O comportamento do consumidor tende a ser muito parecido. As escolhas são feitas baseadas no que a maioria considera ser melhor – o que nem sempre acaba sendo o melhor para você. Prova disso é que os carros estão cada vez mais iguais em concepção, formato, tamanho, motorização e cor.

Sou um defensor da variedade. Gostaria de ver todos os tipos de carros nas ruas, e que a palavra “mico” deixasse de ser atribuída a alguns dos nossos modelos. Mas sei que a realidade não é essa.

Como Caçador de Carros, percebo que os clientes que me procuram querem quase sempre a mesma coisa e têm uma grande preocupação com a revenda.

Pensando nesse senso comum, decidi listar quais os carros usados que você não deve comprar, caso seja um desses consumidores preocupados com a revenda.

Esta não é uma lista de modelos específicos, mas sim de características das quais você deve tentar fugir para fazer um negócio seguro.

COR
Já falei sobre isso em outras colunas e sempre cito o passado, em que tínhamos um leque muito rico de opções de cores.

Nossas ruas eram coloridas, pelo menos até os anos 90. Mas, hoje em dia, se você não quer ter problemas para vender seu carro, melhor optar por aquelas cores mais tradicionais. É o caso de preto, prata e cinza.

Além delas, as cores da moda também se dão bem, como o curioso caso do branco, que já foi renegado no passado e hoje é pedido por muitos.

O azul também está na moda, mas o mercado de usados não tem sido tão receptivo com ele quanto o tem com o branco.

O que deve ser evitado são as cores fortes, com pouca aceitação, tais como vermelho, laranja, amarelo, verde, dourado e tantas outras variações.

Você pode até achar um barato aquele verde “Lamborghini”, mas se não quer perder dinheiro, vá no pretinho básico.

IMPORTADOS
Objeto de desejo e símbolo de status, o carro importado tende a ser deixado de lado com o passar dos anos.

O maior problema está na manutenção, que, em muitos casos, depende de peças que vêm de fora e sofrem com a variação cambial. Além disso, não é qualquer mecânico que sabe ou tem as ferramentas necessárias para trabalhar num importado. A solução é pagar mais caro por uma mão de obra mais qualificada.

Portanto, se você não quer se dar mal na hora de revender o carro, melhor optar pelos consagrados modelos produzidos em nosso País.

MARCAS
Em um mercado tão grande como o brasileiro, com tantas particularidades, é muito difícil atender de forma satisfatória todo o território nacional.

Vejam que a Fiat levou décadas para ser líder de mercado, os coreanos levaram anos para serem aceitos, e agora são os chineses que tentam driblar a desconfiança do consumidor.

A verdade é que marcas com pouca participação no mercado são péssimas de revenda. A desvalorização é maior, e para passar o carro para outra pessoa é preciso dar descontos generosos.

Recentemente avaliei dois carros para um fabricante chinês e os ofereci em lojas e concessionárias. Também fiz um anúncio particular. Infelizmente, a aceitação foi baixa.

CARROS DE LUXO
Quem costuma frequentar oficinas particulares já deve ter se deparado com aquele carrão luxuoso encostado e desmontado em uma delas. Basta perguntar o porquê ele está lá para saber que o conserto custa mais que o valor do carro, e o dono preferiu “abandoná-lo” ali.

É impressionante como alguns modelos que um dia custaram uma fortuna não valem nada com cerca de dez ou 15 anos de uso.

O maior problema está nas partes eletrônicas, que são caras e exigem um profissional qualificado para serem operadas.

Recentemente, avaliei um Audi A8 1997. Um modelo novo desse carro custa tanto quanto um apartamento de luxo.

O que eu avaliei estava lindo e custava metade de um popular 1.0 novo. Mas um problema eletrônico que impedia o funcionamento correto de teto solar, ar-condicionado, sistema de som e câmbio automático fez com que meu cliente optasse por não fechar o negócio. Sabe-se lá quanto ficaria para deixar tudo isso em ordem.

BLINDADOS ANTIGOS
Pelo menos na Grande São Paulo, o número de carros blindados tem crescido de forma assustadora – reflexo da falta de segurança nas ruas. Mas o mercado de usados não é tão bacana com esses carros.

Quem compra um blindado zero sabe disso e procura não ficar mais do que um ou dois anos com o carro – período em que o veículo ainda tem bom valor de mercado.

O segundo dono também não quer ficar com o “abacaxi” na mão por muito tempo. Não raro, ele já compra o carro pensando na revenda.

Não demora muito para aparecerem os problemas de um carro blindado, como delaminações nos vidros, desgaste prematuro de peças de suspensão e barulhos de acabamento.

Chega um momento em que os preços se invertem, e um blindado antigo custa menos que o mesmo modelo sem a blindagem.

É outro caso comum de se encontrar abandonado em ruas e oficinas, simplesmente porque ninguém mais que saber de comprá-lo.

CARROS “PELADOS”
Há quatro itens básicos dos quais muitas pessoas não abrem mão: direção assistida, ar-condicionado, vidros e travas elétricas. Qualquer coisa acima disso já pode ser considerado um algo a mais, e qualquer coisa abaixo disso deve ser evitada.

Nos casos de vidro e trava, eles até podem ser instalados depois, com custo baixo. Já direção e ar são mais complicados e caros para serem instalados.

Repassar um carro sem esses itens é um parto, pois a diferença de preço para um que os tenha é pouca.

Diante desse cenário, fico sem entender como ainda tem consumidor que aceita pagar mais de R$ 30 mil num carro zero básico.

CARROS BATIDOS
Hoje em dia as empresas de vistoria são capazes de identificar se o carro foi batido ou não. Em muitos casos, mesmo que o conserto tenha sido bem-feito, o resultado é uma restrição no final do laudo.

Esse histórico faz com que o preço do carro caia bastante, e ele nunca mais vai conseguir atingir o preço de tabela, por mais que tenha qualidade.

Até para fazer seguro é mais difícil. Tem seguradora que não pega, e outras que aceitam cobrir só um percentual do valor do carro.

Portanto, evite carros que foram batidos se não quer perder dinheiro na hora da revenda.

MODELOS COM PROBLEMAS CRÔNICOS
Graças à internet, hoje em dia temos comentários de consumidores de todos os tipos de produto.

No caso de carros, é fácil levantar problemas crônicos de alguns modelos que você deve evitar. Basta uma rápida consulta na internet para saber se o carro que está querendo comprar é problemático ou não.

Mas tente se aprofundar bastante antes, pois vai ser difícil encontrar um modelo que não tenha reclamação. Sempre aparece alguma coisa. Portanto, é preciso filtrar por problemas mais graves – aqueles que exigem rios de dinheiro para serem solucionados.

Hoje em dia, o grande medo de alguns é com o câmbio automático, que quando funciona é uma maravilha, mas basta precisar de algum repato que o rombo na conta bancária vai ser grande.

CARROS MÉDIOS PARA CIMA SEM CÂMBIO AUTOMÁTICO
Falando em câmbio automático, não há como negar que, atualmente, esse equipamento é muito procurado pelos motoristas brasileiros. Trata-se de uma tendência irreversível. Tanto que alguns carros, das categorias dos médios e superiores, sequer oferecem a opção de câmbio manual.

Em vista disso, as poucas opções dessas categorias para quem gosta de cambiar têm se tornado ruins de mercado, justamente em virtude da baixa procura. Assim, se você não quer perder dinheiro, opte pelo câmbio que a maioria está querendo.
Para concluir, volto a dizer que se você ainda é um entusiasta que adquire um carro pensando no uso, esqueça tudo o que eu escrevi, compre aquilo que deseja e seja feliz. Mas se a ideia é ter um carro que sirva como moeda de troca a qualquer momento que precisar ou desejar, melhor considerar com cuidado esses pontos dos quais tratei.

Até a próxima!

Felipe Carvalho é o primeiro caçador profissional de carros do Brasil. Acesse o site www.cacadordecarros.com.br e saiba mais. Inscreva-se no canal do Caçador de Carros no YouTube e curta a página de Felipe no Facebook.