O Fiat Uno tem uma respeitável história em nosso País. Lançado em 1984, está apenas em sua segunda geração. Levando em conta que a primeira durou bons 29 anos, essa atual com apenas sete é apenas uma criança.

Para 2017, a grande novidade está debaixo do capô. A nova família de motores Firefly promete superar a anterior em todos os pontos e brigar de igual para igual com a concorrência. Os antigos 1.0 e 1.4 de 4 cilindros deram lugar a modernos 1.0 de 3 cilindros e 1.3 de 4 cilindros, todos com 2 válvulas por cilindro.

Por cortesia da Fiat, fiquei uma semana com um “completinho”, que surpreendeu pelo pacote de opcionais presente. Trata-se da versão Way 1.3 com câmbio automatizado mono-embreagem. Confira a avaliação no vídeo abaixo.

Por R$ 53.830 é possível levar esse carro para casa sem opcionais. Acrescente pintura metálica (R$ 1.602), o kit Tech (R$ 4.194) e o kit Comfort (R$ 921) e terá um igual a esse avaliado. Acima disso, somente o kit Tech Live On (por R$ 208 a mais em relação ao kit Tech).

ESTILO

Gosto do design do Uno. Essa segunda geração atualizou o projeto dos anos 80 sem perder o DNA. Continua sendo um carro de estilo “quadradão”, mas os cantos são arredondados. Eu destaco o bonito desenho das rodas e a criatividade da lanterna traseira com elementos quadrados jamais vistos em outro carro. O desenho do Uno deu tão certo que o mercado europeu adotou esse mesmo estilo na 3ª geração do Fiat Panda.

INTERIOR

Painel com desenho moderno, laterais de portas com tecido e espaço para os ocupantes dos bancos dianteiros são pontos positivos.

Com regulagens de altura para volante, banco e cinto de segurança, qualquer um encontra uma boa posição para dirigir o Uno.

Não posso me queixar dos materiais plásticos, que são bem acabados e tem boa textura. Mas o mesmo não posso dizer do tecido simples dos bancos. Entendo que é uma categoria de entrada. Porém, pelo valor do carro, não seria demais se entregassem um bom veludo, algo visto nos anos 90 no raro Uno CSL e nos esportivos da linha “R” e Turbo.

O espaço do banco traseiro não é dos melhores. No único momento que precisei lotar o carro (5 passageiros), senti incômodo nas costas por conta das pernas de quem estava sentado atrás de mim.

O porta malas é todo acarpetado e tem 280 litros, mas ao ver o calombo causado pelo estepe, senti saudades da solução adotada pelo antigos Unos, que o tinha no cofre do motor e liberava mais espaço para cargas. Vale lembrar que esse antigo tinha 10 litros a mais de bagagem.

MOTOR

Um simples 4 cilindros de 8 válvulas, sem injeção direta de combustível ou turbo, não pode ser considerado algo moderno. Os números de desempenho e consumo animam e mostram que esse motor foi bem desenvolvido.

Louvável o variador de fase na admissão num motor de 2 válvulas por cilindro. Óbvio que pode ser abastecido com álcool ou gasolina, mas a alta taxa de compressão (13,2:1) deixa claro que ele gosta mesmo é do combustível vindo da cana.

O carro testado estava abastecido com ele, portanto estavam lá os 109 cv @ 6250 rpm e os 14,2 kgfm @ 3500 rpm. Com gasolina, perde-se um pouco: potência de 101 cv e torque de 13,7 kgfm. Pesando 1057 kg, a relação peso/potência abaixo dos 10 kg/cv mostram que esse 1.3 é o motor certo para o carro, que não precisa de mais do que isso para fazer bonito.

Comigo, a média geral dos 345 km percorridos ficou em 9,1 km/l. Vale destacar que rodei a maior parte do tempo em ciclo urbano e por vezes me deparei com trânsito pesado.

Em rodovia, mantendo velocidade entre 100 e 110 km/h, o computador informou 15 km/l, bem acima dos números oficiais divulgados pelo INMETRO.

SUSPENSÃO

Algo que me agradou bastante e não foi nenhuma surpresa. Já guiei muitos Unos, Palios, Puntos e afins e a sensação que tenho é que a Fiat conhece muito bem nossas ruas esburacadas. Molas e amortecedores são calibrados para transmitir pouco as irregularidades do solo, e se mantém firmes em curvas e altas velocidades. Em um carro dessa categoria, não poderia esperar algo melhor do que o apresentado.

FREIOS

Foram eficientes e em nenhum momento me deixaram em apuros. Porém, saber que os discos dianteiros são sólidos desanima. O carro não é barato, portanto um par de discos ventilados não seria pedir demais.

CÂMBIO

Eis minha maior decepção. Confesso que nunca fui fã desse tipo de câmbio: automatizado mono-embreagem. Porém, me livrei de todos os preconceitos e tentei reaprender meu modo de guiar para se adaptar ao câmbio.

Não adiantou, pois depois de dias com o carro, cheguei a conclusão que esse é o câmbio errado para o carro.

Logo nos primeiros metros, ainda no estacionamento subterrâneo da sede da Fiat em São Paulo, o carro sofreu nas íngremes rampas. De forma errada, manteve a segunda marcha e insistiu nela até o fim. A falta de força ficou evidente, algo que algum desavisado poderia creditar ao motor, mas o painel “dedurou” e mostrou que a segunda marcha está engatada.

Já no ciclo urbano, que exige constantes trocas de marcha, os trancos continuam lá e mostram que ainda precisam melhorar bastante nesse aspecto.

Eu apreciei mais o modo manual, onde o motorista controla as trocas pelos paddle shifts (ou borboletas) atrás do volante e se livra dos trancos e das indecisões. Aqui, basta aliviar o pé do acelerador, passar a marcha para cima e voltar a acelerar, tal como conduzir um carro com câmbio manual. Melhor seria se os paddle shifts fossem fixos na coluna de direção, para não termos que caça-los quando o volante não está reto.

Defensores do câmbio automatizado dirão que se fizer isso no modo automático os trancos também serão minimizados. É verdade, mas nem sempre você acerta a hora certa da mudança e quando menos você espera, seu corpo é jogado para frente nos indesejáveis trancos.

Esse carro merece um tradicional câmbio automático com conversor de torque. Para mim isso fica mais claro quando vejo que alguns concorrentes oferecem esse opcional por pouco mais que o Dualogic da Fiat.

MERCADO DE CARROS USADOS

Qualquer carro que tem muitos opcionais como esse Uno sofre com desvalorização. Os quase R$ 7 mil em opcionais vão se equiparar aos mais simples no mercado de carros usados, pois a tabela de referência (FIPE) é a mesma.

Pode até ajudar a revender mais rápido por tê-los como diferencial, mas não espere recuperar o investimento. Sempre defendo pacotes fechados, com versões próprias, assim podemos comparar laranja com laranja e banana com banana.

Já a questão do câmbio pode ser um outro problema, ainda mais com o passar dos anos. O alto custo de reparo desses sistemas robotizados faz com que muitos descartem essa opção no mercado de carros usados, diferente do que acontece com carros com câmbio automático, onde a procura tem sido cada vez maior.

Não tenho dúvidas que a desvalorização do automatizado é maior que de um automático. Já o comprador desse carro usado pode se dar bem, pois considerando esses pontos, vai conseguir negociar melhor e possivelmente pagar abaixo da tabela.

CONCLUSÃO

Não posso dizer que teria esse carro na minha garagem. Para mim, dirigir tem que ser algo prazeroso e não burocrático. Quem só guiou carros manuais e quer dar descanso para a perna esquerda, mas só se preocupa em sair do ponto A para chegar no ponto B, não deve se queixar do câmbio, e eu acredito que esse deve ser o público alvo da Fiat.

Mas tenho certeza que, ao testar um bom automático, esse mesmo motorista não vai mais querer saber do automatizado mono-embreagem.

Felipe Carvalho é o primeiro caçador profissional de carros do Brasil. Acesse o site www.cacadordecarros.com.br e saiba mais. Inscreva-se no canal do Caçador de Carros no YouTube e curta a página de Felipe no Facebook.

 

Fotos/vídeo: Felipe Carvalho