruturais. Para evitar vexame igual ao do modelo indiano, que zerou nos testes de colisão do Global NCAP, a Renault utilizou aços de alta resistência em partes do assoalho, longarinas, colunas A e B, nas portas e no teto. Esses componentes de segurança, junto com os novos isolamentos acústicos, elevaram o peso do compacto entre 100 e 118 quilos, dependendo da versão.

Afinal, o Kwid é um SUV?
Segundo o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV) do Inmetro, sim. Apesar da carroceria pequena, a altura livre do solo de 18 centímetros (3 mm a mais que o Honda HR-V) e os ângulos de entrada e saída de 24º e 40º, respectivamente, enquadram o Kwid nos requisitos exigidos pela entidade.

De acordo com o Inmetro, um modelo pode ser considerado um SUV se atender quatro dos cinco seguintes itens: ângulo de entrada mínimo de 25º com tolerância de -1º; ângulo de saída mínimo de 20º com tolerância de -1º; ângulo de transposição de rampa mínimo de 14º com tolerância de -1º; altura livre do solo de 200 mm com tolerância de -20 mm; altura livre do solo sobre os eixos dianteiro e traseiro mínima de 180 mm com tolerância de -20 mm.O Kwid foi concebido para custar pouco, mas deixou boa impressão no rápido teste-drive pelas ruas de São Paulo. Avaliamos a versão intermediária Zen, que se mostrou “honesta” para um carro zero quilômetro de R$ 35 mil. O acabamento da cabine utiliza plásticos simples, mas é bem montada – na versão Intense há apliques black piano (preto brilhante), maçanetas cromadas e detalhes na cor cinza. No carro testado não vimos peças com rebarbas ou mal encaixadas.

Nas primeiras propagandas veiculadas na internet, a Renault bem que tentou comparar o espaço interno do Kwid com o do Volkswagen up!, mas não notamos a superioridade alardeada pela marca francesa. A impressão é que o motorista e o passageiro da frente viajam com um pouco mais de folga no up!, enquanto os ocupantes do banco traseiro têm espaço semelhante. O porta-malas de 290 litros do Kwid leva uma pequena vantagem de cinco litros em relação ao bagageiro do Volkswagen.O banco do motorista e o volante (de diâmetro correto e ótima empunhadura), não possuem regulagem de altura. Os comandos do carro estão bem localizados, mas é necessário um tempinho para o motorista se acostumar com os botões dos vidros elétricos posicionados abaixo do rádio. O interior do Kwid, de fato, pouco lembra os outros carros da Renault (exceto pela central multimídia da versão mais cara).

Espertinho, o compacto de apenas 798 quilos mostrou boa desenvoltura no trânsito da capital paulista devido o bom casamento do motor SCE 1.0 com o câmbio manual de cinco marchas que também é exclusivo. A transmissão (fabricada no Chile e criada especialmente para os carros do projeto 2ASDU da Aliança Renault-Nissan) tem engates mais curtos e macios que a caixa usada no Sandero/Logan. Segundo os dados de fábrica, o compacto leva 14,7 segundos para chegar aos 100 km/h e atinge os 156 km/h de velocidade máxima.Os números de desempenho são condizentes para a proposta do carro, mas a Renault prefere frisar que o Kwid também é econômico no que diz respeito ao consumo de combustível. O modelo tirou a nota máxima (triplo A) nos testes do Inmetro, registrando médias de 14,9 km/l na cidade e 15,6 km/l na estrada com gasolina e 10,3 km/l e 10,8 km/l, respectivamente, com etanol.

Seguindo o exemplo dos outros modelos da Renault vendidos no Brasil, o Kwid tem o bom acerto de suspensão para encarar o castigado asfalto brasileiro. Os 18 centímetros de altura livre do solo fazem a diferença na hora de atravessar valetas, passar por ruas esburacadas e sobre lombadas.

Por conta dos preços agressivos (até quando a Renault vai manter essa estratégia?), o Kwid tem condições de atingir um bom volume de vendas nos próximos meses para abocanhar um espaço entre os modelos mais vendidos em 2018. Comparado com o seu principal rival, o Fiat Mobi, ele ainda custa menos e tem predicados que fazem a diferença no uso diário: espaço interno superior, porta-malas mais espaçoso e uma central multimídia de verdade.

Teste-drive a convite da Renault
Fotos: Guilherme Silva e Divulgação

Ficha técnica

CarroceriaMonobloco em aço, cinco portas, cinco lugares
MotorDianteiro, transversal, injeção multiponto, comando de válvulas no cabeçote acionado por corrente, a gasolina e/ou etanol
Número de cilindros3 em linha
Número de válvulas12 (quatro por cilindro)
Taxa de compressão12:1
Cilindrada999 cm³
Potência66/70 cv a 5.500 rpm (gasolina/etanol)
Torque9,4/9,8 kgfm a 4.250 rpm (gasolina/etanol)
TransmissãoManual de cinco marchas
TraçãoDianteira
DireçãoElétrica
Suspensão dianteiraIndependente McPherson
Suspensão traseiraEixo de torção
Pneus e rodas165/70 R14, de aço com calotas
Freios dianteirosDiscos sólidos com ABS e EBD
Freios traseirosTambores com ABS e EBD
Tanque de combustível38 litros
Volume do porta-malas290 litros
Altura1,47 m
Comprimento3,68 m
Largura1,58 m
Entre-eixos2,42 m
Peso em ordem de marcha798 kg
Carga útil375 kg
Ângulo de entrada24º
Ângulo de saída40º
Altura livre do solo180 mm
0 a 100 km/h14,7 segundos
Velocidade máxima156 km/h